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“A desintegração cultural está presente quando dois ou mais estratos se separam de tal modo que se tornam, na verdade, culturas distintas.” (T.S. Eliot)
O leitor deve se lembrar da cena: dia 16 de janeiro de 2020, a Secretaria Especial de Cultura do governo Jair Bolsonaro publica um vídeo de Roberto Alvim, chefe da pasta, com uma estética, no mínimo, duvidosa, e um discurso para lá de torto (falei sobre isso aqui): “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo – ou então não será nada”.
Um pronunciamento delirante e desastroso, que lhe custou o cargo e reforçou na oposição a narrativa de que estávamos diante de um governo supremacista branco. A semelhança estética com uma foto de Goebbels não é exagerada; o tom grandiloquente e a trilha sonora wagneriana (que eu amo) completaram os elementos nefastamente caricaturais, que fizeram o discurso se parecer com uma esquete de humor. Não poderia ser real. Mas era.
Mas o que quero destacar desse famigerado pronunciamento é menos a sua forma que seu conteúdo. Em trechos menos evidenciados de seu discurso, temos uma ideia do que ele, segundo afirmou, seguindo um pedido do presidente, pretendia. Ele diz: “queremos uma cultura dinâmica, mas, ao mesmo tempo, enraizada na nobreza de nossos mitos fundantes: a pátria, a família, a coragem do povo e sua profunda ligação com Deus amparam nossas ações na criação de políticas públicas. As virtudes da fé e da lealdade, do autossacrifício e da luta contra o mal serão alçadas ao território sagrado das obras de arte”. E, a partir disso, anuncia uma iniciativa de fomento através de um prêmio que, distribuído pelas diversas manifestações artísticas, totalizaria R$ 20 milhões.
Ou seja, o que o governo Bolsonaro desejava era uma política de cultura obviamente voltada a uma concepção específica de cultura e de arte, que não poderia, segundo Alvim, “ficar alheia às imensas transformações intelectuais e políticas que estamos vivendo”. O governo desejava, portanto, direcionar politicamente a produção artística, de modo artificial, forçando o pêndulo da famigerada “guerra cultural” a balançar mais à direita, num claro desejo de diminuir a influência da esquerda na cultura e nas artes do país. Mas, ora essa, desejava uma “arte nacional” enquanto, ao fundo, tocava um compositor alemão.
Se pensássemos como militantes políticos de direita, é possível que nos sentíssemos representados por essa política, imaginando que ela, por exemplo, inibiria iniciativas como Queermuseu, La Bête (aquela do peladão do MAM, em São Paulo) e outras manifestações artísticas que, de acordo com essa perspectiva, ferem a moralidade de um povo e “sua profunda ligação com Deus”. Mas o que teríamos em seu lugar? Como o governo seria capaz de orientar a produção artística do país? Que artistas seriam contemplados com os prêmios oferecidos, num governo ao qual só interessava “uma arte que cria a sua própria qualidade a partir da nacionalidade plena e que tem significado constitutivo para o povo para o qual é criada”? Repito: muitos devem ter vibrado com a possibilidade de termos uma arte sanitizada das maluquices da esquerda. Mas a viabilidade disso me parece distante da realidade e, para ser sincero, perigosa.
Entretanto, se pensarmos como apreciadores de arte, como pessoas que compreendem que o fazer artístico deve ser livre e jamais orientado por governos; se entendermos que a arte contemporânea, que relativizou o gosto estético e transformou tudo numa questão de contestação e militância política, é um retrato de seu tempo e só pode ser combatida com arte – não com arte engajada de direita, mas com arte livre, produzida por artistas comprometidos com sua vocação e cujo engajamento político, se houver, seja incorporado à sua arte de maneira natural, ainda que apaixonada; se entendermos isso, compreenderemos que o papel do governo nessa dinâmica é muito baixo e indireto.
Como digo no artigo que citei acima:
“Creio que o único modo de o Estado se envolver com a elevação cultural de seu povo é por meio da educação; é apresentando às crianças e jovens a variedade de tradições e de bens culturais do país, estimulando o julgamento autônomo baseado no conhecimento, não na mera sugestão doutrinária. O Estado não deve, em hipótese alguma, tentar moldar a cultura de seu povo; deve, no máximo, garantir que a cultura tenha desenvolvimento amplo, irrestrito e autônomo, que todas as manifestações culturais – sejam elas consideradas degradadas ou não pelos governantes – tenham espaço na sociedade, e que ela própria seja capaz de julgar o que é melhor para si – por meio da boa educação de sua imaginação moral.”
Entretanto, entendo o problema que justificou essa investida atabalhoada do governo Bolsonaro – o primeiro governo declaradamente de direita desde a redemocratização – no controle da cultura e da arte: a esquerda domina a cultura no país (em todo o Ocidente, talvez) e usa o Estado como um garantidor dessa hegemonia. Não foi à toa que vi, recentemente, um discurso exaltado do veterano ator Antônio Pitanga, no Festival de Cinema de Brasília, defendendo o voto em Lula como se esta fosse a única maneira de salvar a cultura. A maioria dos artistas ocidentais contemporâneos está contaminada pelo discurso progressista de raça, classe e gênero, não cede um milímetro de sua hegemonia e persegue aqueles que não se submetem. Isso torna a vida de um artista não engajado politicamente à esquerda um verdadeiro martírio.
Por outro lado, o que vejo à direita, no Brasil, é, no campo da intelectualidade, apenas a manifestação de um reacionarismo fetichista em torno da chamada alta cultura, mas que, na prática, não consegue escapar da mesma panfletagem ideológica, com seus documentários e especiais da Brasil Paralelo ou iniciativas cinematográficas vergonhosas como Nem Tudo Se Desfaz – espécie amadora de Lula, o Filho do Brasil da direita. O dinheiro de grandes empresários de direita no Brasil (o leitor sabe quem são) jamais é destinado a iniciativas que verdadeiramente poderiam fazer frente à hegemonia de esquerda na cultura e mudar esse cenário.
Enquanto não ultrapassarmos a mera reação à esquerda e a ideologização moralista conservadora nas artes, não poderemos contribuir com uma cultura que seja verdadeiramente civilizatória no Brasil. Enquanto a direita não tiver olhos para isso de maneira profunda, com discernimento intelectual e senso estético e crítico apurado, consumindo e promovendo a produção de bons artistas, apoiando o seu trabalho e educando o imaginário dos próprios filhos não de modo fetichista, mas criativo e aberto ao que há de bom em todos os campos, estaremos sempre à mercê da esquerda e sendo obrigados a dar razão ao seu discurso de que a direita não se preocupa com a cultura.

Paulo Cruz é professor e palestrante, formado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião. Em 2017, foi um dos agraciados com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura a nomes que se destacaram na produção/divulgação cultural, e em 2022, com o podcast Noir, foi vencedor do Prêmio Governo do Estado de São Paulo para as Artes, na categoria Cultura Urbana. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



