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Paulo Cruz

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A liberdade é um direito radical. Coluna semanal

Colonialismo ideológico

África: guardiã do conservadorismo no século 21

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Peregrinos na igreja de São Jorge, em Lalibela, na Etiópia: cristianismo tem presença milenar no continente africano. (Foto: Stephanie Lecocq/EFE)

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“O colonialismo roubou dos africanos não apenas seus recursos naturais, mas, ainda mais importante, sua autoconfiança e sua liberdade de governar a si próprio […]. Há um novo colonialismo em nosso tempo – não de terras ou recursos naturais, mas do coração, mente e alma da África. É um colonialismo ideológico.” (Obianuju Ekeocha)

O recente endurecimento das leis anti-LGBT na África são vistas, no Ocidente, como retrocesso, uma vez que diversas sociedades africanas pré-coloniais toleravam ou institucionalizavam práticas que hoje associaríamos à diversidade sexual. Mas isso não significa que compartilhavam das categorias identitárias modernas, que são produto de transformações culturais recentes. Entre a ideia de uma tradição africana intrinsecamente hostil e a de um passado amplamente permissivo, há um terreno mais preciso: o de sociedades que organizavam sexo e gênero segundo lógicas próprias, incompatíveis com os termos do debate contemporâneo, e é aí que a discussão precisa ser situada.  Podemos colocar o feminismo sob a mesma perspectiva.

Em 2021, a romancista nigeriana Chiamamanda Ngozi Adichie, autora de best-sellers como Hibisco Roxo e Meio Sol Amarelo, foi entrevistada no programa Roda Viva, da TV Cultura. Adichie, que ficou conhecida mundialmente por uma palestra no TED Talks, em 2009, na qual falou do “Perigo de uma história única”, no Brasil caiu nas graças das feministas negras, anos depois, por outra minipalestra TED, cujo tema foi “Todos nós deveríamos ser feministas”, de 2012.

O problema é que não demorou muito para Adichie entrar em conflito com o feminismo identitário. Começou com um comentário, numa entrevista à apresentadora Cathy Newman, do Channel 4, na qual disse que “mulheres trans são mulheres trans”, e, ainda: “não acho que seja bom misturar tudo numa coisa só. Não acho que seja bom tratar as questões das mulheres como exatamente iguais às questões das mulheres trans. O que estou dizendo é: gênero não é biologia, gênero é sociologia”.

Foi chamada de transfóbica e passou um longo período tendo de defender a sua posição, o que a levou a escrever em seu site um longo artigo contra a cultura do cancelamento, gerando ainda mais controvérsia ao dizer, dentre outras coisas, que há “uma geração de jovens nas redes sociais com tanto medo de ter as opiniões erradas que se privaram da oportunidade de pensar, aprender e crescer”. Depois, numa entrevista a Emma Barnett, do canal Bloomberg, defendeu J.K. Rowling por suas posições frontalmente contra o ativismo trans. E disse: “quando comecei a ler sobre como ela estava sendo atacada, fui ler o que ela havia escrito e achei perfeitamente razoável. Não vi por que precisava ser atacada. Acho que foi tratada de forma abominável”.

Não existe muita consciência das religiões africanas tradicionais entre jovens nigerianos (...) O que me interessa cada vez mais é como africanizar o cristianismo.

Chiamamanda Ngozi Adichie

Creio que, para além das controvérsias que tais declarações geram na atualidade, elas mostram, na verdade, que Chimamanda Adichie não deixou sua liberdade de expressão e sua visão de mundo serem influenciadas pelo pensamento coletivista dos movimentos identitários. Porque é uma escritora e, como tal, não pode se deixar aprisionar. Falou sobre isso no Roda Viva, e reafirmou seu compromisso com sua arte. Numa entrevista recente à Revista Cultured, disse que sua “visão de mundo é muito marcada pela fé – até pelo otimismo – na capacidade das pessoas de encontrarem sua tribo. O isolamento profundo não é algo pelo qual tenho particular interesse”.

Mas a entrevista no Roda Viva não passou sem momentos constrangedores, provocados justamente por alguns jornalistas nessa tentativa de colocá-la em caixinhas ideológicas. A começar que o feminismo de Adichie é, em essência, humanista e universalista, e parte da experiência vivida de mulheres concretas (especialmente negras e, mais especificamente, africanas). É progressista, mas não ideológico, abstrato. Depois, ela é católica. Sempre reafirmou isso e jamais mostrou qualquer intenção de mudar. E foi curioso ver como respondeu a uma pergunta sobre religião.

