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Sergio Moro, ex-juiz e ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro, deve concorrer à Presidência em 2022.
Sergio Moro, ex-juiz e ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro, deve concorrer à Presidência em 2022.| Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Houve um tempo em que a Justiça Eleitoral era implacável com propaganda eleitoral antecipada. Eu já não consigo mais lembrar quando foi a última vez em que não estivemos em campanha eleitoral nacional. Pelo menos desde 2014, a campanha está nas ruas, acompanhada passo a passo como capítulo de novela. Esta semana foi aquela do tipo arrebenta coração. Todas as nossas certezas sobre o enredo e os personagens principais acabaram esculhambadas.

Eu tinha certeza de que teríamos a cena final de "BolsoLula o conflito que não ocorreu na primeira temporada". E com Ciro apimentando o negócio todo. Mas essa semana foi um chacoalhão que só senti na versão original de Carrossel, a Mexicana. Foi naquela vez em que trocaram o ator que fazia o pai da Maria Joaquina e todo mundo continuou agindo normalmente, como se fosse o mesmo ator de antes. É assim que me sinto agora. Moro tudo bem, mas Deltan?

O meio de campo está completamente bagunçado. Moro chegou chegando, no partido do Álvaro Dias, o Podemos, capitaneado pela habilidosíssima Renata Abreu. Ciro Gomes, que vinha bem com João Santana a tiracolo, mirando na centro-direita, foi atropelado. Mas não foi pelo Moro não, foi pela PEC do Calote dos Precatórios e pelo furo no teto. Ele pode ser o famoso do PDT, mas a o "Lula" deles é o Carlos Lupi, que talvez tenha outros interesses.

Ciro Gomes mostrou que a família não é de correr de briga. Viu o resultado da votação, catou um trator e partiu para cima dos rebeldes. Suspendeu a pré-candidatura à presidência da República até que o PDT ajude a derrubar a PEC no Senado. A questão é: o PDT quer mesmo derrubar? E se, com a entrada de Moro e Simone Tebet, passar a ser uma boa para Lupi embarcar na canoa de Lula? Sempre teremos Paris.

Eu vi hoje a gritaria generalizada sobre a candidatura de Moro e Deltan nas redes sociais. Há uma única pessoa que tem razão para gritar mesmo: a mulher do Deltan. Avalie você, mãe de família, se seu glorioso mozão chuta um emprego com estabilidade vitalícia e um salário de príncipe para virar político e combater a corrupção. Desculpa, Deltan, mas eu ficaria tentada a internar até mudar de ideia. O Moro largar emprego nos EUA com possibilidade de Greencard depois de largar o cargo vitalício eu não vou nem falar nada porque não tenho estrutura psicológica.

As candidaturas de Moro e Deltan comprovam que toda a operação Lava Jato foi um fato político, dizem os opositores dos dois. Não entendo que tenha começado como fato político mas terminou como um dos mais bombásticos da nossa história. Complicado, mas é fato que a política brasileira virou caso de política e deu no que deu. O bode está na sala: daqui em diante, investigações podem virar método de batalha política? Foi Moro lançar candidatura que decidiram ouvir Bolsonaro falando mal dele num inquérito pendente desde as caravelas e que escapuliu para a imprensa.

Digo que agora a campanha está na rua porque definitivamente entramos de forma ainda mais pesada no jogo de dissonância cognitiva que pautou a imprensa ao longo de 2018 e deu a vitória a Jair Bolsonaro. Ele disse que iria demitir Moro do Ministério se não pudesse trocar o chefe da Polícia Federal. Tem vídeo de reunião ministerial com isso. Depois, houve uma tentativa de ter a concessão barganhando uma vaga no STF. Rendeu o famoso "prezada, não estou à venda". Como era para bater em Bolsonaro, então Moro falava a verdade.

