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O Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos publicou, dias atrás, seu Summarium Decretorum relativo a 2025. O documento contém a lista de todos os decretos emitidos pelo dicastério ao longo do ano passado, e chamou a atenção a relação de dioceses que pediram e receberam do papa a autorização para continuar a celebração da missa tridentina em igrejas paroquiais, ao contrário do que diz o motu proprio Traditionis custodes.
A regra geral desde 2021 é que a celebração pelo missal de 1962 só pode ocorrer em capelas ou outras igrejas, mas não nas matrizes paroquiais. É apenas uma das muitas contradições de um documento que começa afirmando que os bispos são os “guardiões da tradição” em suas dioceses, mas limita muito seu poder de decisão; bem, paciência. No entanto, a nova regra já vinha com a previsão de exceções, desde que solicitadas pelos bispos ao Vaticano.
Em 2025, 33 dioceses pediram e receberam de Francisco ou de Leão XIV a permissão para que houvesse missa tridentina em ao menos uma de suas igrejas paroquiais – a maioria das matérias tem falado em 34 dioceses, mas a Arquidiocese de Glasgow, na Escócia, recebeu duas permissões, uma em março e outra em novembro, substituindo a anterior. Os Estados Unidos lideraram de longe a lista, com 24 dioceses beneficiadas com exceções à regra de Traditionis custodes. Depois, vêm Polônia e Canadá, com duas dioceses cada; Taiwan, Irlanda, Ucrânia, Dinamarca e Escócia tiveram uma diocese contemplada. Não houve nenhuma permissão desse tipo concedida a dioceses brasileiras.
Sufocar as missas tridentinas regulares nas dioceses é abrir uma trilha para que católicos acabem se deixando seduzir por grupos cismáticos
Um caso (tristemente) curioso é o da Arquidiocese de Toronto, no Canadá, onde o cardeal Frank Leo havia solicitado a celebração da missa tridentina em quatro paróquias em dezembro do ano passado, mas, menos de um ano depois, determinou que, uma vez por mês, a celebração no missal antigo seja substituída por uma missa no rito novo. Segundo relatos locais, todas as paróquias já oferecem uma quantidade razoável de missas no rito novo e não havia nenhum tipo de pedido por mais horários, ou para que a missa tridentina fosse removida. O cardeal Leo também não deu maiores explicações para sua decisão.
Em 2022, segundo dados do Vaticano, haviam sido concedidas 35 permissões, número que subiu para 55 em 2023, e caiu para 34 em 2024, número que se repetiu no ano passado. De acordo com o National Catholic Register, 29 dos 34 decretos de 2025 são renovações de permissões já concedidas no passado, e que costumam valer por dois anos.
A relação do Dicastério para o Culto Divino não informa se houve solicitações não atendidas, mas parece improvável. O papa Leão XIV já sinalizou abertamente em novembro do ano passado, por meio do núncio apostólico no Reino Unido, que não negaria nenhum pedido de exceção às normas impostas por Francisco. E, em mensagem aos bispos franceses, em março deste ano, o pontífice lhes pediu que fossem generosos para com os fiéis tradicionalistas.
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Não se sabe quando (nem se) Leão XIV mudará as regras gerais para a celebração da missa tridentina, ou se deixará Traditionis custodes vigorando enquanto vai abrindo exceções. Nesse último caso, tudo depende dos bispos: o Vaticano não sairá oferecendo decretos indiscriminadamente; são as dioceses que precisam fazer a solicitação a Roma. Um número que o dicastério não divulgou é a quantidade de pedidos recebidos desde que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (SSPX) anunciou a ordenação ilícita e cismática de quatro bispos, no início deste ano.
Já disse aqui, e repito: sufocar as missas tridentinas regulares nas dioceses é abrir uma trilha para que católicos acabem se deixando seduzir por grupos cismáticos. É algo que, creio eu, nenhum bispo genuinamente preocupado com o bem espiritual de seus fiéis faria. Onde houver presença da SSPX e não haja missa tridentina, ou onde as celebrações regulares tiverem sido restringidas desde 2021, o melhor que o bispo diocesano poderia fazer é recuperar o terreno perdido, em vez de submeter os católicos tradicionalistas a “testes de fidelidade”, esperando que eles abandonem uma liturgia que lhes é tão cara, especialmente se for para trocá-la por missas novas bagunçadas, como infelizmente é a regra em muitos lugares.

Marcio Antonio Campos é editor de Opinião da Gazeta do Povo. Autor de "A razão diante do enigma da existência" e coautor de "Bíblia e natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé", mantém a coluna quinzenal Tubo de Ensaio, sobre a relação entre ciência e religião, e uma coluna semanal sobre temas relacionados à Igreja Católica. Em 2025, cobriu em Roma o conclave que elegeu o papa Leão XIV. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