A certa altura, a professora e militante do feminismo negro Carla Akotirene fez uma pergunta prolixa, caricata e um tanto inusitada à escritora: “Professora, aqui no Brasil, temos enfrentado o terrorismo religioso, que é a maneira pela qual nós, que somos de matriz africana através do culto aos orixás – eu sou uma mulher de Oxum, cultuo Xangô –, nós procuramos, ainda que desse lugar de feminismo, resgatar a potencialidade dos orixás, e suas obras para nós, representam esse resgate com os nossos antepassados: com a justiça de Xangô, com a matripotência de Oxum, com o ímpeto de Oyá”.

Nesse momento, Adichie parecia um tanto espantada com o que ouvia, mas a entrevistadora continuou e, finalmente, concluiu com uma pergunta dupla: “Nesse sentido, eu quero saber até que ponto podemos nos filiar à religião de matriz africana para construirmos um novo modelo de sociedade, um novo modelo de relações humanas? Qual o papel da religião pra você?” A resposta da escritora foi, de certo modo, um balde de água fria nas expectativas da nossa militante. Peço perdão pela longa citação, mas é necessária (para não dizer hilária):

“Bem, acho que o mais importante a dizer, antes de mais nada, é que por todo o continente africano o cristianismo pentecostal é simplesmente esmagador, e há coisas boas nele, e coisas que não são tão boas. As coisas boas acho que são que as pessoas... Na Nigéria, onde as pessoas não têm acesso a políticas de saúde mental, de alguma forma a religião faz esse papel. Mas, ao mesmo tempo, há um certo tipo de cristianismo pentecostal que prega prosperidade e associa riqueza com bênçãos. Essa ideia de que, se você rezar, Deus deixa você rico, te dá dinheiro, esse tipo de coisa, e eu acho isso perturbador. Eu fui criada na fé católica e, desde que minha mãe morreu, tenho pensado mais na religião e conversado muito mais sobre a fé, porque acho que isso acontece quando você está sofrendo, você começa a se perguntar sobre a pessoa amada que morreu. Mas quanto à religião africana, é interessante, porque uma das coisas que acho que o cristianismo fez, ao chegar com o colonialismo, foi ensinar a muitos africanos que a religião de seus pais e antepassados era de alguma forma ruim. Hoje em dia você encontra muitas pessoas falando sobre religiões tradicionais como se elas fossem ʻmásʼ, ʻdemoníacasʼ, ʻruinsʼ, tudo isso. Então não existe muita consciência das religiões africanas tradicionais entre jovens nigerianos. Para mim é uma questão de... porque o cristianismo é tão padrão – isto é, no sul da Nigéria; no norte é o Islã. O que me interessa cada vez mais é como africanizar o cristianismo. Eu fui ao funeral em minha cidade natal, e me lembro de que olhava para a estátua da Virgem Maria e pensava: ʻé tão estranhoʼ. Quando criança eu não notava o quanto era estranho. Você tem a estátua de uma mulher branca, e, para começar, isso é historicamente incorreto, pois ela não poderia ter sido loira de olhos azuis. Além disso, eu ficava pensando: ʻpor que nunca pensamos em africanizar essas imagens que refletem a nossa fé?ʼ Certamente é possível africanizar o cristianismo e se apropriar um pouco mais dele, da mesma forma como muitas igrejas, finalmente, estão permitindo que crianças sejam batizadas com seus nomes tradicionais, algo que não acontecia há alguns anos; você precisava ter um nome inglês”.

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Ou seja, as religiões ancestrais são irrelevantes atualmente na Nigéria, onde 43% da população é cristã e 51% é muçulmana. E mais: mesmo reconhecendo que a demonização das religiões ancestrais é algo ruim, ela não fala em desistir do cristianismo para adotar uma religião que fosse mais ligada às suas supostas raízes africanas. Para ela o cristianismo é o padrão, e o que ela deseja, na verdade, é africanizá-lo, tornar seus símbolos e ícones mais próximos de sua cultura. Outros africanos que conheço e moram no Brasil dizem a mesma coisa. As chamadas religiões de matriz africana são uma criação brasileira, e o desejo de muitos militantes negros por adotá-las só mostra o quão ideológica é essa decisão. E, mesmo que o cristianismo tenha chegado à Nigéria através do colonizador, isso ocorreu há pelo menos seis séculos, e certamente é parte fundamental da religiosidade nigeriana. Abandoná-lo por ideologias contemporâneas é macular a tradição e a cultura do país.

