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Há quem consiga estabelecer comparações entre o governo Bolsonaro e os mandatos petistas, o que frequentemente provoca reações imediatas daqueles que se veem à esquerda do espectro ideológico. Dos pontos de vista humanitário e estético, para ficar apenas nesses dois, não há equivalência possível. Grosso modo, nenhuma equivalência parece razoável quando envolve Jair Bolsonaro.

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É forçoso reconhecer, todavia, que petismo e bolsonarismo — para além do fato de o primeiro ter chocado o ovo da dicotomia que promoveu o segundo — têm lá suas semelhanças. Quando Lula defende que não se pode contestar a existência de democracia na Venezuela, por exemplo, fica difícil não imaginar tal fala na boca de Bolsonaro.

Contornando o debate sobre o que se convencionou chamar de falsa simetria, entretanto, é comum que se ignore o verdadeiro ponto de convergência entre os dois extremos que hoje polarizam a política nacional: atacar quaisquer adversários ou discursos que ameacem a presença do rival no segundo turno do ano que vem.

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Percebam, não se trata simplesmente de o PT brigar para se apresentar viável em 2022 e Bolsonaro fazer o mesmo, lançando mão das cartas que puder para se reeleger. Ambos trabalham para si, mas sobretudo pelo outro.

O interesse é mútuo porque o fardo é o mesmo: tanto Lula quanto Jair sofrem com uma rejeição tão grande que somente a disputa contra um adversário igualmente repelido pelos eleitores pode manter vivas suas chances de vitória no próximo pleito.

Não há de ser por acaso que o capitão rivaliza tanto com o governador de São Paulo, João Doria. Tampouco que o ex-prefeito da capital paulista, Fernando Haddad, chegue ao ponto de pintar Ciro Gomes como um candidato da direita. Se Luciano Huck sai ileso até o momento é por ainda não ter se posicionado como pré-candidato. Caso aconteça, apanhará da mesma forma.

É do jogo, mas nem por isso deixa de ser sintomático. Bolsonaro precisa de Lula para ter chances de vencer — a ver, pelo andar da carruagem, se conseguirá chegar no segundo turno —, mas não só: ressuscitar o espantalho da volta do petismo é fundamental para empanar uma administração calamitosa em todas as áreas. Para além da saúde, a economia, o meio ambiente, a diplomacia e a educação.

Lula precisa de Bolsonaro porque, aos olhos de quem rejeitou o PT em 2018, a ponto até mesmo de votar em um fã de torturador, os 13 anos sob o jugo do partido e os escândalos de corrupção ainda estão frescos na memória.

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A briga entre ambos os extremos é para ver em quem cabe melhor a fantasia de menos pior. Quem se atrever a posar como alternativa será achatado em um esforço conjunto daqueles que, se puderem, perpetuarão por muito tempo ainda um duelo fadado a estagnar o país.