Passam-se meses, Moro resolve voltar ao Brasil e anunciar um evento de filiação ao Podemos na próxima segunda-feira. Ele mal pisa em Brasília, coincidentemente o Presidente da República é chamado a prestar esclarecimentos sobre o episódio da demissão do Ministro da Justiça. Agora, para a imprensa, Bolsonaro vira um guerreiro da verdade. "Moro pediu vaga no STF em troca de mudança na PF", dizem as manchetes. O depoimento sigiloso chegou à imprensa. Danados esses depoimentos que fogem justo nessas horas cruciais.

O brasileiro gosta de fofoca. Eu também gosto, só que nego. Não acordamos para a política, continuamos fazendo fofoca com a vida dos políticos. Só que isso influi em quem dita o nosso destino e as regras do país. Não é igual dar pitaco em vida de artista. Tenho vários amigos com "opiniões" apaixonadas contra e a favor da Lava Jato, dos acusados e acusadores. Nunca leram um processo. Se lessem, também não entenderiam porque não são do ramo. Não é opinião, é coração. E política é coração com pitadas de razão. Às vezes até sem as pitadas.

O cenário político do país está traçado. Temos três militâncias apaixonadas no Brasil e essa paixão independe de fatos ou das atitudes dos ídolos: Lulistas, Lavajatistas e Bolsonaristas. As três candidaturas têm, no entanto, uma gorda fatia de eleitores que a escolhe contra algo pior, não é aderente 100%. E há uma enorme fatia do eleitorado brasileiro que se posiciona mas mais diversas candidaturas, inclusive essas três, e que só cansou de viver de picuinha e campanha, quer finalmente um governo. Isso se resolve na urna, mas sobra outra questão: processo penal como trampolim político.

Claro que antes da Lava Jato já havia promotores e juízes mirando em carreiras políticas e alguns efetivamente conseguiram seu lugar ao sol. Não digo ao sol porque ao sol ficaram Deltan e Moro, mas a galera conseguia lá sua lamparina. Ocorre que, por mais estardalhaço que se fizesse em torno do combate à corrupção - fosse na Justiça comum ou em CPIs - ninguém ia preso. Certa ou errada tecnicamente, a Lava Jato prendeu gente rica e poderosa. Eu pensava que iria morrer sem ver isso acontecer no Brasil, foi algo muito fora da curva.

Essa forma de ganhar poder e apoio popular nessa escala é totalmente inédita para nós. Já está feito. Moro e Deltan já tem poder, geram amores e ódios entre políticos e jornalistas, como é típico dos realmente poderosos. Resolveram pedir exoneração e tentar a vida na política. Duvido que a maioria esteja disposta a sair da carreira. Mas temos aqui dois casos a olhar com carinho: policiais e quem está perto da aposentadoria.

Policiais podem concorrer a cargos políticos sem ter de se desligar, o prazo para filiação partidária é dilatado e recebem salário durante a campanha, podendo voltar para o trabalho se perderem. Não seria uma ótima pré-campanha mirar em pessoas famosas com operações mirabolantes? Já temos casos de policial que contratou equipe cinematográfica para filmar operações e chegou a mandar vítima de sequestro de volta ao cativeiro com o sequestrador armado para pegar uma imagem boa. Não tenho a menor dúvida de que está eleito.

Pense agora em quem quer vingar a prisão de Lula, está perto da aposentadoria e pensa com carinho em ganhar uma cadeira no Congresso Nacional. Se Moro ou Deltan já tiverem uma investigação aberta no dia da posse, o ilustre promotor ou procurador fica famoso. Insistindo bastante e dando entrevistas com palavras duras e alegações morais enfáticas, está eleito. Como vamos lidar com isso? Não sei, não sou candidata a nada, só boto fogo.

O meu presidente ideal é um que eu não saiba nem o nome. Tudo funciona tão direito que, quando eventualmente tem problema, precisa procurar no Google quem a gente vai xingar. Sou minoria. Eleição no Brasil é feito Copa do Mundo e novela das 9, movida a emoção. Nesse sentido, entendo por que o medo da entrada de Deltan e Moro na política. Se eles já mexiam com as emoções amarrados pela liturgia de cargos jurídicos, avaliem o que teremos nesse 2022 que já começou.

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