Mas Chimamanda Adichie não é a única a externar uma posição que poderia ser considerada conservadora diante de um ativismo cada vez mais irracional. Outra nigeriana, Obianuju Ekeocha, biomédica e militante pró-vida, num evento promovido pela ONU, em 2016, sobre saúde das mulheres no continente africano, deu uma resposta contundente a uma feminista europeia sobre o aborto. A feminista, uma ex-deputada dinamarquesa chamada Mette Gjerskov (falecida em 2023), interpelou Ekeocha, dizendo:

“[...] Me senti um pouco provocada pelo pensamento do neocolonialismo. Por ser da Europa, claro que isso me afeta. Então eu gostaria de compartilhar um pouco... porque eu estive na África e sei que existem diferentes países. Estive no Zimbábue, no Mali, na Tunísia, na Tanzânia, no Quênia e em Ruanda, e muitos países africanos; e falei com muitas mulheres africanas. E a lição que aprendi, por ser de uma sociedade colonialista, foi: ʻnão cause danosʼ. Permita que as pessoas façam suas próprias escolhas. E quando estive na África, conversei com muitas mulheres, e algumas querem isso; outras, aquilo. Mas acho que devemos permitir que elas decidam por si mesmas. E isso inclui decidir livremente sobre seu próprio corpo, sua própria sexualidade, quando e quantos filhos querem, se querem contracepção, se querem aborto. Não devemos dar esse poder a mais ninguém. Então, se você quer ter certeza de não iniciar uma neocolonização, você deixe que as pessoas façam suas próprias escolhas e decidam sobre seu próprio corpo.”

Então a africana não pestanejou e respondeu – a citação é longa, mas emblemática:

“Eu gostaria apenas de me dirigir à mulher que falou, à dinamarquesa que falou sobre mulheres africanas não terem o direito de escolher o que fazer com seu corpo, e disso ser [um tipo de] colonização. Na verdade, é surpreendente como você foi capaz de dar uma interpretação contorcida dessa ideia. Mas devo dizer isso a você: sou de uma tribo chamada Igbo, na Nigéria. Se eu tentasse traduzir para minha língua nativa o que significa para uma mulher ʻescolher o que fazer com seu corpoʼ, eu não conseguiria. A maioria das línguas nativas africanas nem mesmo tem uma maneira de expressar o aborto como algo bom. Agora, como comunidade e como sociedades, onde isso realmente se torna uma colonização, uma neocolonização, é quando as pessoas do mundo ocidental vêm para a África e tentam nos dar esses tipos de linguagem que nunca poderíamos traduzir para nossa língua nativa. Dizem que isso, na verdade, pode significar algo para a mulher, ʻfazer algo com seu corpoʼ, que não seja moralmente ruim. Mas, de qualquer forma, a primeira coisa que devemos pensar e nos lembrar é que como comunidades – e isso é algo que destaquei logo no início –, culturalmente, a maioria das comunidades africanas realmente acredita, por tradição, por seus padrões culturais, que o aborto é um ataque direto à vida humana. Então, para alguém convencer [...] qualquer mulher na África de que o aborto é uma coisa, que pode ser uma coisa boa, primeiro você tem de dizer a ela que o que seus pais, avós e ancestrais ensinaram ela está, na verdade, errado. Você terá de dizer a ela que eles sempre estiveram errados em seus pensamentos. E isso, senhora, é colonização.”

“A maioria das línguas nativas africanas nem mesmo tem uma maneira de expressar o aborto como algo bom.”

Obianuju Ekeocha

Em 2018, Ekeocha publicou um livro – Target Africa – Ideological neocolonialism in twenty-first century (Ignatius Press) – no qual denuncia o que chama de neolonialismo no continente africano. Robert P. George, professor de jurisprudência na Universidade de Princeton, explica na introdução: “O fato é que o colonialismo para as pessoas e povos da África, e de outros lugares realmente, não acabou, ou, se acabou, foi reinstituído. O colonialismo de hoje não tem as características formais do antigo colonialismo – não há mais vice-reis, governadores-gerais e exércitos de ocupação –, mas é, no entanto, um tipo de colonialismo – colonialismo ideológico”.

