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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Crônica de domingo

Em busca de Domingos Pellegrini: o escritor e o seu tempo

Domingos Pellegrini: o Homero da Terra Vermelha. Em 40 anos virou voz do tempo. O Brasil ainda não entendeu esse gigante. (Foto: Imagem criada pelo ChatGPT/Gazeta do Povo )

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Quando peguei o primeiro ônibus do Expresso Birigui para Londrina, há 40 anos, meu pai foi me levar à rodoviária e disse:

— Paulo, em Londrina vive um grande escritor chamado Domingos Pellegrini.

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Aquele nome não me era de todo estranho. Algum tempo antes, na noite de 28 de janeiro de 1986, eu esperava o telejornal da noite diante do minúsculo aparelho de TV preto e branco em meu quarto.

Queria saber notícias da Challenger, o ônibus espacial americano que havia explodido horas antes, matando todos os astronautas. Enquanto não começava o jornal da noite, mudei de canal para a TV Cultura, onde um cantor chamado Itamar Assumpção apresentava um show acústico. Itamar cantou:

“Boa noite, prezadíssimos ouvintes!
Pra chegar até aqui
Eu tive que ficar na fila
Aguentar tranco na esquina
E por cima lotação...”

Aquela letra havia sido escrita por Domingos Pellegrini. Durante meus primeiros anos em Londrina, cantei e toquei inúmeras vezes essa canção nas festas da República. Nunca havia encontrado Domingos Pellegrini, mas um dia decidi ler um livro dele: “O Homem Vermelho”, uma coletânea de contos lançada em 1977. A partir daí, ele se tornou meu companheiro inseparável.

A grande literatura é feita de pontos luminosos. Quem leu a “Odisseia” nunca se esquecerá do cão Argos, que reconhece a volta do dono após 20 anos de ausência e só então se permite morrer. Quem leu “A Divina Comédia” sempre lembrará de Dante contemplando a visão de Deus no último canto do Paraíso.  Quem leu “Guerra e Paz” sempre se apaixonará por Natasha Rostov. 

Com Domingos Pellegrini, o Homero da Terra Vermelha, não é diferente. Tenho agora, diante dos meus olhos, o desfile de seus personagens. José e Tiana, inspirados nos avós do autor, que vivem uma das mais lindas histórias de amor da literatura brasileira. Zé do Cano. Mané Felinto. Lázaro Góis. Mané Preto. Maria Arrumadeira. Jeofrey. João Português. Dr. William. Irmã Trudberta. Dr. José Gomes de Moraes. Dr. Melo. O Homem Vermelho. 220 Volts. Circuito. Caruso. Mané Falcão. Mr. Chicago. Mr. Boston. Faísca (o Argos do nosso autor).

Vejo também agora, como pontos luminosos que dançam diante dos meus olhos, as histórias contadas pelo cantador de nossa terra. O dia em que Góis e Mané Felinto, o fazendeiro e o comunista, salvaram um cafezal da geada de 55. O dia em que Mané foi preso pela enésima vez e Tiana mostrou o fogão que ele havia construído com suas próprias mãos: “Um homem que faz um fogão desses não pode ser má pessoa!” O dia em que tiraram o corpo de Mané Preto do poço e escreveram em sua lápide: “Mané Preto — Saudade dos Amigos”.

O dia em que José teve o seu batismo de lama com a terra de Londrina. O dia em que Góis e Mané Felinto debateram sobre o homem e a natureza na Câmara de Vereadores. O dia em que Jeofrey tirou as velhas botas e doou-as ao Museu Histórico. O dia em que o antropólogo francês previu o futuro de uma grande cidade. O dia em que Maria Arrumadeira gritou, no enterro da amiga: “Recebe ela, Jesus! Recebe ela, Jesus!” O dia em que o Brasil perdeu a Copa de 50 para o Uruguai no Maracanã: “Junto do pai, viu um homem chorando com a bandeira debaixo do braço. Uma fila de homens, todos de barba na cara, sentados no meio-fio chorando feito crianças, cabeça nas mãos”.

Tantos dias, tantas passagens, tantas vidas. É como se a vida falasse! Não foi por acaso que o grande crítico literário Wilson Martins, que não era dado a elogios fáceis e hipérboles lisonjeiras, certa vez escreveu: “O Brasil ainda não se deu conta de que temos no Norte do Paraná um dos maiores escritores de todos os tempos, Domingos Pellegrini, autor de um idioma próprio e uma não menos própria visão do homem.”

O idioma de Pellegrini é a voz que encontramos em “Terra-Vermelha”, o romance épico sobre a fundação de Londrina, e nos contos de “O Homem Vermelho”, “As Sete Pragas” e “Os Meninos Crescem”, obras que jamais me canso de reler. De onde vem essa voz? Vem do coração, ou seja, desde “o centro da existência humana, uma confluência da razão, vontade, temperamento e sensibilidade, onde a pessoa encontra a sua unidade e orientação interior”.

A voz de Domingos Pellegrini, que eu ouvi pela primeira vez na canção de Itamar há 40 anos, no dia da explosão da Challenger, é a voz do Tempo — esse personagem que percorre toda sua obra, especialmente os seus poemas, que podem ser lidos no recém-lançado “Caminhos do Coração”:

“O tempo te leva feito navio
pelo bairro abrindo os horizontes
desde o cais da infância. E vais
por entre as ruas como retos rios
a navegar às cegas
nesse mar que nos navega

E o tempo pergunta pro tempo
quanto tempo o tempo tem”

Há 40 anos eu conheci a voz de Domingos Pellegrini, e hoje eu tenho a honra e a alegria de ser seu amigo. Na última quinta-feira, 23 de julho, ele completou 77 anos. Mas resolvi esperar este domingo para homenageá-lo aqui na Gazeta. Domingo, o Dia do Senhor. Domingo, o Dia da Eternidade. Domingo, o Dia do Sempre. 

Bom Domingo, Domingos!

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