Glenn Greenwald inventou um crime que não existiu
| Foto: Lula Marques/Fotos Públicas

Se você é da turma que esbraveja "o feitiço virou contra o feiticeiro", pode deixar o seu xingamento que continuarei orando por você. Caso você seja da turma que compreende a complexidade da natureza humana, sigamos. Há um fenômeno na esquerda que pessoas distantes da militância tendem a chamar de "justiceiros sociais" e delinear com uma certa imprecisão. Exatamente por ser um homem de esquerda, casado com um deputado de esquerda, o jornalista Glenn Greenwald observa os pontos precisos do surgimento do autoritarismo do bem.

Eu queria muito ser autora da expressão Zen-Fascismo. Infelizmente não sou, é roubartilhada. Foi cunhada na Copa de 1994 pelo brilhante Nelson Motta em observação ao também brilhante Claudio Manoel. Chegou às mãos dos dois um manual sobre como abordar mulheres em campi universitários. A desculpa era evitar assédio, mas a obra era evidentemente fruto de uma mente bem tarada. Diante da roupagem de bom-mocismo misturada a uma sede de controle até do sexo, veio o termo Zen-Fascismo. Caso o Nelson Motta não se lembre da passagem, roubarei oficialmente a autoria da expressão.

Um dos direitos mais democratizados no mundo é o da imbecilidade. Na área política então, podemos até arriscar dizer que trata-se do único direito realmente exercido de maneira universal. Chega a ser comovente a forma como militantes apaixonados imaginam que autoritarismo existe apenas no pólo político oposto. Os que pensam assim geralmente são da bancada que costumo chamar carinhosamente de "paquitas de político". A grande maioria, no entanto, é consciente de que há risco de autoritarismo onde quer que existam pessoas e poder.

Hoje, o psicólogo Christian Dunker deu uma entrevista ao Estadão falando da diferença entre pessoas que reclamam e dramatizam nas redes sociais. Fiquei especialmente ofendida. Havia acabado de fazer um relato comovente, no melhor estilo #classemédiasofre sobre uma ida a uma agência dos Correios. Os atendentes usavam aquelas máscaras plásticas de mentira e, enfim, se isso não é sofrimento, meus amigos, não sei o que é. Mas Glenn Greenwald faz o alerta de que há outros jornalistas muito mais talentosos do que eu nessa arte. Isso obviamente também me deixa ofendida.

Banalizar acusações de assédio ou ameaças tem sido uma forma de jornalistas de grandes veículos se blindarem de críticas ou reações justas ao seus trabalhos e opiniões. E isso não sou eu quem digo, é o Glenn Greenwald. Há casos, inclusive punidos judicialmente, de hordas organizadas para assediar jornalistas. Mas há outros que alegam ter passado por isso quando, na realidade, só não querem ter de lidar com críticas. Não se trata de fraqueza, mas de uma blindagem autoritária que dá um poder imenso à mídia progressista.

"A tentativa contínua de jornalistas em grandes veículos de se colocarem fora dos limites, alegando que é "abuso" ou "assédio" criticar seu trabalho é bizarra, e uma perversão total do jornalismo e da dinâmica de poder", acusa Greenwald. É um fenômeno comum na era digital a confusão entre crítica, ataque, assédio e ameaça. Só favorece os mal intencionados. Já ouvi, por exemplo, que ameaçar meu filho de morte e ir à escola dele é uma "crítica" ao meu trabalho. Trata-se de imprecisão dos colegas que disseram. Da mesma forma, vejo como imprecisão afirmar que seja uma ameaça de morte alguém esbravejar "eu queria que você morresse" numa rede social.

O próprio Glenn Greenwald já sofreu perseguição, é jornalista investigativo há muito tempo, antes até de vir para o Brasil. Você deve conhecer alguém que já sofreu perseguição por algum motivo, seja por denunciar alguém desonesto, por um ex-amor descontente, por algo que disse. É comum o perseguidor tentar minimizar o que faz, principalmente quando ele tem quem o acoberte. O caso é que muito pouca gente acredita. Adultos sabem perfeitamente a diferença entre perseguição e crítica ou xingamento. Também sabem ser natural que um perseguidor tente negar a própria torpeza e identificam quando alguém simula perseguição.

