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Professores e alunos de universidades começam a questionar pressão para concordar com Ideologia de gênero
Na Inglaterra e Estados Unidos, já está claro que criticar Ideologia de Gênero não é discurso de ódio.| Foto: Dainis Graveris/Unsplash

Nos círculos acadêmicos e em boa parte da imprensa brasileira, a expressão Ideologia de Gênero é um equivalente de terraplanismo. Como foi muito utilizada na campanha presidencial de Jair Bolsonaro e é tema corrente no universo evangélico, automaticamente foi rotulada como teoria conspiratória e papo de maluco.

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Não precisa nem dar seu ponto de vista, é só dizer Ideologia de Gênero em qualquer rede social para conseguir imediatamente sua carteirinha de fascista e um brevê de transfobia avançada. Essa prática social tão saudável parece que está se tornando um problema no ambiente universitário e as reações começaram, registra esta semana a revista The Economist.

Trata-se de mais um grande momento em que pessoas reais com sofrimentos reais pouco importam e podem até ser esmagadas. A questão central é a autoajuda disfarçada de militância e exercida como uma mordaça festiva com arroubos de leão de chácara.

Ideologia de Gênero é uma teoria social segundo a qual a identidade de gênero deve estar acima da biologia. Crítica de Gênero é a visão segundo a qual o sexo biológico é imutável, qualquer seja a forma como a pessoa se veja. Obviamente você já se posicionou, certo? Calma, não é tão simples. Nem a ciência acabou de pesquisar ainda e há mais nuances do que imaginamos.

Conservador, o empresário Flávio Rocha é contra a Ideologia de Gênero. No entanto, a empresa dele é a que mais emprega pessoas trans no Brasil e a primeira a instituir o uso do nome social, antes mesmo que tivéssemos lei para isso. Rendeu-se à lacração? Muito pelo contrário, à realidade.

Nessa entrevista de 2018, ele me contou que, não se sabe exatamente a razão, há um percentual grande de pessoas trans que se saem muito bem trabalhando com moda. Essas pessoas são contratadas por mérito. Se é alguém que se veste de mulher e quer ser chamada de mulher, para quê vai colocar um crachá com nome de homem? Não tem sentido para ninguém isso, nem para os clientes.

A guerra nas universidades foi iniciada nos Estados Unidos, diante da decisão de tratar como discurso de ódio qualquer questionamento sobre a Ideologia de Gênero ou a propagação da Crítica de Gênero. Discurso de ódio não é coberto pela liberdade de expressão lá e pessoas começaram a perder o emprego e se calar.

A tensão disparou quando começaram as discussões sobre uso do banheiro. Mulheres trans devem ir ao banheiro feminino ou masculino? Eu sinceramente não sei como se criaria uma regra para isso. Há relatos de pessoas trans que estupraram mulheres se aproveitando da entrada em ambientes femininos. Por outro lado, daria certo uma Roberta Close no vestiário masculino?

A patrulha identitária teve sucesso em caracterizar como preconceito e transfobia o que não tem nada com isso. A preocupação não é garantir inclusão, direitos e oportunidades iguais para pessoas trans, é obrigar todo mundo a pensar na identidade das pessoas trans da mesma forma que a militância pensa. Já passou tanto do limite que as reações começaram, diz a revista The Economist.

O que seria passar do limite? Vamos a episódios concretos relatados pela revista. Jo Phoenix, professora de criminologia, ia fazer uma palestra sobre a colocação de mulheres trans em presídios femininos na Essex University. A entrada dela foi impedida por uma barricada de estudantes que a acusavam de transfobia e discurso de ódio.

Segundo a revista, eles davam show de tolerância. Fizeram circular um panfleto que tinha a imagem de uma arma de fogo e o texto "shut the fuck up, TERF", cale a boca, TERF, sigla para feminista radical excludente de trans. A universidade decidiu adiar o evento e depois comunicou que estava cancelado.

Mês passado, a Abertay University em Dundee abriu uma investigação sobre um aluno. Ele foi denunciado por vários outros por ter dito em um evento que mulheres têm vagina e homens têm mais força física. Teve coisa bem pior.

Callie Burt, professora da Georgia State University foi demitida do corpo editorial da revista Feminist Ideology. Ela é crítica da Ideologia de Gênero e a universidade alegou que a presença dela poderia inibir a submissão de trabalhos. A professora de antropologia da universidade de Alberta, Kathleen Lowrey, foi demitida porque alunos diziam não se sentir seguros em sua presença. Ela tinha pôsteres de feminismo radical na própria sala.