A denúncia de Ekeocha é sobre um desenfreado processo de colonização ideológica em nome da “saúde” e de uma suposta libertação da mulher africana, vista como vítima do patriarcado tradicional. Diz ela:

“Apesar da narrativa circulante, de que as mulheres africanas são esmagadoramente oprimidas e escravizadas pelas correntes do patriarcado, desde a nossa independência vimos sete mulheres presidentes e 12 mulheres vice-presidentes na África; esta é de longe uma proporção maior de liderança feminina nos níveis mais altos do que em qualquer outro continente, até mesmo na Europa. As mulheres africanas ocupam muitos cargos de liderança no serviço público. Ruanda, por exemplo, tem a maior proporção de mulheres parlamentares do mundo – 64%. O Reino Unido, em comparação, tem apenas 29% [os números podem estar desatualizados, pela data de publicação do livro].”

Nós, do Ocidente, somos bombardeados de más notícias vindas da África. A mídia é pródiga em mostrar imagens de crianças esqueléticas por causa da fome, dados alarmantes sobre doenças epidêmicas, guerras civis etc., mas se importa muito pouco em mostrar, primeiro, que a África é um continente vastíssimo, com mais de 50 países, com centenas de culturas, línguas e modos de governo diferentes; e que há na África países muito pobres, como o Zimbábue, e muito ricos, como a Namíbia e a África do Sul. A imensa maioria das pessoas ainda pensa a África como um país e não sabe distinguir as imensas diferenças que há no gigantesco continente.

Ekeocha denuncia corajosamente a sanha de fundações ricas do ocidente, como a Ford, a Gates e a Open Society, para controlar a vida dos africanos. E muitos são seduzidos pelas propostas de solução ocidentais para os problemas africanos. Diz ela: “Para muitas celebridades ocidentais e embaixadores da boa vontade, a África continua sendo o destino favorito para o turismo de ajuda humanitária. Países devastados pelo HIV na África Austral; países da África Ocidental dizimados pelo ebola; Etiópia, atingida pela seca e pela fome; Sudão, inundado por refugiados; África Central, devastada pela guerra – esses se tornaram os garotos-propaganda da África necessitada. No entanto, tais imagens nos tornam vulneráveis às artimanhas daqueles que procuram nos colonizar e aos muitos líderes africanos que prontamente os deixarão fazer isso em troca de fundos do Ocidente. E, por meio dessa ajuda, filhos de nações africanas independentes, como eu, tornaram-se fortemente oprimidos pelo espírito dos colonizados”.

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Ela chama isso de racismo filantrópico, pois, em nome de coisas como “planejamento familiar”, desejam controlar o povo africano. Mas Ekeocha é categórica: “Os africanos, em geral, acreditam que o sexo é sagrado, que a vida humana é preciosa do útero ao túmulo, que os filhos são uma bênção, que a maternidade é desejável e que o casamento entre homem e mulher gera vida. Estes são os valores familiares básicos que nossos pais e avós nos transmitiram. Eles estão embutidos em nossos costumes, consagrados em nossas leis e até mesmo codificados em nossas línguas nativas. Tirá-los de nós equivale a invasão, ocupação, anexação e colonização de nosso povo”.

Um exemplo, dentre muitos, dado por Obianuju Ekeocha, é o do controle populacional que o ocidente deseja implementar na África em nome do que seria um planejamento familiar, sem considerar o desejam as mulheres africanas. Ela diz:

“Para os líderes mundiais, o plano de ação é muito claro – um esforço dedicado ao controle populacional nos países em desenvolvimento. Mas em sua obstinada obsessão de reduzir a taxa de fertilidade das mulheres na África subsaariana, a única consideração importante que os especialistas omitiram é a taxa de fertilidade desejada das mulheres em questão. Em 2010, a Usaid divulgou um relatório sobre o número de filhos desejados por pessoas em várias partes do mundo. Foi bastante revelador, pois mostrou que o número desejado de filhos é maior entre as pessoas na África Ocidental e Central, variando de 4,8 em Gana a 9,1 no Níger, e 9,2 no Chade, com uma média de 6,1 filhos para a região. Em todas as regiões e países pesquisados, o nível de nascimentos indesejados também é notavelmente mais baixo, de 6%, em 18 países da África Ocidental e Central. Na verdade, o relatório mostra que, em um país como o Níger, quase não há indicação de fertilidade indesejada. Em outras palavras, as mulheres no Níger consideram todos os seus bebês desejados (mesmo quando a gravidez não é planejada).”

