Presidente norte-americano Donald Trump| Foto: Nicholas Kamm / AFP
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Infelizmente não é possível colocar emojis nos textos da Gazeta do Povo. Liguei em todos os departamentos técnicos em busca de uma solução para colocar um sinal de positivo ao lado da expressão "Grande Dia!" para começar a semana. Parece que a grande pátria de chuteiras finalmente descobriu que as redes sociais não garantem a sua liberdade de expressão.

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Fiquei esperando um pedido de desculpas ou pelo menos a retirada dos xingamentos que recebi nos últimos anos por dizer insistemente que redes sociais não garantem liberdade de expressão. Estou quase perdendo as esperanças. Mas continuo confiando no caráter do brasileiro que me xinga com persistência e tenacidade. Irão voltar aqui e dizer: eu estava errado quando acreditei naquele bando de deputado defendendo que Twitter, Facebook e o raio que o parta eram liberdade de expressão.

Depois de passar anos ativamente recomendando conteúdos dos seguidores mais malucos de Donald Trump, inclusive tornando vários deles milionários, as redes resolveram expulsar o presidente. Qual o critério? Deve ser sorteio tipo aqueles do antigo Xou da Xuxa, jogando cartas com o nome dos perfis para o ar. E o efeito prático, fora dar visibilidade aos influencers contra e a favor, a gente não sabe qual é.

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O que eu acho sobre o Donald Trump ter ou não a conta? Sinceramente, eu acho é pouco. Ele que lute. Mexeu com milionário internacional, sempre vai ter o cordão dos puxa-sacos fazendo a defesa. Será composto dos mesmos que calam quando a censura das Big Techs é sobre o cidadão comum. Quantas pessoas você conhece que tiveram contas derrubadas ou suspensas sem nem entender direito as razões? Gente que posta uma música vê, de repente, todos seus conteúdos removidos para sempre. Mas aí tudo bem, o cidadão que se dane. Enquanto não mexeu com um rico e poderoso, o pessoal continuava falando que rede social garante liberdade de expressão.

Estamos diante de uma série de problemas lógicos das afirmações das Big Techs. Fica parecendo que invariavelmente elas querem o bônus sem arcar com o ônus, mas é um pessoal tão politicamente correto que não é possível. Eu é que devo estar enganada. Diante de escândalos até de recrutamento para o Estado Islâmico via Twitter e Facebook, qual foi a justificativa? Não fazem curadoria de conteúdo, apenas disponibilizam a plataforma.

Passou-se a outro estágio, o de ser avisado sobre conteúdo perigoso. Quando avisada, a plataforma passava a ter a obrigação de interferir, mas continuava dizendo que não era responsável por curadoria de conteúdo. Quem já sofreu ataques ou ameaças, principalmente de anônimos, sabe a lorota que foi essa história. As plataformas chegam a pagar advogados caros para manter esse tipo de conteúdo no ar. Derrubam alguns que ficam famosos na mídia para dar impressão de que estão agindo.

Agora chegamos a um outro estágio. De repente, sem ninguém pedir, as próprias plataformas decidem banir Donald Trump depois que, fazendo mais do mesmo, ele conseguiu um resultado mais trágico que os anteriores. Curiosamente, não baniram as contas que fizeram arrecadação de dinheiro para mandar a Washington os responsáveis por depredação e assassinato no Capitólio. Qual a explicação? Até agora, nenhuma. Ou as redes são responsáveis pelo conteúdo ou não são.

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Diante de toda e qualquer reclamação sobre a leniência das redes com ameaças, terrorismo, anônimos violentos e milícias virtuais, o que diziam nossos liberais de Taubaté? Lembro bem porque quem bate esquece, mas quem apanha lembra. Diziam que não há nenhum cerceamento da liberdade de expressão porque as redes sociais são empresas privadas e, se você não gosta de uma, pode optar por outra.

Bom, o que fez todo esse povo que gosta de se juntar para ir destruir prédio público, matar gente e entrar na lista de terrorismo doméstico do FBI? Resolveu entrar para o Parler, seguindo o presidente Donald Trump. Em seguida, as mesmas Big Techs anunciam que não vai mais poder fazer download do aplicativo que instala a rede Parler. As plataformas onde ele era hospedado dizem também que não vão prestar o serviço. Ou seja, leitores, era mentira que dá para criar outra rede. Dependemos de um punhado de empresas para fazer qualquer coisa, é um poder imenso.

O mais curioso sobre o banimento do Parler é o que incomoda as Big Techs. Não houve uma declaração sólida sobre os motivos, pela linha do tempo parece ter sido assim que Donald Trump resolveu entrar para a plataforma depois de ser banido das outras. Quando o problema era pornografia infantil ou prostituição ilegal, estava tudo bem para Apple, Google e Amazon ganharem dinheiro com o Parler. É um conjunto de princípios e valores realmente curioso.

