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Detalhe de "A criança doente", de Edvard Munch.
Detalhe de “A criança doente”, de Edvard Munch.| Foto: Wikimedia Commons

Não podemos nos amar se não amarmos os outros; e não podemos amar os outros se não nos amarmos. Mas um amor egoísta de nós mesmos nos torna incapazes de amar os outros. (Thomas Merton)

Sou conhecido por não ser um sujeito muito razoável em relação às minhas convicções. Já tratei disso aqui, nesta Gazeta do Povo, ao falar das advertências de minha amada mãe, desde minha adolescência, a respeito de meu radicalismo. O esforço que faço por estar ao lado da verdade exige que me posicione com a firmeza de quem tem por costume buscar, sempre, fundamentar as opiniões. Quanto a isso, não preciso usar de falsa modéstia; gosto de saber e saber certo, e para isso estudo muito. Se tu, que me lês, não crês em absolutos tampouco em certezas, compreendo-te, mas não é o meu caso. Meu cristianismo e meu conservadorismo não me deixam escorregar para o relativismo tão bem assimilado nos últimos dois séculos. Sou, a exemplo de C. S. Lewis, alguém vacinado contra o que ele chamou, em Surpreendido pela Alegria, de esnobismo cronológico, que é “a aceitação acrítica do ambiente intelectual comum à nossa época e a suposição de que tudo aquilo que ficou desatualizado é por isso mesmo desprezível”. Tenho, como um bom cristão, convicções, digamos, milenares.

No entanto, lembro-me que, quando de minha conversão ao cristianismo protestante – apesar de batizado no catolicismo, nunca fui católico praticante –, há mais de 20 anos, esse radicalismo anterior, por um lado, me ajudou a organizar a minha fé de modo bastante racional; e, por outro lado, minha fé equilibrou o meu radicalismo, pelo menos do que tange ao meu comportamento, de modo que mantenho-me sempre consciente desse desequilíbrio e tenho sido cada vez mais suscetível a correções (aprendi com Aristóteles que a virtude está no meio-termo). Converti-me numa igreja pequena, simples, não denominacional, mas cheia de amigos queridos que gostavam muito de estudar seriamente a Bíblia e os fundamentos do cristianismo. Lembro-me de meu pastor à época, um jovem proeminente (hoje também um grande amigo) cujos ensinamentos ainda carrego no peito, chamando-me, jocosamente, de bereano (Atos 17,10-12), por minhas excessivas interrupções das aulas, na escola bíblica, com perguntas e dúvidas.

Talvez seja o caso de (re)orientarmos os nossos corações à virtude, ao amor, para que não caiamos, como muitos brasileiros, num comportamento temerário e insensível à dor do próximo

Alguns autores foram fundamentais na consolidação de minha fé. Minha dívida para com C. S. Lewis é inestimável. Sentenças como “o homem decaído não é simplesmente uma criatura imperfeita que precisa ser melhorada; é um rebelde que precisa depor as armas. Depor as armas, render-se, pedir perdão, dar-se conta de que tomou o caminho errado, estar disposto a começar uma vida nova do zero”, de Cristianismo puro e simples, moldaram o meu senso de dependência da graça. Por falar em graça, a comparação entre a Graça Barata e a Graça Preciosa, de Dietrich Bonhoeffer – teólogo já recorrente em meus artigos, inclusive citado no último – sobre a qual também já tratei aqui, são ensinamentos que me nutriram em meu período como neófito, mas que ainda permanecem vivos em minha consciência. O americano Francis Schaeffer, um dos teólogos públicos mais importantes do século 20, é um autor caríssimo a mim também; Verdadeira espiritualidade, um clássico, é uma obra inescapável para qualquer cristão que se deseje compreender os fundamentos da fé.

Mas por que estou recorrendo a essas memórias biográficas, atento leitor? Porque me lembrei do quanto tenho aprendido ao longo de minha vida e como tenho procurado ser coerente com esses ensinamentos, sempre assentando-me no ombro de gigantes para poder olhar mais longe. E como minhas referências políticas nunca foram de esquerda, passei do desinteresse absoluto a uma compreensão, ainda que indireta, da política da prudência de que fala Russell Kirk. O próprio C. S. Lewis muito me ensinou sobre isso, e minha descoberta posterior de Platão e Aristóteles tratou de consolidar minha aversão por movimentos revolucionários. Só nos últimos dez anos é que tenho me aprofundado um pouco mais no estudo da filosofia e da ciência política.

