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Vou falar o quê da carta dos “Bispos do Diálogo pelo Reino”, que eles enviaram em primeira mão à Folha de S.Paulo e nem sequer tiveram a decência de assinar, limitando-se a dizer que são dezenas (ao menos são minoria, considerando que o Brasil tem quase 500 bispos, incluindo os eméritos)? É uma coisa lamentável, propaganda político-eleitoral disfarçada de preocupação evangélica, e que ainda tenta puxar o papa Leão XIV para seu lado quando as manifestações públicas do papa sobre o trabalho das autoridades vão na direção oposta àquela do candidato preferido dos bispos de esquerda.
“Em tempo de eleições, reafirmamos que não temos partido”, dizem os bispos. A quem eles estão tentando enganar, quando logo depois eles usam justamente uma das palavras mais invocadas por Lula em sua candidatura à reeleição, a tal “soberania”? Não que soberania não seja importante, mas ela tem sido usada de forma populista pelo PT em reação aos tarifaços de Trump, enquanto as facções criminosas com as quais a esquerda é tão leniente vão atacando de verdade nossa soberania ao dominar áreas inteiras de metrópoles como o Rio e territórios vastos como a Amazônia. Além disso, em 2022 os “Bispos do Diálogo pelo Reino” foram bem mais explícitos quando, em carta antes do segundo turno da eleição presidencial, tomaram abertamente o lado de Lula contra Jair Bolsonaro, e, depois da eleição, enviaram ao petista eleito um texto que mais parecia uma carta de fã-clube. E agora vêm dizer que “não têm partido”?
A quem os “Bispos do Diálogo pelo Reino” estão tentando enganar quando dizem que “não têm partido”
Obviamente, seria muito esperar que os “Bispos do Diálogo pelo Reino” falassem da legião de endividados e inadimplentes, da maior média anual de mortes de ianomâmis, do salto gritante da dívida pública, da crise no varejo, da irresponsabilidade fiscal que sempre cobra dos mais pobres, do Lulinha, do Marcola, do Jaques Wagner, enfim, de todos os telhados de vidro que o atual governo tem, como se apenas os adversários tivessem defeitos. Os bispos de esquerda têm anos de experiência em passar pano para os erros dos seus políticos de estimação, como nas Análises de Conjuntura que, ao reconhecer problemas na condução da economia, culpam sempre os outros.
Bispos tentam puxar o papa para o seu lado, mas não vai dar certo
A carta dos “Bispos do Diálogo pelo Reino” usa e abusa de citações do papa Leão XIV, e não camufla a tentativa de deixar subentendido que a única posição realmente católica em termos de política é a deles. Mas o curioso é que o papa, quando comparece diante de parlamentos mundo afora, costuma dizer algumas coisas que os bispos de esquerda nem sequer mencionam nos seus textos.
Na Espanha, em junho, diante de vários parlamentares declaradamente abortistas, o papa não economizou e disse: “Pode chamar-se plenamente justa uma comunidade que deixa na sombra a criança ainda não nascida, o idoso, o doente, quem sofre em silêncio ou quem depende inteiramente do cuidado dos outros? A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse confessional: é uma meta de civilização. Toda a vida humana deve ser reconhecida e guardada desde a sua concepção até ao seu ocaso natural, em cada circunstância da sua existência” (destaque meu). Na curta visita que fez a San Marino, neste sábado, o papa voltou ao tema. Após afirmar que um Estado pequeno como aquele pode ser um “laboratório” de boa política, Leão XIV diz que “o objetivo principal para o qual se deve tender neste ‘laboratório’ é o cuidado do humano. Na verdade, uma comunidade como a vossa, ao mesmo tempo rica de valores tradicionais e em sintonia com os tempos no plano tecnológico, pode perseguir eficazmente este objetivo, mediante um cuidado que se traduz na salvaguarda de cada vida, em todas as suas fases, desde a conceção até à morte natural” (destaque meu).
