A sustentabilidade empresarial está deixando de ser uma agenda restrita a grandes companhias e iniciativas ambientais para ganhar espaço nas decisões de gestão, no relacionamento com fornecedores e na competitividade dos negócios. Em um mercado no qual clientes e parceiros passam a observar com mais atenção as práticas das organizações, a capacidade de demonstrar resultados sociais, ambientais e de governança torna-se cada vez mais relevante, inclusive para pequenas e médias empresas.
O movimento foi destacado por Carolina Braz Pimentel, CEO da Great People ESG, em entrevista à Gazeta do Povo durante o 19º Congresso Paranaense de Recursos Humanos (CONPARH 2026), realizado em Curitiba.
Segundo a executiva, um dos principais desafios das organizações é transformar compromissos de sustentabilidade em práticas concretas, integradas ao funcionamento do negócio e acompanhadas por indicadores. Isso significa olhar não apenas para o consumo de recursos naturais, mas também para a relação com funcionários, fornecedores, clientes e comunidades.
Na avaliação de Carolina, o ESG — sigla em inglês para práticas ambientais, sociais e de governança — precisa ser compreendido como parte da estratégia empresarial, e não como um conjunto de ações isoladas ou restritas à comunicação institucional.
Pequenas empresas também entram na agenda ESG
Embora o tema seja frequentemente associado às grandes corporações, Carolina destaca que pequenas e médias empresas também estão inseridas nesse movimento.
Um dos caminhos é a relação com as cadeias de fornecedores. À medida que grandes organizações incorporam critérios de sustentabilidade às suas políticas de contratação e relacionamento comercial, empresas menores podem ser chamadas a demonstrar suas próprias práticas.
Esse cenário transforma a sustentabilidade em uma questão que ultrapassa o posicionamento institucional e pode influenciar oportunidades de negócios.
Para fornecedores de diferentes segmentos, desenvolver processos de gestão, acompanhar indicadores e demonstrar responsabilidade nas relações com trabalhadores e parceiros passa a ser uma forma de preparação para as exigências do mercado.
A executiva ressalta que o avanço não precisa começar com grandes estruturas ou investimentos elevados. O primeiro passo é compreender a realidade da organização e identificar quais aspectos sociais e ambientais estão diretamente relacionados à sua atividade.
Uma pequena empresa pode, por exemplo, acompanhar o consumo de água e energia, medir a geração de resíduos, revisar práticas de relacionamento com fornecedores e avaliar a experiência de seus colaboradores.
Essas informações permitem estabelecer prioridades, acompanhar melhorias e demonstrar resultados ao longo do tempo.
Sustentabilidade precisa ser medida
A mensuração é um dos pontos centrais da discussão.
Segundo Carolina, iniciativas ambientais ou sociais ganham consistência quando as organizações conseguem identificar seus objetivos, acompanhar indicadores e avaliar os resultados alcançados.
No campo ambiental, isso pode envolver informações sobre consumo de energia, utilização de água, gestão de resíduos e iniciativas de redução de desperdícios.
Na dimensão social, entram aspectos como desenvolvimento dos profissionais, qualidade das relações de trabalho, oportunidades de crescimento, diversidade e relacionamento com as comunidades.
Já a governança está relacionada à maneira como essas práticas são incorporadas às decisões, aos processos e às responsabilidades da organização.
O desafio é reunir informações que frequentemente estão distribuídas entre diferentes departamentos e transformá-las em uma visão integrada da atuação empresarial.
A partir desse diagnóstico, as empresas podem construir metas mais claras e acompanhar a evolução de suas práticas, evitando que a sustentabilidade permaneça apenas no campo das intenções.
Cresol é exemplo de integração das iniciativas
Durante a entrevista, Carolina citou a Cresol como exemplo de organização que buscou estruturar suas iniciativas de sustentabilidade de maneira integrada.
A cooperativa de crédito, com origem no Paraná, desenvolve ações relacionadas aos colaboradores, às comunidades, aos produtores e aos diferentes públicos com os quais se relaciona.
Segundo a executiva, o trabalho realizado com a Great People ESG envolveu a conexão dessas iniciativas, antes distribuídas em diferentes frentes, a uma estrutura capaz de organizar informações, indicadores e resultados para a elaboração de relatórios de sustentabilidade.
Entre as ações mencionadas estão iniciativas de desenvolvimento de pequenos produtores e atividades voltadas à capacitação e à evolução profissional dos colaboradores.
O exemplo demonstra como a agenda ESG pode envolver diversas áreas de uma organização, especialmente em negócios que mantêm relações próximas com comunidades e cadeias produtivas regionais.
No caso do cooperativismo, essa integração também permite relacionar os princípios de desenvolvimento econômico e social às práticas de gestão e à apresentação de resultados.
Gestão de pessoas ganha papel estratégico
A participação de Carolina no CONPARH 2026 também reforçou a conexão entre sustentabilidade e gestão de pessoas.
Embora as discussões sobre ESG muitas vezes destaquem temas ambientais, a executiva chama atenção para o papel das relações humanas na construção de organizações sustentáveis.
O desenvolvimento dos funcionários, a qualidade do ambiente de trabalho e a maneira como as empresas se relacionam com diferentes públicos fazem parte da dimensão social da sustentabilidade.
Nesse contexto, a área de Recursos Humanos pode contribuir para identificar necessidades, estruturar indicadores e aproximar as políticas de gestão de pessoas dos objetivos estratégicos do negócio.
A atuação, porém, não deve ficar limitada ao RH. Para Carolina, o avanço das práticas ESG exige integração entre diferentes áreas, incluindo liderança, operações, fornecedores e gestão empresarial.
Essa visão acompanha uma transformação mais ampla no papel da gestão de pessoas, que deixa de atuar apenas na administração de processos internos e passa a participar de discussões relacionadas à sustentabilidade e à competitividade das organizações.
ESG como parte da estratégia empresarial
A principal mudança, segundo a avaliação apresentada por Carolina, está na forma como as empresas encaram a sustentabilidade.
Mais do que desenvolver projetos pontuais, o desafio é compreender os impactos da atividade empresarial, estabelecer prioridades e incorporar boas práticas ao cotidiano das operações.
Esse processo também exige considerar as expectativas dos diferentes públicos com os quais a empresa mantém relações, dos funcionários aos clientes e fornecedores.
Para pequenas e médias empresas, a adoção gradual de indicadores e práticas de gestão pode representar um caminho para acompanhar as transformações do mercado e fortalecer sua posição nas cadeias de negócios.
Já para organizações maiores, a integração entre iniciativas sociais, ambientais e de governança permite dar maior consistência às estratégias e à prestação de contas sobre os resultados.
A mensagem central é que a sustentabilidade empresarial não depende apenas do tamanho da organização ou da quantidade de projetos desenvolvidos. Sua efetividade está relacionada à capacidade de transformar compromissos em ações concretas, mensurar resultados e conectar essas práticas à gestão e ao desenvolvimento dos negócios.

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