E complementa: “Os africanos são os povos mais filoprogenitivos do mundo. Esta realidade é, talvez, a verdade mais inconveniente por trás da resistência ao controle populacional em várias comunidades africanas. É a verdade nua e crua que refuta todo projeto ou política frágil construída sobre a alegação de ʻnecessidade não atendidaʼ. É a verdade perturbadora que especialistas em controle populacional, elites governantes e entusiastas escolheram ignorar enquanto travam uma guerra contra a fertilidade das mulheres africanas”.

“Os africanos, em geral, acreditam que o sexo é sagrado, que a vida humana é preciosa do útero ao túmulo, que os filhos são uma bênção, que a maternidade é desejável e que o casamento entre homem e mulher gera vida.”

Obianuju Ekeocha

Óbvio que o que Obianuju Ekeocha está denunciando não descarta a necessidade de ajuda e intervenção em muitos problemas enfrentados pela população do continente africano. O que ela diz é que o modo como tal ajuda deve ser exercida não deve passar por cima dos valores dos povos e de seus ancestrais. Não é possível exportar os costumes e práticas ocidentais para a África sem medir os custos dessa intervenção; os problemas, às vezes, nem sequer têm as mesmas causas, então não podem ter a mesma solução. Ela afirma:

“Mesmo com cuidados médicos abaixo do padrão na maioria dos lugares, as mulheres são valentes durante a gravidez. E, assim que seus bebês nascem, elas abraçam graciosa e heroicamente suas responsabilidades maternais. Trabalhei por quase cinco anos num ambiente médico na África, mas nunca ouvi o termo clínico ʻdepressão pós-partoʼ até vir morar na Europa. A condição pode ter sido subdiagnosticada ou ocultada, mas nunca a testemunhei, mesmo com a taxa de natalidade relativamente alta ao meu redor (estimo que pelo menos um membro da família ou amigo próximo deu à luz a cada mês, então vi pelo menos uma dúzia de novos bebês por ano). Em meio a todas as nossas aflições e dificuldades africanas, em meio a todas as instabilidades socioeconômicas e políticas, nossas crianças são sempre um símbolo firme de esperança, uma promessa de continuação da vida, uma razão para lutar por um futuro brilhante”.

Óbvio que isso não diminui a percepção de que

“em muitas comunidades e culturas africanas, o status e a situação das mulheres ainda são motivo de preocupação e precisam de muita atenção, trabalho e melhoria. A persistência de práticas culturais como a mutilação genital feminina e o casamento infantil prejudicaram milhões de mulheres e meninas em muitas regiões do continente. Várias condições médicas continuam a atormentar as mulheres e colocá-las em posições muito vulneráveis em suas comunidades; uma delas é a fístula vesicovaginal, que pode resultar de estupro ou de dar à luz em uma idade jovem. E as mulheres ainda não gozam dos mesmos direitos e privilégios que os homens em certas comunidades, como aquelas onde as mulheres ainda não podem herdar e possuir terras ou propriedades. É importante entender que a situação das mulheres na África varia muito de um lugar para outro. Nos lugares onde as mulheres são prejudicadas em seu desenvolvimento, é necessária uma resposta mais enfática e determinada aos maus tratos que esmagam meninas e mulheres.”

E Ekeocha, ao dizer isso, até defende a existência de um feminismo que lute pela liberdade e pelos direitos das mulheres e a proteja de tais abusos.

Ekeocha defende que a saída para o continente africano é a educação, pois, através dela, “os jovens africanos de hoje podem tornar-se professores, médicos, enfermeiros, cientistas, advogados, engenheiros, banqueiros, comerciantes, empresários e líderes cívicos de amanhã. A ajuda externa na forma de bolsas de estudo pode ser muito benéfica, tornando a educação profissional acessível aos africanos que não podem pagar”. Mas penso que os países africanos sofrem o mesmo problema do Brasil: governos corruptos não querem sua população educada e preferem controlá-la – inclusive usando os movimentos sociais. E arremata, dizendo que o melhor a ser oferecido é o livre comércio, não ajuda – “trade, not aid”.

Ou seja, ancestralidade, liberdade e independência são as chaves para o desenvolvimento e, consequentemente, o combate à colonização ideológica contemporânea na África, o que a posiciona, curiosamente, como uma nova guardiã dos valores que, por muito tempo, sustentaram não só os colonizadores de outrora, mas os próprios ancestrais africanos.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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