O marco da mudança na situação, segundo a revista The Economist, é o relatório feito pela advogada especialista em discriminação no ambiente de trabalho, Akua Reindorf, para a Universidade de Essex. Ela concluiu que houve erro e seria recomendável pedir desculpas a duas professoras, a que teve a palestra cancelada e Rosa Freedman, vetada na semana memorial do Holocausto por sua visão Crítica de Gênero.

Segundo o relatório, ser contrário a Ideologia de Gênero não equivale a discriminar uma pessoa, não é discurso de ódio e nem é ilegal no Reino Unido. Pessoas não podem ser punidas por isso só porque outras querem ou dizem que se trata de uma ofensa não aderir ao que elas crêem. Isso é muito diferente de realmente rejeitar, não querer a integração ou desrespeitar pessoas trans.

Em nenhum dos casos de punição houve eventos de discriminação, humilhação, maus-tratos, ridicularização, nada disso. Para Katleen Lowrey, o pior problema nem é o das acusações injustas, é o silêncio. Justamente no ambiente universitário, onde há mais condições tanto para avançar em conceitos científicos quanto sociais, as pessoas precisam calar sobre um tema. Quem abre a boca sofre as consequências.

"A polarização política da América torna ainda mais difícil debater esses tópicos. Ativistas trans frequentemente retratam a crítica de gênero como uma causa de extrema direita. Embora esteja também tornando-se isso, é um tópico sobre o qual feministas de esquerda e conservadoras sociais concordam. Na Grã-Bretanha, a maioria dos acadêmicos críticos de gênero são feministas ateus de esquerda. Alguns na América também", diz a revista.

Todos sentimos que a polarização política aumentou nos últimos anos, sobretudo com a convivência mediada pelas redes sociais. Como consequência, aumentou também a malandragem. Pintar como extrema-direita ou extrema-esquerda todo mundo que discorda em um tema específico tornou-se recurso comum de debate.

Junte-se a isso a distorção do radicalismo, fazer julgamentos morais com base em ideologia política. Na esquerda existe o monopólio da virtude. Em parte da direita existe a crença de que todo esquerdista é mau e todo direitista é bom. Ideologia não define caráter e, na verdade, nesse bate-boca todo, a gente nem sabe se a pessoa realmente é aquilo que diz ou se fala por causa do grupo.

Vários assuntos passam a ser solidificados como tóxicos e cria-se uma cartilha completa de valores que tem de ser seguida por quem é de determinada ideologia. Só que isso não existe, as pessoas e situações são complexas. Pouco a pouco, tem gente que começa a resitir e vencer. O relatório de Essex foi um primeiro passo.

Em fevereiro, a professora de estudos femininos da Rhode Island University, Donna Hughes, escreveu um ensaio criticando a Ideologia de Gênero. Começaram os protestos e abaixo-assinados pela demissão dela. A Universidade disse que ela tinha liberdade de expressão, só que isso não era sem limites. Desta vez, mexeram com a pessoa errada.

Co-fundadora da AFA, Academic Freedom Alliance, ela contratou um advogado e entrou na briga. Mês passado a universidade desistiu da investigação e disse publicamente à professora que ela tem o direito de se expressar. A revista vê como um passo importante para que empresas defendam seus empregados nestes casos.

Vivemos um clima em que todo mundo tem medo de dizer uma palavra errada. Até porque não tem certo e errado. Se a patrulha identitária inventar raízes históricas fajutas, etimologia freestyle ou regras próprias de convivência, vai sair apontando o dedo e chamando de fascista quem não cumprir. Na Universidade, isso é um desastre.

Na Inglaterra, alunas universitárias já começaram também a se organizar. Fizeram um evento de palestras chamando todos os palestrantes cancelados por acusações injustas de discurso de ódio ou transfobia. Jamais haviam dito ou tratado pessoas trans como menos dignas, apenas são contra Ideologia de Gênero.

O tema começa a chamar a atenção do mundo empresarial desde que se "descobriu" não haver indicação científica para redesignação sexual de adolescentes. Quantas podem ser as vítimas da política de um falso bom mocismo, feito com a suposta boa intenção de incluir, mas cuja prática é o silenciamento e a imposição de crenças?

Hoje, poucas empresas e instituições podem ser justas com um funcionário que expresse qualquer tipo de crítica à Ideologia de Gênero. O barulho e a destruição de reputação promovidos pela patrulha identitária são irresistíveis. Este cenário começa a mudar. Talvez estejamos diante do início do fim da paciência com quem ganha no grito e na força bruta. Chega uma hora que ninguém mais aguenta.

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