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“Não há nada que possa ser uma causa perdida porque não há nada que possa ser uma causa ganha. Lutamos por causas perdidas porque sabemos que a derrota e o desânimo podem ser o preâmbulo da vitória de nossos sucessores, embora tal vitória seja, em si, temporária; lutamos mais para manter algo vivo do que na esperança de que algo triunfe.” (T.S. Eliot)
Lá vou eu falar de política…
Em 2020, meu colega de Gazeta do Povo Rodrigo Constantino manifestava publicamente, em seu canal no YouTube, o seu incômodo por ver a mim e outros “isentões” escrevendo neste jornal. No início de 2021, ele pegou um tuíte de uma longa thread que fiz criticando Salim Mattar – à época, ex-secretário de Desestatização do governo Bolsonaro –, que saía do governo dizendo que o “establishment” não queria as privatizações, tirou de contexto, disse que eu estava de “mãos dadas com a patotinha” e me mandou ir para o inferno. Também pediu, publicamente, a demissão de meu amigo Guilherme Macalossi do jornal.
Na thread, eu mostrava que a acusação de Mattar não fazia sentido, uma vez que Bolsonaro nunca havia sido um liberal, mas uma espécie de desenvolvimentista estatista, muito voltado ao corporativismo do Exército. Provei seu antiliberalismo mostrando um vídeo de sua visita ao Ceagesp, em 2020, onde criticou duramente a ideia de privatização da estatal de abastecimento. Aliás, aqui mesmo, em 2019, foi publicada uma lista das estatais que seriam privatizadas no seu governo – a Ceagesp e os Correios estavam lá. Mostrei também que a reforma da previdência dos militares, sancionada por ele, estava repleta de privilégios corporativistas; e que o próprio Mattar doava para campanhas eleitorais com vistas a, com isso, aparentemente, obter vantagens para seus negócios – como os incentivos e renúncias fiscais federais que recebeu durante os governos do PT.
A pressa em resolver os problemas do Brasil pela política é um erro condenado na página um de qualquer bom livro sobre conservadorismo
Mas nada disso abalava Constantino, pois, após anos criticando duramente Bolsonaro (aqui mesmo, em seus artigos), ele agora estava não só totalmente comprometido na defesa do governo, mas numa cruzada para desmascarar supostos traidores. Numa entrevista ao youtuber Rica Perrone, respondendo uma pergunta a respeito de sua mudança de postura em relação ao governo, ele disse que queria se afastar de quem estava “catando pele em ovo demonizando o Bolsonaro, em vez de minimamente ter senso de prioridade e proporção e enxergar o big picture, a floresta, em vez da árvore”.
Porém, recentemente, em sua coluna, ele escreveu: “A bomba dos áudios vazados entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro mexeu com os ânimos de todos da direita nessa quarta, sendo que os nervos já estão à flor da pele. Política nacional virou jogo de futebol com torcidas organizadas e fanáticas. As pessoas sequer são capazes de entender a diferença entre militância partidária e jornalismo opinativo! É uma lástima que tudo tenha chegado a esse ponto”. E em suas manifestações públicas temos visto um posicionamento cada vez mais crítico em relação a uma possível candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Temos o Constantino de 2019 de volta?
Será que só agora ele percebeu que o presidente que apoiou tão ferrenhamente por mais de cinco anos era, ao fim e ao cabo, apenas um parlamentar do Centrão, que estava havia 28 anos no Congresso fazendo absolutamente nada pelo povo, antes de ser eleito com uma postura de antissistema construída por cortes (“Turn Down for What?!”) nas redes sociais e participações em programas sensacionalistas? Que era um risco muito grande confiar em alguém que foi alheio a toda a construção de uma nova direita que se formava no país, de forma orgânica, prudentemente, estudando e se preparando para, primeiro, ganhar as consciências de maneira profunda? Que a pressa em resolver os problemas do Brasil pela política era um erro condenado na página um de qualquer bom livro sobre conservadorismo? Constantino sabia disso. Em sua coluna, em 1.º de agosto de 2019 – antes da virada de chave, portanto –, ele escreveu:
“Seria Bolsonaro um falastrão que atrapalha seu próprio governo ou alguém com visão estratégica jogando xadrez? Para o cientista político Christian Lynch, professor da UERJ, o bolsonarismo se constrói como um PT ao contrário. ‘Não tem projeto de Governo, apenas de poderʼ, afirma. ʽO plano de Bolsonaro é manter domínio sobre 30% do eleitorado e se tornar o Lula de direitaʼ. Estaria o Brasil condenado a escolher para sempre entre tipos como Lula ou Bolsonaro? Quero crer que não. E espero que, após esse momento de revolta legítima que tem alimentado o ressentimento de muitos, a maioria possa buscar soluções mais moderadas, democráticas e, acima de tudo, condizentes com uma política decente.”
