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José Aguiar é um quadrinista curitibano que tem se destacado por anos a fio não somente em Curitiba, mas também no Brasil. E, para completar, não somente no Brasil, mas também na Europa.

Ele está lançando seu mais novo álbum, Nada com coisa alguma, uma coletânea de tiras de histórias em quadrinhos que aposta no uso da linguagem como diferencial. Além disso, seguindo o passo de gênios como Laerte, deixa as tiras cômicas para fazer um trabalho mais reflexivo e experimental.

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O +Quadrinhos entrevistou o Zé e você confere o bate-papo aqui.

Zé, acho que para começarmos, você podia falar um pouco da sua jornada com os quadrinhos. Como você começou? Há quanto tempo? Quais seus primeiros passos?

Eu comecei curtindo seriados e desenhos animados na TV, que me levaram a querer desenhar os personagens. Com os quadrinhos deles em mãos fiquei tentado a criar histórias. Fazia fanzine manualmente na escola, com um exemplar só, que circulava na classe. Um dia comecei a fazer tiras e juntei um bom número e fui à redação da Gazeta do Povo. Não passei da porta, mas depois de meses elas foram publicadas. Na época eu tinha 14 anos e essas tiras saíram na da extinta “Gazetinha” o suplemento infantil do jornal, que tinha um espaço dedicado a tiras enviadas pelos leitores. Dois anos depois eu fui até o antigo Jornal do Estado (hoje Bem Paraná) e consegui minha primeira publicação remunerada com as tiras do personagem “O Boi”, um gorducho bonachão. Com 16 anos já era um “profissional remunerado”. Chique, não?

Nessa época eu descobri a Gibiteca de Curitiba, passei a frequentar as oficinas e eventos que ela promovia. Fiz amizade com outros caras que, como eu, queria fazer HQs. Fizemos exposições, fanzines, palestras. Com alguns eu cheguei a montar um estúdio de ilustração.

Bacana! O que aliás, remete a outra pergunta: você trabalha só com isso atualmente? Você pode dizer que você sobrevive apenas de quadrinhos?

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Sim, eu vivo de quadrinhos. Mas não exclusivamente da produção deles. Realizo cursos, palestras e eventos que difundem a cultura das HQs.

Nos últimos anos tenho viabilizado meus projetos autorais principalmente graças ao edital do Mecenato Municipal de Curitiba, via Fundação cultural. é uma forma de colocar em prática ideias que editoras convencionais não levariam adiante.

A necessidade me tornou mais proativo do que tinha planejado ser. Hoje além de publicar meus livros pela minha editora independente, trabalho com teatro (no Cena HQ) e estou sempre envolvido com a formação de público nos demais eventos que promovo.

Isso é muito bom, por duas razões: uma que é saber que quadrinhos podem (e devem) ser fonte de renda digna para pessoas talentosas (e batalhadoras) como você. E outra é saber que existem mais possibilidades para os quadrinhos. Mas me diga, com essas leis de incentivo fica mais tranquilo? As empresas apoiam bastante? Ou são reticentes e é necessário haver um convencimento?

Prospectar incentivo é sempre delicado e trabalhoso. Ë um processo que pode levar anos. Inclusive neste ano quase todos os produtores culturais estão com dificuldades sérias para captar recursos.

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No meu caso, tanto como artista ou como empresa, eu trabalhei a construção de um portfólio e imagem profissionais. Isso me abre portas, pois levo um currículo de ações que repercutem dentro e fora do país. Com isso eu consigo incentivadores que se mostram abertos a propostas até mesmo mais radicais como os quadrinhos de Vigor Mortis Comics, que possui uma público mais restrito devido ao conteúdo extremamente violento.

E a ideia de ser independente? Você acha que tem uma vida financeira melhor por ser independente e lançar seus livros pela sua própria editora ou seria mais vantajoso ter uma editora?

