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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Mentalidade revolucionária

Erika Hilton e a proibição de dizer a verdade

Erika Hilton (Psol-SP), presidente da Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados. (Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados)

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1. Em 1845, aos 27 anos de idade, um jornalista radical e filósofo acadêmico escreveu um pequeno ensaio intitulado “Teses sobre Feuerbach”. Esse jovem autor, cujo nome era Karl Marx, cunhou então uma frase que se tornaria um dos principais lemas políticos do nosso tempo:

“Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.”

2. Essa frase, aparentemente inofensiva, está diretamente ligada às maiores tragédias de nossa época. Ao colocar a transformação social como prioridade absoluta do pensamento e da ação humana, o jovem Marx lançava as bases da mentalidade revolucionária contemporânea. Na cabeça dos militantes modernos, a destruição de tudo o que existe é infinitamente mais importante que a verdade. Essa rebelião metafísica contra a realidade — em nome da mudança radical do mundo e da própria natureza humana por meio da concentração de poder político — constitui a essência mesma dos fenômenos totalitários dos últimos dois séculos, incluindo-se aí o comunismo, o nacional-socialismo, o globalismo e o fascismo islâmico. Todas essas manifestações do movimento revolucionário caracterizam-se pelo ódio ao real; começam com slogans e terminam com assassinatos em massa.

Para o revolucionário, o que menos importa é a verdade. Se os fatos atrapalham a revolução, pior para os fatos. Isso tem um nome técnico: dialética negativa. Mas, em termos teológicos, também pode ser chamado de espírito demoníaco

3. O ódio visceral à realidade explica a recente fala de Erika Hilton, parlamentar que assumiu a presidência da Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados. Quem ouviu a fala e leu o texto publicado na última sexta por Erika certamente percebeu o tom raivoso de suas palavras dirigidas a quem não pensa como ela. Na visão de tal representante, quem acredita na existência de apenas dois sexos — masculino e feminino — representa o “esgoto da sociedade”. São os “imbeCIS” que não falam nem criticam, apenas “latem”. A referida personagem deixa bem claro que, para ela, criticar a sua escolha como representante da Comissão da Mulher é um crime hediondo, que deve ser punido com prisão e multa milionária.

4. Chesterton disse certa vez que chegaria o tempo em que seria necessário provar que a grama é verde e que o céu é azul. Infelizmente, esse tempo já passou. Agora se tornou proibido dizer que a grama é verde, que o céu é azul, que um homem é um homem e que uma mulher é uma mulher. Dizer a verdade se tornou crime — e não é de hoje. Quando fizeram uma votação para escolher entre a própria Verdade encarnada e um líder revolucionário, quem é que o povo escolheu?

5. Milan Kundera explicava que, no regime comunista, os cidadãos não são apenas proibidos de dizer a verdade, mas também obrigados a mentir. Da mesma forma que os perseguidores exigiam que os primeiros cristãos fizessem sacrifícios aos deuses pagãos, os comunistas exigiam que as pessoas participassem das passeatas e manifestações de apoio ao regime, como se estivessem felizes. Hoje, nas sociedades ocidentais, a militância exige que adoremos os deuses profanos da ideologia woke. Usar o pronome “errado” ou dizer que homens não engravidam nem menstruam são pecados sem perdão. E o destino dos que se negam a mentir é a perseguição, a desumanização e, por fim, a morte. É como eu já disse várias vezes aqui: a morte do inimigo político é o dogma central da religião esquerdista.

6. Até o advento da era revolucionária, cujo marco inicial é o ano de 1789, a Verdade, a Beleza e a Justiça eram três irmãs que andavam juntas, lado a lado. A partir da Tomada da Bastilha, essas três irmãs começaram a se estranhar. Nem sempre a Verdade, a Beleza e a Justiça se entendem entre si; às vezes, viram inimigas mortais. Temos, então, o retrato do mundo moderno como o lugar em que as Três Irmãs, antes inseparáveis, se entredevoram.

7. Refleti sobre esse desconcerto do mundo moderno quando caminhava até o Santuário de Schoenstatt e passei pelo maior colégio de minha cidade, escola que leva o nome do primeiro professor do Brasil, o padre jesuíta Vicente Rijo. Ali, minha visão se encheu de horror perante os grafites que ocupam os muros da instituição. O gosto pelo psicodélico e a necessidade de deformar qualquer tipo de manifestação da beleza não cessam de me provocar uma angústia diante daquelas paredes. Qualquer resquício de talento dos autores daqueles grafites se perde na obsessão por chocar, incomodar e desconstruir a realidade. E pensar que, por ali, todos os dias passam milhares de crianças e jovens, e todos eles são levados ao terrível engano de achar que aquilo representa a beleza.

8. Na mesma caminhada, vi os muros do Cemitério São Pedro. Ali, a falta de beleza se soma ao desrespeito. As pessoas que jazem naquele local não merecem estar circundadas por semelhantes explosões de feiura, caos e esquizofrenia visual, entre as quais se encontram figuras que se aproximam do caráter demoníaco. Em memória dos mortos, essa eterna classe esquecida, muros de uma só cor seriam incomparavelmente mais adequados e conspícuos.

9. Depois de rezar no Santuário, pensei na terceira irmã de nossa alma, a Justiça. E li, no celular, as notícias sobre um homem inocente que está sendo conduzido à morte pela decisão de um juiz que destruiu o império das leis no Brasil e, para completar, envolveu-se até o pescoço naquele que provavelmente é o maior escândalo financeiro da história do país.

10. A Verdade, a Beleza e a Justiça se tornaram proibidas no Brasil. Chegamos ao tempo previsto pela frase do jovem Marx — aquela que, não por acaso, está reproduzida em sua lápide no Cemitério Highgate, em Londres. O tempo em que as Três Irmãs amadas por Deus foram esquecidas em nome do Poder.

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