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Esse tema, no entanto, sumiu da carta dos bispos de esquerda. Porque o governo e o candidato apoiado por eles têm feito o exato oposto do que Leão XIV pede. É nota técnica abortista, é cartilha abortista para gestante, tivemos ministra da Saúde abortista, enfim, desde 2023 temos tentativa atrás de tentativa para ampliar o acesso ao aborto sem precisar mudar a lei. Mas o tema não merece uma mençãozinha sequer, ainda que seja classificado pelo papa Leão XIV como uma meta civilizacional. Talvez ele não seja tão importante para os “Bispos do Diálogo pelo Reino” quanto é para o papa. Vai saber.
Sobrou até para os devotos, coitados
Como se não bastasse, os bispos de esquerda ainda soltam os cachorros contra quem os critica por colocar o compromisso político-partidário acima de sua missão religiosa. Eles reclamam de um “conservadorismo autoritário que, lamentavelmente, através das redes e alguns dos meios de comunicação de inspiração católica, incluindo alguns membros dos ministérios ordenados, religiosos e leigos, promovem devocionismos, discursos superficiais e violentos contra pessoas que testemunham a fé no meio dos pobres, na defesa da democracia e das pautas ambientais”. Ainda que de vez em quando alguém passe do ponto na crítica, a rotulagem é injusta e me lembra muito, mas muito mesmo a cruzada de dom Joaquim Mol contra influenciadores católicos. E mostra disposição zero de diálogo com os católicos que discordam.
Agora, queria muito saber onde entra o “devocionismo” nisso. Será aquele papo surradíssimo de que “oração sem ação é em vão”, nas infelizes palavras do frei Lorrane? Será que é qualquer manifestação religiosa que não tenha a aprovação dos bispos de esquerda? Eles não dizem, apenas jogam a palavra lá e saem correndo. Pobre da velhinha que acorda às 4 da manhã para rezar com o frei Gilson, pobre do sujeito que abre mão de alguma coisa na Quaresma e não conta direitinho quanto economizou para entregar no “gesto concreto” da Campanha da Fraternidade... se não tem engajamento social, se não tem defesa da democracia e da soberania, não tem valor nenhum para os “Bispos do Diálogo pelo Reino”.
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“E a CNBB, não vai fazer nada?”
Essa é a pergunta preferida de muita gente quando vê algum bispo ou padre cometendo disparates por aí. Mas, como eu disse outro dia, conferência episcopal não é instância disciplinadora de bispo. Isso é com o Vaticano. E a CNBB não pode impedir os bispos de se organizarem informalmente em grupos, de que tipo for; se amanhã surgir um coletivo de bispos corintianos (o que seria belo e moral), ou se dom Fernando Rifan montar um coletivo de bispos sanfoneiros, terão tanto peso institucional quanto os “Bispos do Diálogo pelo Reino”. No máximo, o que a conferência pode fazer é deixar claro que um grupo não fala por toda a CNBB – que, aliás, já publicou sua mensagem aos católicos sobre as eleições de outubro; é o único texto que pode ser considerado uma manifestação oficial e institucional, com suas virtudes e defeitos.
Como diz dom Antônio Carlos Keller, bispo de Frederico Westphalen (RS), em sua nota pastoral, “o ministro ordenado é pai espiritual de todos os fiéis, independentemente de suas legítimas opções políticas. (...) não compete ao sacerdote favorecer partidos ou candidatos, participar de disputas partidárias, utilizar a pregação ou os meios de comunicação da Igreja para propaganda eleitoral, nem induzir os fiéis a determinadas escolhas políticas (...) A unidade da comunidade eclesial vale mais do que qualquer preferência partidária”. Bispos que fazem propaganda eleitoral, ainda que camuflada, e extrapolam totalmente aquelas situações em que a Igreja é chamada a se pronunciar em assuntos políticos – e que foram tão bem descritas no discurso de Bento XVI aos bispos do Maranhão, em 2010 – acabam dividindo seu rebanho e prestando um enorme desserviço ao Reino pelo qual eles dizem “dialogar”.

Marcio Antonio Campos é editor de Opinião da Gazeta do Povo. Autor de "A razão diante do enigma da existência" e coautor de "Bíblia e natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé", mantém a coluna quinzenal Tubo de Ensaio, sobre a relação entre ciência e religião, e uma coluna semanal sobre temas relacionados à Igreja Católica. Em 2025, cobriu em Roma o conclave que elegeu o papa Leão XIV. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.