Eu me tornei meu próprio editor por necessidade. Claro que seria excelente ter uma editora grande cuidando das etapas burocráticas e logísticas dos livros. Isso me daria mais tempo para criar. Mas em compensação, ano passado tive uma pequena vitória ao ver um livro que eu mesmo editei, concorrendo ao prêmio Jabuti com um livro editado por uma grande editora que havia recusado o mesmo projeto: Reisetagebuch- Uma viagem Ilustrada pela Alemanha. Me senti menos nanico.

Mas infelizmente incentivos só são possíveis via editais. Fora deles, os empresários, particularmente as editoras, não investem em projetos autorais. Preferem apenas as adaptações literárias.

Infelizmente eles parecem acreditar que uma adaptação vai vender mais do que um projeto autoral. Talvez eles até tenham razão, já que muita gente pensa que ler uma adaptação em HQ é mais fácil do que ler a obra. Mas com certeza é uma pena.

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No geral as editoras me parecem muito conservadoras. Buscam o sucesso de vendas amparadas em nomes de apelo na mídia ou em vendas para o governo. Falando em quadrinhos, ainda as vejo muito reticentes.

Mas agora falemos do seu novo livro, “Nada com coisa alguma”. Fale um pouco sobre ele, antes de eu começar a perguntar algumas peculiaridades dele…

O Nada Com Coisa Alguma nasceu de uma série de tiras aleatórias que fiz para um concurso da Folha de SP, anos atrás. Fiquei entre os finalistas, mas não fui chamado para publicar lá. Quando surgiu a oportunidade de um espaço dominical na Gazeta do Povo, via a chance de dar continuidade a essas ideias.

Eu já publicava na Gazeta a série Folheteen, que tem uma protagonista, a Malu. Porém, nesse formato de elenco fixo eu não encontrava forma de falar de outras coisas que me interessam.

Eu estava interessado no que gente com Laerte e Rafael Sica estavam fazendo. Eles estavam renovando a forma de fazer tiras. E como adoro o formato estava muito interessado em experimentar. Primeiro no conteúdo. Depois na forma.

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Mas quando se lê o livro, ele parece muito ousado para estar em um jornal. Não tanto os temas, mas sim a diagramação. É impossível fazer certas coisas feitas no livro em um jornal, onde você tem um espaço restrito. Quantas das tiras foram escritas apenas para o livro?

Apenas 3.

A do personagem esmagado, aquela do elenco da tira reclamando da tira onde o cara estava do lado errado e aquela do lixão. As demais eu desconstruí pensando no livro.

Uma das características mais legais do seu livro é justamente a parte da linguagem. Essa que você citou, do personagem esmagado é sensacional. Como você pensa a linguagem dos quadrinhos? Como é esse esquema de desconstrução e subversão da linguagem das tiras de quadrinhos?

Eu me acho um pouco irrequieto no que faço. Gosto de buscar novas formas de desenhar, trabalhar outro gêneros. Já fiz humor, FC, aventura, até super-herói. Então estou sempre tentando me desconstruir. Não quero preso a um modelo. Você pega Folheteen e não tem nada a ver com Vigor Mortis Comics, por exemplo.

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Nada Com Coisa Alguma pra mim é meu espaço de pesquisa livre. O que é um respiro muito saudável entre história longas.

No caso dos experimentos do livro, isso tem muito a ver com minha preocupação com o projeto gráfico. Busco sempre uma identidade em cada publicação. Acho que ainda ha poucos quadrinistas que levam a sério esse acabamento de suas obras. No momento em que todo mundo fala em migrar para o digital, me senti tentado a voltar atrás e valorizar o impresso. teve gente que me pediu o arquivo digital, mas não disponibilizei porque algumas tiras só funcionam com o livro em mãos, como a tira do personagem esmagado ou as tiras espalhadas pelas páginas.