O princípio do Parler é garantir aquilo que o dono da empresa entende ser liberdade de expressão. Assim é com todas as plataformas. No caso do Parler é não proibir nada. No início de dezembro, surgiram algumas hashtags ligadas aos seguidores de Trump com conteúdo de pornografia infantil: #sexytrumpgirl e #keepamericasexy. Todo serviço online que opera fora da deepweb tem mecanismos de inteligência artificial para detectar imediatamente esse tipo de material e reportar às autoridades, já que os criminosos são incansáveis. O Parler não.

"Eu não procuro por esse conteúdo. Então por que eu deveria saber que ele existe?", disse o CEO do Parler, Jeffrey Wernick, sobre a presença de pornografia infantil na rede que ele controla. Esse tipo de declaração na imprensa nacional parece um convite aos abusadores para que façam parte da plataforma. Não incomodou Apple, Google nem Amazon, que continuaram distribuindo o aplicativo do Parler normalmente. Qual é o limite para parar de distribuir? Ninguém sabe, essas empresas não contam.

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Entre os progressistas, há quem tenha acreditado nesse teatrinho das Big Techs de banir Donald Trump. A maioria deles vê como avanço civilizatório. É um esforço comovente para acreditar em bilionário. Não vejo avanço em tomar uma ação arbitrária sem explicar os motivos depois de compactuar por anos com Trump e seus métodos. Se as Big Techs querem aval para controlar o debate público, precisarão convencer muita gente além dos ingênuos.

Nós tendemos a manter o foco no conteúdo quando se fala em debate público. Obviamente é positivo que se diminua a quantidade de incitações a assassinatos, atos terroristas, depredação de prédios públicos, nazismo, racismo e tudo isso que vem do esgoto moral da humanidade. Mas estamos falando de algo bem diferente aqui. Trata-se de um punhado de empresas bilionárias que, de acordo com seus interesses, ora compactua com esses discursos e ora se volta contra as lideranças desses grupos sem explicar os critérios à sociedade.

Já passamos há muito tempo do ponto em que o cidadão tem alternativa às plataformas. Não há. Muito difícil encontrar algum ramo profissional ou meio social em que a pessoa não perca abrindo mão de estar de alguma forma nas mesmas plataformas. Um punhado de empresas acaba controlando não apenas o espaço da cidadania e o debate público, mas a vida financeira das pessoas, os sonhos de cada família. E essas empresas sistematicamente têm se recusado a obedecer leis em todos os países em que atuam.

A gente presta muita atenção nessa briga política nas redes sociais, mas o caso mais extremo tramitando no STF não é sobre isso, é sobre tráfico de drogas. O Facebook não quer liberar dados de perfis utilizados para operações de tráfico no norte do Brasil, o ministro Alexandre de Moraes ameaçou responsabilizar o CEO criminalmente, os advogados querem agora uma garantia de que nenhum funcionário do Facebook será preso se desobedecer a Justiça brasileira. No meio desse processo de ajustes, mirar numa personalidade destrutiva como Donald Trump é bom marketing, sobretudo no meio progressista.

O que mais me emociona nessa história é a crença de que nossos bravos guerreiros "doisladistas" estão preocupados com liberdade de expressão ou dignidade humana. Invejo quem tem a simplicidade mental para acreditar nesse tipo de nobreza de espírito. Pode ser maldade minha, mas vejo apenas instinto de preservação do próprio grupo e deleite com a vingança contra o grupo oposto. No dia em que a censura for com você, ouviremos um belo silêncio, a menos que você seja rico ou famoso.

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Alguns pensam que a batalha ideológica entre liberdade e censura tem alguma relação com esquerda e direita. Não tem. Os dois campos ideológicos só existem dentro da democracia, uma lógica em que a dignidade é inerente à condição humana e inegociável. A censura é a regra e justificável dentro da lógica em que a dignidade depende da adesão ao grupo. "O meu grupo tudo pode e esmagamos qualquer um que nos questione" é uma lógica que pode ser travestida com ideologias de esquerda ou de direita, até com veganismo, basta ter criatividade.

A nós, reles mortais, resta decidir se vamos nos deixar usar como fantoches desses grupos ou vamos fazer respeitar nossa dignidade. Há quem perca seu tempo defendendo Trump, Biden, Bolsonaro, Lula, Doria ou qualquer outro poderoso que não precisa de ajuda para se defender. Quem defende o cidadão enquanto isso? Os poderosos, com ou sem ajuda das redes, sempre darão um jeito para se fazer ouvir. As vozes que estão à mercê das Big Techs não são as deles, são as nossas.