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admitidos no mosteiro, em ilustração de Richard de Montbaston para uma edição francesa do século 14 da “Legenda Aurea”.
Santa Marina (de vermelho) e o pai são admitidos no mosteiro, em ilustração de Richard de Montbaston para uma edição francesa do século 14 da “Legenda Aurea”.| Foto: Reprodução/Domínio público

Desconfiômetro totalmente desligado ou cooperação consciente e ativa? Essa é a pergunta que eu me faço diante do escandaloso, sumamente escandaloso caso do documentário que tenta retratar Santa Marina como transexual – o curta-metragem foi rodado em uma paróquia da cidade de São Paulo e teve o padre Júlio Lancellotti como narrador. Depois que o caso estourou, com a divulgação do trailer do documentário, a Arquidiocese de São Paulo, por meio do seu Vicariato da Comunicação, agiu com presteza e lançou nota repudiando o conteúdo de São Marino, afirmando que a biografia da santa publicada em seu site, que a produção do vídeo diz ter sido usada como fonte para o roteiro, não permite a interpretação adotada pelo documentário.

Resumindo bem resumidamente: Marina era uma jovem que vivia com o pai, viúvo, onde hoje é o Líbano, no século 5.º. Ao saber da intenção do pai de arrumar-lhe um marido e depois passar o resto dos seus dias em um mosteiro, ela recusou os planos de casamento e propôs disfarçar-se de homem para que ambos ingressassem na vida religiosa; o disfarce funcionou e ela foi aceita com o nome de “Marino”. Mesmo depois da morte do pai, Marina se manteve fiel à promessa de jamais revelar sua verdadeira identidade, e os demais monges atribuíam a ausência de traços mais masculinos à vida ascética e de muitas penitências que “Marino” levava. Tal fidelidade a levou até mesmo a suportar a acusação falsa de ter estuprado e engravidado a filha do proprietário de uma hospedaria, algo que ela poderia muito facilmente ter desmentido; em vez disso, aceitou a expulsão do mosteiro e o encargo de cuidar da criança. Anos depois, “Marino” pôde voltar ao mosteiro, executando sempre tarefas mais humilhantes. Só após sua morte é que os demais monges, ao preparar o corpo para o sepultamento, descobriram a verdade – e a grande injustiça que havia sido cometida contra Marina.

Teria o padre Lancellotti pensado que não haveria problema nenhum em emprestar sua voz e seu prestígio para narrar o curta? Ou ele estava ciente do potencial explosivo e mesmo assim cooperou com plena consciência, concedendo um endosso sacerdotal à calúnia contra Santa Marina?

E é isso. Nada de transexualidade, de disforia de gênero, nem nada: temos uma filha que, para não perder a companhia do pai, aceitou um disfarce que manteve até o fim de uma vida de oração e virtude. “Para nós, ele é ele. E não ela”, disse Leide Jacob, que dirigiu o filme, à coluna de Monica Bergamo, na Folha de S.Paulo. Mas pouco importa o que pensam Leide e os demais envolvidos no filme; importa é a verdade sobre a vida de Santa Marina. E isso nos leva à participação, nisso tudo, do padre Júlio Lancellotti – que foi procurado pela coluna, mas respondeu dizendo apenas que “a nota da Arquidiocese já é o final da questão”.

Já tive meus episódios de desconfiômetro desligado e que me renderam alguns problemas, mas aqui a distância entre o que o documentário propõe e a real biografia da santa é não só diametral, é gigantesca. Será que o padre Lancellotti realmente pensou, em algum momento, que não haveria problema nenhum em emprestar sua voz e seu prestígio para narrar o curta? Ou que seria uma interpretação possível entre outras a respeito da vida da santa, por mais que o documentário trate a suposta transexualidade como fato, e não como hipótese? Sinceramente, para imaginar que São Marino seja algo inofensivo ou apenas levemente “polêmico” (para usar a palavra da moda), é preciso estar com o desconfiômetro mais que desligado: tem de estar totalmente quebrado, naquele estado que a gíria militar americana chama de “fubar” (“f***ed up beyond all repair”).

A outra hipótese, infelizmente, é bem pior: a de que o padre Lancellotti estava ciente de que o potencial explosivo disso era enorme, e mesmo assim cooperou com plena consciência, participando ativamente, concedendo, com a sua imagem e voz, um endosso sacerdotal ao que é uma verdadeira calúnia contra a memória de uma santa da Igreja à qual ele pertence. Triste? Tristíssimo, ainda mais porque, se for realmente assim, o padre está abraçando uma estratégia antiga do movimento LGBT, o de pintar santos como homossexuais ou pessoas em conflito com sua identidade de gênero. O Shakespeare’s Globe, em Londres, está exibindo uma peça do dramaturgo transgênero Charlie Josephine em que Santa Joana D’Arc é retratada como “não binária” e diz frases como “não sou uma garota” – o leitor deve se lembrar que ela se vestiu de soldado para liderar os franceses durante a Guerra dos Cem Anos. Ainda hoje tentam pintar os santos Sérgio e Baco, soldados romanos martirizados no século 4.º, como amantes; mais recentemente, São John Newman vem passando pelo mesmo processo, por causa de sua profunda amizade com outro sacerdote.

Os santos são bons alvos para essa estratégia porque isso vai além de simplesmente pegar uma figura importante, de talento, e descrevê-la como homossexual ou transexual; há uma “camada narrativa” adicional nesse caso, pois a Igreja, ainda por cima, estaria escondendo a verdadeira identidade ou comportamento daqueles que ela aponta como exemplo para os cristãos, agindo assim de maneira completamente hipócrita, já que condena o comportamento homossexual. Mais que “ressignificar” um santo, trata-se de atacar a Igreja. É disso que o padre Lancellotti participou, independentemente da sua intenção.

E agora? Nem o padre Lancellotti, nem o Vicariato da Comunicação deram mais detalhes a respeito de como o caso está sendo tratado internamente – se dom Odilo Scherer conversou ou conversará com o sacerdote, por exemplo. Minha expectativa é que a Arquidiocese de São Paulo (e todas as outras, por que não?) reforce suas orientações para algo assim não voltar a ocorrer. No caso paulistano, já existe uma regra a respeito do uso de igrejas para todo tipo de filmagens, de cenas de novela a reportagens jornalísticas. Segundo o Vicariato da Comunicação, a arquidiocese solicita todas as informações (inclusive o roteiro, em caso de filmes ou documentários) para avaliação antes de autorizar o uso da igreja, mas havia uma brecha que a produção de São Marino provavelmente aproveitou: como a Paróquia Coração Eucarístico de Jesus e Santa Marina está sob a administração dos padres palotinos, e não de padres diocesanos, a consulta à arquidiocese não era obrigatória – o pároco pode ter sido autorizado pela sua congregação, ou seguido em frente por conta própria sem falar com ninguém (a paróquia também não quis falar com a reportagem da Gazeta do Povo). Talvez isso tenha de ser revisto no futuro, e talvez seja o caso de adotar algum protocolo para os sacerdotes também, não apenas para os templos.

O padre Lancellotti certamente não se lembra, mas no fim dos anos 90 eu era estudante de Jornalismo na USP quando visitei a Casa Vida, um projeto seu que acolhia crianças com Aids, e escrevi uma reportagem para nossa publicação universitária, o Jornal do Câmpus. Seu amor pelos pobres é genuíno, e continuo achando que ele precederá muitos de nós no Reino dos Céus. Mas bem que ele podia nos poupar desse tipo de coisa que só serve para agredir e desmoralizar a Igreja.

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