Nem mesmo o afetuoso abraço em Dias Toffoli (ainda em 2020!), fruto de uma suposta negociação com o STF; ou vê-lo pedir desculpas a Alexandre de Moraes e, agora, em 2025, depois de tudo o que aconteceu, convidá-lo para ser seu vice sinalizaram a Constantino que havia algo de estranho.
Mas agora ele acordou. Resolveu escrever que “no afã de promover uma mudança por meio das eleições, muitos colocam como única prioridade a derrota de Lula e seu PT, o que é, sem dúvida, o desejo de todo brasileiro decente. Não obstante, esse objetivo vem turvando a razão de muitos e impedindo qualquer tipo de diálogo construtivo”. Curiosamente, em 19 de julho de 2018, na iminência de uma adesão irrefletida de setores da incipiente direita brasileira a Jair Bolsonaro, escrevi – com base numa análise da postura de Platão diante das revoluções políticas de seu tempo:
“Os medíocres são os homens de ação, os utilitaristas, aqueles que agem por conveniência, que não desejam discutir séria e filosoficamente os problemas da sociedade, mas desejam a mudança radical, apressada, a fim de conquistarem o poder e moldarem a sociedade à sua maneira. Desses é melhor manter-se a uma distância segura.”
Eu também havia escrito, anteriormente, em 12 de julho de 2018, que:
“Avançar, recuar ou permanecer como estamos deve ser fruto da reflexão e da avaliação cuidadosas do passado. Tanto no âmbito pessoal quanto no coletivo, assentarmos nosso olhar sobre o ombro de gigantes, na expressão de Bernardo de Chartres, é fundamental para evitarmos erros e buscarmos acertos sem rupturas desnecessárias”.
Setores da direita bolsonarista estão em luta fratricida atualmente – alguns deles, inclusive, ex-amigos que preferiram Bolsonaro à nossa amizade
Mas Constantino, agora, após longos anos de sono dogmático, resolveu dizer que: “não se pode ter político de estimação na mídia. Não há qualquer razoabilidade em tomar partido cegamente, pois o ʻpartidoʼ de jornalistas independentes é o Brasil”. Ele que, em 2020, durante uma participação de Bolsonaro no programa Pânico, brincou – após oferecerem um pão com mortadela ao então presidente: “Presidente, deixa que eu experimento para garantir que não está envenenado”.
Pois bem. Nesses artigos supracitados (e em outros), escritos durante aquele ano e antes da eleição de Bolsonaro, eu já manifestava minha preocupação com a entrega do país a um governo de espírito revanchista, reacionário, que, em vez de produzir as mudanças necessárias para o país, entrasse numa guerra com os outros poderes sem a menor chance de vencer, pois, como eu também disse – e já peço perdão pelo excesso de autorreferência:
“O trabalho de refundação de uma civilização em frangalhos – como a nossa –, a reconquista de nossa liberdade interior, é longo, exige prudência, perseverança e, sobretudo, inteligência; não pode ser conseguido em quatro ou mesmo oito anos. Não é o resultado de uma eleição, ainda que favorável, que nos dará um país melhor, mas o esforço incansável de cada um de nós, a responsabilidade de cada indivíduo por dar o melhor de si para a reconstrução de nosso país, assolado por um populismo rasteiro e corrupto há décadas.”
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Outros setores da direita bolsonarista estão em luta fratricida atualmente – alguns deles, inclusive, ex-amigos que preferiram Bolsonaro à nossa amizade. Aliás, como fez o próprio Constantino, que, em 13 de fevereiro de 2019, me defendeu de ataques sofridos por bolsonaristas, dizendo que eu era “um dos grandes intelectuais do Brasil”; e, em outra ocasião, elogiou um vídeo meu, dizendo:
“O professor Paulo Cruz, colunista da Gazeta do Povo, gravou um excelente vídeo explicando um pouco do que é o conservadorismo, um caráter de prudência e não uma ideologia, como alguns tentam transformá-lo. Cruz chama de reacionários alguns que se dizem conservadores hoje e que tentam monopolizar a ʻverdadeira direitaʼ, como se conservadorismo fosse sinônimo de endossar as ideias de um pensador apenas, um pior, apoiar um governo político”.
O mesmo Constantino que, em 2025, se autointitulará “verdadeira direita” e, agora, briga com outros ex-amigos pelo espólio desse cadáver insepulto chamado direita brasileira. Já peguei meu café para assistir de camarote aonde isso vai parar.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








