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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Mentalidade revolucionária

Novas confissões de um ex-militante esquerdista

Da sedução da revolução ao arrependimento: uma confissão sobre como o ódio, a violência e a morte podem se disfarçar na ideologia. (Foto: Imagem criada utilizando Gemini IA/Gazeta do Povo)

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“Subimos ele adiante, eu em segundo/ Até que eu vi do céu as coisas belas/ Que o céu contém por um rasgo rotundo/ E então saímos a rever estrelas.”
(Dante, Inferno, Canto XXXIV)

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Li, há poucos dias, o depoimento do filho de dois terroristas americanos. Ele passou a infância na clandestinidade, pulando de disfarce em disfarce, aprendendo, aos quatro anos de idade, a despistar o FBI, enquanto os amigos de seus pais morriam em explosões acidentais ou deixavam bebês órfãos ao serem presos por assaltos e assassinatos. É uma história de ruína e tragédia. E, no entanto, assombrosamente, aquele homem continua, de alguma forma, professando a mesma fé sombria de seus pais.

Vi também, na semana passada, um jovem militante contemporâneo esquivar-se de condenar o estupro e o massacre de mulheres e crianças, porque cometidos pela facção que ele considera “do lado certo” da história. A cegueira não passou. O Monstro continua faminto.

Ao olhar para esses espelhos, percebo que a essência da religião sem Deus — o movimento revolucionário — jamais foi a justiça, a igualdade ou a paz. A essência era, e continua sendo, uma só: a morte dos inimigos políticos.

Diante disso, preciso reescrever minhas confissões.

Confesso que um dia acreditei na revolução como o único fim e que, por ela, julguei que todos os meios eram sagrados.

Confesso que não via o roubo como crime, desde que o produto da rapina servisse para alimentar a causa.

Confesso que não acreditava em Deus e, na suposta ausência d'Ele, fiz da minha própria vontade a lei e do ressentimento a minha oração.

Confesso que desprezava a fidelidade e a família, vendo nos afetos mais puros apenas mecanismos de controle da sociedade burguesa.

Confesso que, se fosse necessário para o triunfo da causa, trairia meus amigos, falsificaria a verdade e justificaria o derramamento de sangue inocente.

Confesso que romantizei o crime e transformei o homem violento em herói, cego para a dor de suas vítimas

Confesso que, como aquele filho de terroristas em sua infância em fuga, cheguei a olhar para o abismo; mas, diferentemente dele, pela graça do Altíssimo e pelo exemplo de amor e paz dos meus pais, tive os olhos abertos para a desolação da minha própria alma.

Confesso que vi o abismo devorar os que escolheram a espada revolucionária — como os melhores amigos do meu pai, que tomaram esse caminho e não voltaram —, enquanto o meu pai escolheu a vida, a construção de um lar e a doçura da minha mãe. Se estou aqui hoje escrevendo estas linhas, é porque o amor deles foi mais forte que a vertigem do massacre.

Confesso que sinto horror ao ver os novos doutores da barbárie justificarem o estupro e a tortura em nome de uma utopia de sangue.

Confesso que a inveja foi meu combustível, o medo, meu companheiro diário, e o rancor, minha única consolação.

E confesso, por fim, que nada disso era amor pela humanidade: era apenas ódio pela vida como ela é.

Por tudo isso, peço perdão.

Peço perdão ao amigo que caluniei, àqueles que ofendi, aos inocentes que ignorei e a você, leitor, que agora me lê.

Que Cristo nos liberte da religião do ódio, antes que a marcha dos ressentidos transforme o mundo em um grande campo de extermínio.

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