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São Paulo parou e o jornalismo não viu a hecatombe porque estava na rede social
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A cidade de São Paulo parou. Em breve isso terá reflexos nos outros Estados, que fazem negócios com o coração financeiro do país. Desde o final de semana ninguém consegue emitir nota fiscal eletrônica na cidade. O sistema está fora do ar. Li algumas reportagens sobre o assunto. Poderiam colocar adultos para fazer reportagens ou meninos de 13 anos que fossem tão espertos quanto era o Nelson Rodrigues quando começou na profissão.

Desde sábado ninguém consegue emitir Nota Fiscal Paulistana. Como isso não é lacração, mitagem nem guerra simbólica em rede social, só virou notícia ontem - e errada. Não estamos falando só de empresas que vão emitir nota depois, estamos falando de milhares de pessoas sem salário no coração financeiro do Brasil porque recebem via PJ. Eu, inclusive. Meu pix é meu e-mail. (madeleine.lacsko@gmail.com)

Vi as reportagens falando que o sistema está fora do ar e ele serve para emissão de notas de estacionamentos, salões de cabeleireiros, academias. São 1,3 milhões de prestadores de serviço que teriam até 10 dias para emitir nota de acordo com a lei. Isso é no papel. Na prática, estamos diante de uma das maiores crises que a cidade viveu e eu estaria xingando o prefeito se soubesse o nome dele. Pior que a falha é a forma como se lidou com a questão, mentindo.

Esses "prestadores de serviço" não são empresas. Nos últimos anos no Brasil, até cachorro virou pessoa jurídica. Pena que eu não abri CNPJ em outra cidade para os meus cachorros, senão teria uma chance de receber alguma coisa. Muita gente prefere essa situação e há profissões que já têm toda uma dinâmica de prestação de serviços para várias empresas. Um exemplo clássico é nas áreas de programação e animação.

Ser o campeão mundial de gambiarra é uma honra mas também custa caro. Muitos trabalhadores brasileiros não se encaixam no modelo CLT nem querem, eu inclusive. Ocorre que a gente também não é empresa. Numa hecatombe como essa da Nota Fiscal Paulistana fora do ar sem explicação nenhuma nem previsão de volta, eu não tenho atraso de fluxo de caixa, eu fico sem salário. Quantos desses 1,3 milhão de contribuintes estão em situação pior ainda?

O arranjo entre quem tem esse tipo de relação de trabalho é emitir a nota para o tomador até um determinado dia do mês para receber dias depois. Soube hoje de uma pessoa que passou mal porque emitem até dia 18 para receber dia 5. Agora ele só vai conseguir receber em 5 de janeiro. E o Natal? Pois é, quantas pessoas darão calote no Natal porque não vão conseguir receber? E qual será o efeito disso? A cidade de São Paulo gera 10,5% do PIB do país. E ela parou sem previsão de volta.

A prefeitura disse a vários jornalistas que as empresas usuárias da Nota Fiscal Eletrônica têm até 10 dias para fazer a emissão. E eles simplesmente escreveram isso. É aquele câncer chamado jornalismo declaratório numa fase de metástase que corrói a realidade. Realmente é possível legalmente fazer uma RPS (Recibo Provisório de Serviço) que será automaticamente convertida em nota fiscal 10 dias depois. Sabe o que não é possível em muitos casos? Receber o dinheiro. E aí complica, ainda mais em época de Natal.

Semana que vem é o pagamento da primeira parcela do décimo-terceiro. Esta semana é geralmente a última para emissão de notas de PJs para recebimento no mês de dezembro. Qual será o impacto? Não sabemos porque a prefeitura de São Paulo não informou e também ninguém perguntou. Geral estava falando da nota da Globo sobre a atriz demitida ou da competição das paquitas de político sobre as viagens de Lula e Bolsonaro.

Para mim, a pior parte não é o problema em si. O Brasil é esculhambado mesmo. Ficar uma semana sem emitir nota fiscal na cidade que responde por 10% do PIB é normal para a gente. Anormal e ficar tratando como se fosse uma manutenção básica e dizendo ao contribuinte que em mais uma hora o problema estará resolvido. Está sendo assim desde sábado. Agora mudaram porque saiu na imprensa e pegou mal. Mas ninguém disse quem vai arcar com o prejuízo gerado pelos atrasos. E uma comunicação pública poderia ter evitado muitas situações.

Pessoas que perderam o prazo para emissão de nota fiscal e vão ficar sem salário poderiam não ter passado por isso, que é um pesadelo. No Natal, ainda pior. Imagine que a prefeitura de São Paulo tivesse feito um anúncio público sobre a falha no sistema, quais são os tipos de empresas afetadas e oferecesse uma solução provisória - até em papel mesmo - para o cumprimento de prazos. Quem faz os pagamentos compreenderia que é uma situação excepcional, até ajudaria a buscar solução.

Mas nós vivemos na economia da atenção. Se não chama a atenção não é problema, certo? Melhor não falar nada. O desespero por enquanto está só nas casas, empresas, nas vidas de milhares de pessoas. E ele vai ter um efeito de bola de neve na virada do mês porque calar evita a solução. Mas falar poderia dar prejuízo político, gerar a ideia de ineficiência. Espero que não tenha sido esse o cálculo porque está errado. Ninguém nem sabe o nome do prefeito.

Eu resolvi falar diretamente com o secretário da Fazenda do Município, a quem já peço desculpas antecipadamente pela minha educação de periferia que nem o colégio de freiras consertou. Infelizmente, ele não tem previsão de volta do sistema e também escreveu meu nome errado. Se você tem negócios com alguém de São Paulo, aconselho a tentar encontrar uma solução de comum acordo antes que essa crise estoure.

É um episódio que precisa nos servir de lição. Ele tem solução se nós retomarmos o contato com o mundo real. Há outras formas de documentar a emissão dessas notas e viabilizar os pagamentos de maneira excepcional devido ao problema. Ocorre que nós não percebemos uma hecatombe que atinge o coração financeiro do Brasil porque estamos hipnotizados com a Camila Queiroz, o vereador de BH e o touro dourado. Eu, inclusive, que deveria ter escrito sobre isso há dias e não fiz.

Estamos ignorando problemas reais e dores reais para viver fantasias de redes sociais porque elas tomaram o noticiário de assalto? Estamos. E a política virou refém desse sistema primeiro nas campanhas. Agora vemos uma amostra concreta de como a administração pública está sendo feita com base em atenção e repercussão, não na vida real.

Ontem, quando eu fiz o artigo sobre o bezerro de ouro topzêra da B3, já estava pesquisando sobre o sistema da Nota Fiscal Paulistana. Desconfiei desde terça que estivesse fora do ar por ataque ramsomware, então fui atrás dos casos que já tinham ocorrido no Brasil recentemente. Foram 8 grandes empresas listadas na Bovespa e até o Tesouro Direto. Uma das empresas teve de ficar com ações fora da bolsa por 12 dias. A outra pagou US$ 11 milhões aos hackers para resgatar os dados.

Eu até agora não sei o que aconteceu com a emissão da Nota Fiscal Paulistana. Nem sei também se a prefeitura sabe. Aguardo as soluções para contorno do problema que o secretário da Fazenda tão gentilmente prometeu por whatsapp. Talvez já tivessem até vindo se nós, da imprensa, estivéssemos mais atentos a fatos do que a não-fatos.

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