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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Negligência e tragédia

A menina da ponte e a morte da confiança

Quando a confiança é corrompida, qualquer passo se torna a possibilidade de um salto para a morte. (Foto: A Criação de Adão/Wikipédia)

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J. J.

Já contei a vocês, meus sete amigos, que Bach ajudou a me salvar? Há trinta anos, nos momentos mais sombrios da depressão, escutar as obras do mestre alemão era uma das poucas coisas que me faziam acreditar no valor da vida.

No começo de suas partituras, Bach tinha por hábito escrever as iniciais J. J., abreviatura para Jesu Juva (em latim, “Jesus, ajuda-me”). Hoje resolvi imitar esse hábito do compositor, ainda que uma simples crônica jamais possa chegar aos pés da menor de suas obras, e usei as mesmas iniciais no começo da coluna.

Fiz isso porque preciso de ajuda para falar sobre o caso da menina arremessada da ponte. Sim, era uma menina. Maria Eduarda Rodrigues de Freitas tinha 21 anos. Era uma linda moça formada em Educação Física, que teve a vida interrompida abruptamente por uma negligência absurda: esqueceram de lhe amarrar as cordas.

Tenho outra razão para chamar Maria Eduarda de menina. Estou lendo “Minha Vida de Menina”, de Helena Morley, diário de garota mineira escrito entre os anos de 1893 e 1895, quando a autora estava no início da adolescência. Pouco antes da tragédia da ponte, li a passagem do diário de Helena em que ela descreve a morte de Bela, uma linda jovem, filha de ex-escravos. Em certo momento, Helena se põe ao lado do corpo de Bela, com a esperança de vê-la acordar. Essa esperança tem um nome: ressurreição.

Vivemos em um tempo que destruiu meticulosamente a confiança entre os homens

Eu também tenho essa esperança. Maria Eduarda, essa menina que poderia ser nossa filha, nossa neta, nossa irmã — um dia ela ressurgirá das profundezas da morte, e o mesmo acontecerá com Bela, com Helena, com o menino Henry Borel e com as vítimas da colisão de helicópteros no Rio. O salto para a morte não será a última palavra. Depois dele, existe o salto para o ser.

Mas a tragédia de Maria Eduarda nos impõe uma pergunta: o que foi feito da confiança? Vivemos em um tempo que destruiu meticulosamente a confiança entre os homens.

A confiança — assim como a bondade, a compaixão, a pureza e outras virtudes — virou motivo de chacota no mundo de hoje. E isso é terrível, uma vez que toda a vida social é baseada em relações de confiança mútua: você entra em uma casa porque confia em quem a construiu; você se alimenta porque confia em quem preparou o alimento; você sai à rua porque acredita que não será assaltado e morto na próxima esquina. Quando essa confiança é corrompida, qualquer passo se torna a possibilidade de um salto para a morte. Alguém pode aparecer de repente e dizer: “Essa casa não é mais sua”; “Esse filho não é mais seu”; “Esses bens agora pertencem à coletividade”; “Seu pensamento é um crime”; “Perdeu, Mané”.

E não haverá nada para segurar, exceto a mão de Deus — a única que não nos deixará cair nas sombras da morte.

S. D. G.

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