Esse contexto de confusão entre algo aparentemente muito claro para adultos traz à tona uma expressão que andava famosa até agora na direita: guerra cultural. Se for conservador, você já deve ter visto por aí quem acha globalismo, comunismo e great reset até em barraquinha de cachorro-quente. Há um correspondente deste movimento na esquerda. É o pessoal que vai achar racismo, machismo, patriarcado e homofobia até em barraquinha de cachorro quente. E não vai voltar atrás só porque os fatos mostram que não era nada disso.

Ah, mas essas coisas todas não existem? Existem. Não é errado dizer que teorias como globalismo e patriarcado existem. Mas usá-las para justificar todo e qualquer fenômeno humano só não é patético porque é bem perigoso. Dois atentados recentes nos Estados Unidos foram divulgados pela mídia como crimes de ódio racial white power e homofobia. É correto fazer essas afirmações porque as vítimas são gays ou asiáticas? Claro que não, é uma simplificação autoritária.

"Bom segmento @brianstelter sobre como a mídia cria e codifica narrativas falsas permanentes sobre fuzilamentos em massa ao proclamar instantaneamente motivos sem evidências: o massacre de PULSE * não * foi motivado por ânimo anti-LGBT, nenhuma evidência de motivo racial em Atlanta, etc", diz o tweet de Glenn Greenwald. O vídeo de Brian Stelter na CNN declara que "Quando uma história surge, fragmentos de notícias podem ser "ofuscados por uma pressa de julgamento, por uma narrativa pré-preparada", diz @brianstelter. "E existe o risco de que a narrativa seja a única coisa que é lembrada, em vez da verdade que surge lentamente com o tempo ..."

Glenn Greenwald reclama, por exemplo, que a principal meta de vários veículos progressistas e liberais parou de ser fazer jornalismo. O comprometimento está em uma espécie de guerra cultural antirracista, feminista e pró-LGBT (corrijam-me se eu errei a sigla correta do mês). Há uma pressa em ver esses pontos em rigorosamente todos os fatos, nem que seja necessário pisotear os fatos. Cria-se uma narrativa paralela no próprio jornalismo, o que é um prato cheio para o ambiente de fake news.

No jornalismo clássico, a prioridade é a apuração dos fatos. Infelizmente, não é um processo que segue o ritmo frenético da necessidade de publicação na internet. Também não seguirá a demanda das pessoas por "opiniões" sobre o tal fato ainda nem apurado que coincidam com as suas opiniões. Há um mercado que atende essa demanda e não chama jornalismo. No entanto, a guerra cultural antirracista e contra o patriarcado tem feito com que muitos veículos permitam a transformação do jornalismo em peça de ficção. Quem perde é a sociedade.

As reclamações de Glenn Greenwald não são de hoje e ficaram mais fortes quando tanto a mídia quando as redes sociais o proibiram de publicar uma história prejudicial a Biden na véspera das eleições. O jornalista atualmente, no Brasil, é colunista da Carta Capital e está para lançar um livro sobre autoritarismo e democracia no Brasil. Goste dele ou não, tem um ponto de vista importante e vivência suficiente na esquerda midiática para saber exatamente do que fala.

Dia desses, vi jornalistas progressistas falando de Glenn Greenwald como se tivesse passado a ser apoiador de Trump e Jair Bolsonaro. É o Zen-Fascismo em sua forma mais pura e acabada, o autoritarismo do bem. É segredo para alguém que o jornalista faz oposição aos dois políticos de direita? Claro que não. Mas o jogo do parque de areia antialérgica é esse mesmo. Apontou qualquer erro, não dobrou a espinha, questionou ou peitou autoritários, passa a ser tratado feito louco. Diria que, neste caso, a loucura é um baita de um reconhecimento.

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