Arte: Felipe Lima| Foto:

As hastes ressequidas da trepadeira se contorcem em torno da árvore, também ela nua de folhas nesta época do ano. Procuro em vão pelas flores. Sei que estão surgindo, talvez nos galhos mais altos, porque encontro pétalas lilases no chão. De modo inquestionável, a glicínia anuncia a mudança de estação e marca a passagem do tempo. As estações da glicínia, como de toda a natureza, não se prendem ao nosso calendário. “Calendário?” – riria a glicínia, se plantas rissem – “Meu calendário são as manhãs geladas, a geada, os dias que vão ficando mais quentes e fazendo minha seiva despertar e correr para a ponta dos meus galhos, alimentando os botõezinhos que vão se abrir nesses cachos lilases que vocês tanto admiram.”

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A glicínia ignora minha reação diante do anúncio de mais uma primavera. Não interessa a ela se a alegria pelo fim do inverno é maior em mim que a melancolia por mais um ano que passou. Há quantas primaveras me encanta o perfume dessas flores?

Não importa para a glicínia. Importa é que ela entende que é hora de florescer, de brotar, de renascer. Agosto ou setembro, inverno ou primavera, ela segue o impulso de vida e sobrevivência.

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Talvez por causa de seus próprios problemas, talvez porque esteja acostumado com temperaturas altas, o Brasil não presta muita atenção na onda de calor que maltrata o Hemisfério Norte. As notícias que vêm de lá causam espanto. Em um feriadão de três dias morreram 14 japoneses por causa do calor. A Suécia pediu ajuda internacional para controlar incêndios. Portugueses morreram no fogo que avança sobre bosques e vilas. A Califórnia está há semanas combatendo incêndios gigantescos. Tudo isso já aconteceu antes. Os intervalos entre uma desgraça e outra é que estão ficando menores.

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Como no apocalipse, na Suíça os mortos estão voltando. Continuam mortos, mas reaparecem quando o gelo e as neves eternas que cobrem os Alpes derretem como nunca haviam derretido antes e revelam os corpos de alpinistas ou moradores desaparecidos há décadas. Como aquele casal que saiu para ordenhar as vacas que mantinha em um pasto alpino e caiu em um buraco na geleira. Isso foi em 1942. Dias atrás, seus corpos enegrecidos pelo congelamento e com todas as roupas intactas foram encontrados e entregues para a única filha viva, de 79 anos.

Segundo o jornal inglês The Guardian, “a identificação de restos mortais passou a ser tarefa comum nas férias de verão na Suíça” para alpinistas e montanhistas.

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(Alguma vantagem há, como vocês veem, em veranear em Guaratuba e não na Suíça.)

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As neves eternas não são, portanto, eternas.

Vamos ficando cada vez mais pobres de eternidades.

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Ajuizados que são, os suíços estão adaptando suas cidades ao clima mais quente. Sion, com 30 mil habitantes, carrega como um fardo o título de cidade suíça que “mais se aquece”: 1°C a mais nos últimos 20 anos. Isso significa que os dias com temperaturas acima de 25°C passaram de 56 por ano para os atuais 76, com impacto nas reservas de água, no conforto dos moradores, nos animais silvestres. Para baixar a temperatura, Sion faz o que pode. Consciente de que uma árvore ameniza o clima como cinco aparelhos de climatização, a administração municipal plantou plátanos em todo lugar onde cabia um. Calçamentos foram substituídos por gramados. Os moradores são estimulados a adotar tetos verdes (com plantas) ou pelo menos pintar as telhas com cores claras. “Num dia ensolarado, um teto vegetal mantém-se em torno dos 30°C, contra os quase 80°C de um teto de cor escura”, informa o boletim Swiss Info.

Têm à mão, os administradores suíços, o seguinte cálculo: para cada dólar investido no plantio e manutenção de uma árvore na rua, a municipalidade tem um retorno médio de US$ 5,82. As árvores retiram poluição do ar, armazenam gás carbônico, conservam água da chuva, reduzem o consumo energético dos sistemas de resfriamento/aquecimento e aumentam o valor dos imóveis.

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Eu gostaria muito de importar alguns desses gestores públicos suíços com sua fé nas árvores e sua consciência de que nem as neves eternas são eternas.

Mas leio que faltam prefeitos para as cidades suíças. O salário é baixo e geralmente o prefeito e os membros do conselho comunal (uma câmara de vereadores que, de fato, atua na administração e não apenas faz de conta) mantêm uma atividade profissional paralela. O vilarejo de Tujetscher teve de contratar um headhunter para encontrar um prefeito. Deram sorte. Um executivo aposentado aceitou o desafio.

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Por aqui damos benefícios demais aos membros dos três poderes. Benefícios que passam a ser a razão de eles estarem lá. O trabalho fica em segundo plano.

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No mês de julho, cometi um deslize no finzinho da minha coluna. Troquei o nome do autor de O Cortiço. Em vez de Aluísio Azevedo escrevi Lima Barreto. Ao revisar, não percebi a troca e assim a bobagem foi publicada na edição impressa (na internet foi possível corrigir). Restou-me esperar pelos xingamentos dos leitores ofendidos pelo erro. O erro foi notado, sim, mas o que recebi foram e-mails delicados de leitores que me alertaram sem me ofender.

Diante de tanta delicadeza, respirei aliviada.

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