E como você pensa a paleta de cores e as texturas? Como é seu processo? Manual? no computador? em ambos? Conta mais do making of do livro…

Eu desenho com lápis e lapiseira bem marcada. Tenho uma série de texturas de papel que escaneei e aplico no fundo. A paleta de cores tem muito a ver com o clima que pretendo dar. Geralmente trabalho com poucos tons. Fujo de gradientes, prefiro cores chapadas, que acabam valorizadas pela textura saturada do papel que aplico.

O livro nasceu de um TCC do Luciano Bugay, na época aluno da PUC. Ele veio me procurar para fazer a diagramação de uma HQ minha. Eu sugeri a criação de um livro que seguisse a proposta de ser “Nada Com Coisa Alguma”. Desse protótipo, evoluímos juntos para o livro que acabou sendo publicado com recursos obtidos via Catarse.

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Aí eu pude me soltar e fazer o que era impossível no jornal. Pessoalmente eu acho meio cansativas as coletâneas tradicionais de tiras. Uma monte de tiras socadas monotonamente numa mesma página. Eu queria, se possível, valorizar cada tira.

Acho que ficou show de bola a diagramação. Ela salta aos olhos mesmo. E como foi esse esquema com o aluno da PUC? Como vocês se conheceram? Qual o papel dele no produto final?

Ele chegou a mim através do Carlos Romaniello da Editorial Design, empresa que criou os projetos gráficos de 04 projetos meus.

O Carlos era o professor do Luciano.

Luciano concebeu a logo, a grade original da diagramação, sugeriu algumas quebras. Depois eu fui extrapolando e complicando a vida dele para chegar onde eu queria.

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Ele sofreu nas minhas mãos. hahahahahaha!

E como você vê a reação das pessoas em relação a um livro de tirinhas que não é exatamente humorístico? Você acha que é difícil a aceitação no primeiro momento ou não vê esse problema?

Que bom que você tocou nesse ponto de não ser humorístico. Por anos eu sofri fazendo tiras que ficavam ruins pois eu tentava ser engraçado. Quando percebi que, para mim, a graça não estava em ser engraçado, foi quando descobri meu jeito de fazer tiras.

As reações têm sido muito boas, pois ao ler o volume completo, elas começam a entender que uma tira tem mais possibilidades do que rir.

Pode denunciar, refletir, lamentar, zoar… Tudo isso sem fazer graça necessariamente

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Faço piadas, claro! Mas não é obrigação. Deixo fluir quando ela surge.

Talvez meu humor não seja explícito. Mas isso os leitores devem decidir individualmente.

Que legal! E para terminar o bate-papo, tem alguma coisa que você queira dizer pro pessoal que está lendo essa coluna?

Se você está lendo esta coluna é sinal de que está em busca de algo diferente. De ver os quadrinhos com outros olhos. Então dê uma chance aos quadrinhos nacionais. Vivemos num momento de expansão criativa e de qualidade. Ha muita coisa boa sendo publicada longe das bancas. Nas livrarias, internet, comic shops, lojas virtuais…

Se você cansou de Marvel, DC ou até da Mônica, busque autores como André Diniz, Marcelllo Quintanilha, Laerte, Marcelo D’Salete, Odyr, Paulo Crumbin, Cris Eiko, Eduardo Damasceno, Felipe Garrocho, Vitor Cafaggi, entre dezenas de outros autores que estão publicando pelo menos um livro por ano. Vocês vão se surpreender com o que eles têm para contar em suas histórias.

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E, claro, leiam as minhas HQ também. Eu adorarei ter o seu feedback. Pois os quadrinhos nacionais só irão prosperar se tivermos mais leitores que compram nossas obras. Temos que criar um mercado de verdade. Isso ainda é um sonho, mas cada vez mais possível se você fizer parte dele conosco.

Beleza cara! Muito obrigado pela entrevista e a gente se vê por aí (ou no próximo lançamento)! Um abraço

Para saber mais do trabalho do Zé Aguiar, visite – www.lojaquadrinhofilia.com.br