Mas um dos ensinamentos mais marcantes de minha vida foi meu mergulho na compreensão do Amor. Quando me converti, o caráter volúvel e egoísta de meus sentimentos passou a muito me inquietar. Isso me levou a um período longo de oração e leituras dirigidas a fim de compreender o porquê de minha – de nossa – dificuldade em amar o próximo como a nós mesmos ou mesmo de amar-nos apropriadamente, pois, como diz Thomas Merton – outro de meus mentores –, completando a epígrafe deste artigo, em Homem algum é uma ilha, livro cujo título foi retirado de uma meditação de John Donne a que recorrerei em seguida: “Não podemos nos amar se não amarmos os outros; e não podemos amar os outros se não nos amarmos. Mas um amor egoísta de nós mesmos nos torna incapazes de amar os outros. A dificuldade desse mandamento reside no paradoxo de impor a cada um o dever de se amar sem egoísmo, porque até o amor de nós mesmos é algo que devemos aos outros”. Essa é nossa grande dificuldade, compreender que, como diz Donne, “nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado; todo homem é um pedaço de um continente, uma parte de um todo”. As reflexões do poeta e pregador inglês são bastante oportunas, pois foram escritas quando ele, acometido de uma doença desconhecida, supunha estar à beira da morte; sua preocupação com a compaixão e com o destino de todos nós são profundamente marcantes. Leiamo-no com atenção:

A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntai: Por quem os sinos dobram; eles dobram por vós. Ninguém pode chamar isso de um ato a favor do pesar ou algo emprestado do sofrimento, pois sabeis que não somos miseráveis o suficiente para termos pena de nós mesmos, mas que devemos permanecer encantados pela nossa próxima morada, levando em conta o pesar de nossos vizinhos […] Outro homem pode estar doente também, ter uma doença mortal, e sua aflição permanecer dentro deste como o ouro nas minas, mas mesmo assim não ter serventia para ele; mas esse sino que me traz sua aflição vai às profundezas e traz esse ouro para mim, e talvez pela consideração dos temores de outro, largo-me à contemplação e sinto-me assim seguro de mim ao fazer de meu refúgio nosso Deus, que é de fato nossa única segurança.

Donne fala de um sino que tocava em sua cidade a cada vez que uma pessoa morria; ou seja, a cada notícia que recebia da morte de alguém, ele mesmo se lembrava de sua finitude e preparava sua alma para depositar o óbulo nas mãos do barqueiro. Donne sobreviveu à doença, morreu sete anos depois; suas meditações e poemas permanecem eternos a nos enlevar e orientar.

C. S. Lewis, em Os quatro amores, usando a divisão que os gregos davam àquilo que o senso comum reconhece como um mero sentimento, ensinou-me muitas coisas também, mas sobretudo que não há segurança no amor. Sua advertência nesse sentido é absolutamente precisa e vale ser reproduzida:

Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa, e seu coração certamente vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sombrio, sem movimento, sem ar – ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai se tornar indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa à tragédia, ou pelo menos ao risco de uma tragédia, é a condenação. O único lugar além do Céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturbações do amor é o inferno.

Minha fé equilibrou o meu radicalismo, pelo menos do que tange ao meu comportamento

Muito aprendi e tenho aprendido sobre isso, na teoria e na prática. Mas ouso dizer, caríssimo leitor, que muitos de nós ainda carecem dessa reflexão que me custou, antes de tudo, a consciência de que eu mesmo caminhava na direção oposta da virtude. E com isso não quero me colocar como modelo dos ensinamentos que aqui trouxe. Antes quero estimulá-lo a esse exercício espiritual, a esse exame de consciência, a essa anamnese. Santo Agostinho, ao se deparar com sua condição, afirmou: “Senhor, eu me atormento com esse problema, um problema que está dentro de mim; para mim mesmo tornei-me terreno de difícil e cansativa lavra”; e, a partir disso, construiu uma vida resplandecente de amor.

O momento atual nos oferece essa oportunidade. É um tempo de incertezas, como o de John Donne, também por conta de uma doença desconhecida que já tem ceifado milhares de vidas pelo mundo e parou o Brasil na expectativa de seus efeitos. Talvez seja o caso de (re)orientarmos os nossos corações à virtude, ao amor, para que não caiamos, como muitos brasileiros – infelizmente, tomados pelo desespero impetrado por aqueles que deveriam promover a paz e a ordem social –, num comportamento temerário e insensível à dor do próximo. Como diz Donne: “Alguns homens trancam-se, não somente para a tolerância, mas também para a justiça e a compaixão, até que a solicitação de uma esposa, de um filho, de um amigo ou de um servo vire a chave”. Precisamos de união, de solidariedade, de compreensão, de fortaleza... enfim, de Amor.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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