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“O tempo presente e o tempo passado/ Estão ambos talvez presentes no tempo futuro/ E o tempo futuro contido no tempo passado.”
(T. S. Eliot)
“Nosso nível tá outro. Nosso futuro é Suíça.” As palavras da lobista Roberta Luchsinger dirigidas a seu amigo íntimo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, durante uma conversa sobre negócios caíram como um meteoro sobre o noticiário dos últimos dias, mas a mim, cronista de sete leitores, curiosamente fizeram lembrar os versos do poeta anglo-americano Thomas Stearns Eliot em sua obra-prima “Quatro Quartetos”.
No poema, Eliot fala sobre a irremissibilidade do tempo, ou seja, sobre o fato inescapável de que as coisas que aconteceram não podem desacontecer, e estarão para sempre registradas no imenso livro da realidade. Mas Eliot também nos aponta para uma qualidade cíclica do tempo, ao assinalar: “O que poderia ter sido e o que foi convergem para um só fim, que é sempre presente”.
Dentro do tempo, há vários Lulinhas. Houve aquele que nasceu dias antes de seu pai tomar posse como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, em 1975, levado pelas mãos do irmão mais velho, o militante comunista Frei Chico. Houve o Lulinha que se formou em Biologia e tornou-se monitor do Jardim Zoológico de São Paulo, mas em 2003, no início do primeiro mandato do pai, converteu-se em ás dos negócios, tornando-se milionário juntamente com os amigos Fernando Bittar e Kalil Bittar, filhos de Jacó Bittar, fundador do PT e grande companheiro de Lula. Nessa empresa, inicialmente chamada Gamecorp, também atuou como sócio Jonas Suassuna, aquele que dizia ser o dono do famoso sítio de Atibaia.
Mais recentemente, surgiu o Lulinha empresário do ramo da cannabis medicinal, amicíssimo de Roberta Luchsinger, a lobista que exigiu punição exemplar para os “golpistas” de 8 de janeiro e desenvolveu uma relação de lucrativa parceria com o Careca do INSS, apontado como um dos principais assaltantes que afanaram R$ 6 bilhões aos velhinhos aposentados brasileiros, e que, segundo mensagem dirigida a Roberta, enviou R$ 1,1 milhão para o “filho do rapaz” (e aqui eu deixo meus sete leitores as especulações sobre quem seria esse filho e quem seria esse rapaz). Um detalhe que talvez não seja ocioso: pouco antes de estourar o escândalo do assalto aos velhinhos, Lulinha se mandou para a Espanha.
Mas aqui eu gostaria de destacar o profundo significado de uma pequena frase: “Nosso futuro é Suíça”. Confesso que fui dormir e acordei pensando nessa construção verbal, nessas míseras quatro palavrinhas que revelam um universo de sentidos. O pronome possessivo “Nosso” quer dizer: aquilo que pertence a mim, Roberta, e a você, Lulinha.
O substantivo “futuro” define-se como aquilo que habita o mundo das expectativas e esperanças. O verbo “é” nos conduz ao ser, à própria essência da realidade. E o nome próprio “Suíça”, no caso, representa muito mais do que a nação oficialmente chamada Confederação Helvética, a terra de Jean-Jacques Rousseau, Jacob Burckhardt, Carl Gustav Jung e Paul Klee. “Suíça”, na frase de Roberta Luchsinger, é o lugar dos sonhos, dos prazeres, da riqueza e do contentamento. E das contas secretas.
Essa Suíça é um lugar em que você pode entrar 47 vezes no gabinete presidencial e fazer bons negócios enquanto bandidos subtraem os aposentados e os pagadores de impostos de um país menos afortunado. Ali você pode comprar um colar de diamantes e dois solitários para a mulher de um assessor que abre portas importantes. Seu dinheiro pode ser tranquilamente enviado para um refúgio que o radar não alcança. Nesse país você pode passar férias dos sonhos custeadas por amigos que sabem abrir as portas certas. Estamos falando de outra Suíça, que transcende a Suíça do mapa.
“Nosso futuro é Suíça”, disse Roberta a Lulinha. Pois eu, cronista de sete leitores, digo a cada um de vocês: o nosso futuro não é Suíça. No nosso futuro, o salário médio não será de 8.600 dólares, mas de 645 dólares, ou menos; o IVA não será de 8%, mas de 28%; nossa posição no ranking de IDH não será a 3ª, mas a 89ª, ou pior; não teremos 0,5 homicídio por 100 mil habitantes, mas 20, ou mais; e continuaremos tendo metade da população sem saneamento básico, ou seja, no esgoto.
Nosso futuro não é Suíça, nosso futuro é o país da dívida pública de 11 trilhões, dos 82% de endividados, do recorde de falências, do escândalo do Master, do roubo dos velhinhos, da impunidade dos bandidos, da perseguição aos homeschoolers, do colapso civilizacional, da destruição da lei, do Regime PT-STF, da censura, do roubo, da inveja, da burrice, da inversão ontológica da realidade.
Nosso futuro é Brasil, Lulinha. Graças a você sabe quem.
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Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



