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Com Ciro Nogueira na Casa Civil, somos obrigados a nos confrontar, mais uma vez, com a Realpolitik - a deusa das esperanças perdidas.
Você é o jogador ou o peão no xadrez do avanço tecnológico? Pense bem.| Foto: Bigstock

Se você crê em Deus, obviamente responderá que confia nEle muito mais do que na tecnologia, por mais avançada que seja. E aí eu faço a provocação: será? Racionalizando a questão parece impossível confiar mais na tecnologia. Ocorre que nossa relação com os avanços tecnológicos pode converter-se em idolatria e passaremos a agir depositando nossa confiança e nosso tempo em máquinas.

Penso com muita frequência no agir cristão dentro deste mundo de hiperconectividade, algoritmos e Big Techs. Parecem assuntos desconexos mas não são. É por princípios de fé que sempre fui contra movimentos de ataque em enxame, que uniformizam as pessoas e comportamentos. Somos criaturas únicas. Também por isso chamo a atenção para a Tecnocracia: as máquinas devem servir e aprimorar a criação, não ser o centro da vida, que é sagrada.

Hoje vi um amigo postar um texto do site TuPorém que faz uma análise interessantíssima sobre a sacralidade da vida humana, a idolatria da tecnologia e como o agir cristão pode mudar completamente essa relação. Recomendo vivamente que você leia. É um sopro de lucidez nesses tempos tão turbulentos. Luiz Adriano Borges, professor de história da tecnologia da UTFPR-Toledo, faz uma análise interessantíssima a partir do game Detroit, uma obra-prima.

Eu parto aqui de outro ponto do texto, em que ele cita "A abolição do homem", livro de C. S. Lewis de 1943. Ele prevê que nós usaríamos tudo possível de tecnologia para levar a humanidade ao próximo passo da evolução mas acabaríamos por destruir a natureza humana, o que é a destruição da criação, da humanidade em si. Alertas servem para evitar erros. E nós podemos ouvir C. S. Lewis.

Há quem veja tecnologia como algo maligno. Eu vejo da forma oposta, é uma bênção divina a criatividade humana que hoje nos permite avançar em abundância, conhecimento, crescimento pessoal e diminuir sofrimentos antes intransponíveis. Já sofri horrores com esses algoritmos das Big Techs e sei que isso pode e deve ser contido. Mas também já consegui e já vi coisas inacreditáveis que jamais imaginei serem possíveis anos atrás.

Há algum tempo fiz uma entrevista com o CEO de uma empresa de tecnologia que estava testando uma máquina para que, a distância de milhares de quilômetros, médicos de primeiro time das melhores universidades do mundo, pudessem examinar pacientes graves de regiões carentes do planeta. Não basta uma chamada de Zoom.

O aparelho era em duas partes. Junto do paciente alguém punha uma luva cibernética e tocava na área doente. O médico, usando óculos especiais e outra luva, recebia o sinal de 5G a milhares de quilômetros. Era como se ele, de Nova Iorque, estivesse realmente fazendo o exame em um paciente raro e grave no meio da África. Quando eu era criança, uma coisa assim chamava milagre.

Já estudei caso de vilarejos asiáticos que viviam numa miséria danada vendendo a preço de banana artesanato raro. Eram peças revendidas na Europa e Estados Unidos por pequenas fortunas. A internet veio e os mais jovens descobriram isso. Aprenderam a montar lojinhas, contactar empresas de transporte, fazer publicidade online. Mudaram esses vilarejos, têm mais saúde, conforto, melhor comida e liberdade para sonhar e descansar.

Pense em você, que usa a internet numa medida normal. Quanta gente você já ajudou nos últimos anos? Quantos animais viu serem adotados? Criança e jovem ganhando bolsa de estudo porque alguém se comoveu? Fora a bênção de poder ouvir a voz e ver os nossos durante esse período tão sombrio da pandemia.

A tecnologia é uma evolução desde que saibamos usá-la a nosso favor. Big Techs, usando diversas técnicas psicológicas e neurológicas, imaginam um mundo em que nós existimos para alimentar algoritmos. Todos conhecemos quem fica o dia todo batendo boca em rede social. A própria imprensa já virou um puxadinho do bate-boca. Esse movimento é idolatria da tecnologia, colocar o ser humano a serviço da evolução tecnológica que beneficia apenas um pequeno grupo.

O site Tu Porém provoca a discussão sobre o medo de que seres humanos sejam substituídos por Inteligência Artificial. Eu nunca tive medo disso porque não creio ser possível, mas era por fé mesmo. Agora eles trazem um dado interessante. A Universidade de Harvard e o Google mapearam 1mm cúbico do cérebro humano para verificar quanto de informações havia.

Encontraram 1,4 petabytes de dados em apenas 1mm cúbico do cérebro humano. Como temos aproximadamente 1,2 milhão de centímetros cúbicos de massa cerebral, isso significa 1 bilhão de petabytes de dados. Um único petabyte equivale a 2 mil terabytes. Em 2 terabytes - não 2 mil - é possível armazenar 6 anos de áudio ininterrupto 24 horas por dia e sobra espaço. O nosso cérebro ainda é a máquina mais incrível e misteriosa que há.

Os dados do tanto de informação que cabe no cérebro humano são absolutamente impressionantes. Mas precisamos lembrar que representam apenas o que já sabemos medir e o que é matéria. A essência humana tem também sentimentos, transcendência, fé. Tudo isso está ali, mas não sabemos como ver nem medir. Ainda. É por isso que nem conseguimos reproduzir o humano em inteligência artificial.

A tecnologia evolui cada vez mais rápido. É muito possível que nossa geração viva para ver andróides com consciência ou inteligência artificial com consciência. Seria um outro tipo de existência, ainda assim diferente da essência humana. Na criação, cada ser é absolutamente único e impossível de repetir. A força da humanidade está na nossa união, nas famílias, nas raízes e na forma como nossos erros e acertos são complementares de forma coletiva.

É exatamente por sermos únicos, com experiências absolutamente diferentes mesmo crescendo juntos, que conseguimos evoluir. Um apara as arestas do outro, um ampara o outro quando cai, erramos, pedimos perdão, perdoamos, crescemos juntos muito mais do que sozinhos. E daí é que eu volto à pergunta de se você confia mais em Deus ou na tecnologia.

Confiar em Deus não é achar que confia nem dizer que confia, é entregar a vida a essa relação sem questionamento. Quem confia em Deus sabe que a alma humana precisa de transcendência, tempo para contemplação, amor, participação na família, na comunidade e no grupo de amigos. Quem confia na tecnologia manda postagem de paquita de político até no grupo da igreja porque a alma foi preenchida por tudo o que faz sucesso nas redes. É a idolatria.

Quanto mais nos distanciamos da nossa humanidade, mais frustrados ficamos. Perceba que já há pessoas que vivem para abastecer algoritmos, são felizes no instagram, são justiceiras sociais no twitter, são dançarinas de tik tok e são cada vez menos humanas. A tecnologia nos trouxe os likes, a possibilidade de buscar aprovação social o tempo todo. Onde há vaidade não sobra lugar para Deus.

Sugiro que este final de semana você reflita com as pessoas que você ama se está usando a tecnologia a seu favor, para elevar sua alma, estender a misericórdia a mais pessoas, compreender melhor a beleza da criação e como protegê-la, manter os laços de amor e comunidade que nos fazem mais humanos. É possível usar as redes para isso ou ser usado por elas e ficar batendo boca com estranhos. Ganhamos livre arbítrio para saber usar.

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