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“A obra literária só pode ser recebida através de símbolos, de conceitos – pois é isso que as palavras são; mas o cinema, como a música, permite uma percepção inteiramente imediata, emocional e sensível da obra.” (Tarkovski)
Um dos maiores (se não o maior) cineastas de todos os tempos, o epigrafado Andrei Tarkovski – sobre o qual já escrevi algumas vezes nesta Gazeta do Povo, a começar por aqui –, sonhou durante grande parte de sua vida em adaptar para o cinema uma obra-prima indiscutível: O Idiota, de seu conterrâneo Fiódor Dostoiévski. O projeto era ambicioso, pois, segundo ele mesmo diz, em Esculpir o Tempo: “nem toda a prosa pode ser transferida para a tela. Algumas obras possuem uma grande unidade no que diz respeito aos elementos que a constituem, e a imagem literária que nelas se manifesta é original e precisa”. Esse era o caso de O Idiota. O projeto, no entanto, foi frustrado pela burocracia soviética, costumeiro algoz de Tarkovski durante toda a sua carreira.
Tarkovski adaptou outras obras literárias. Seu primeiro filme, A Infância de Ivan, é baseado no conto Ivan, de Vladimir Bogomolov; Solaris, no romance de ficção científica homônimo de Stanisław Lem; e Stalker, baseado em Piquenique na Estrada, dos irmãos Arkady e Boris Strugatsky. Todos os filmes são obras de qualidade indiscutível, nos quais Tarkovski aplica suas ideias sobre adaptação. Ele divide as obras literárias em dois tipos: nas do primeiro tipo, citado acima, “os personagens são de uma profundidade insondável, a composição tem uma extraordinária capacidade de encantamento, e o livro é indivisível. Ao longo das suas páginas, delineia-se a personalidade única e extraordinária do autor”. Esses livros “são obras-primas, e filmá-los é algo que só pode ocorrer a alguém que, de fato, sinta um grande desprezo pelo cinema e pela prosa de boa qualidade”.
A fidelidade de uma adaptação não se mede pela reprodução da letra da obra, mas pela criação de uma nova obra, a ser reproduzida em outro meio, mas que, de alguma maneira, dialogue com a original
As obras do outro tipo “distinguem-se pelas suas ideias, pela clareza e solidez da sua estrutura e pela originalidade do tema; esse gênero de literatura não parece preocupar-se com a elaboração estética das ideias que contém”. E afirma que o conto de Bogomolov pertence a esse segundo tipo. Após algumas reflexões sobre o desenvolvimento da trama e dos personagens no livro, ele tira algumas conclusões muito interessantes:
“Para mim, os personagens mais interessantes são aqueles exteriormente estáticos, mas interiormente cheios da energia de uma paixão avassaladora. Ivan revelou-se um personagem desse tipo, e esta particularidade do conto de Bogomolov tomou conta da minha imaginação. No entanto, eu não podia acompanhar o autor para além de tais limites. A textura emocional do conto era-me estranha. Os acontecimentos eram expostos num estilo deliberadamente impassível, quase no tom protocolar de um relatório. Eu não poderia transpor tal estilo para o cinema, uma vez que isso teria ido contra os meus princípios. Quando um escritor e um diretor partem de diferentes pressupostos estéticos, o impossível chega a um acordo. Trata-se de algo que destrói a própria concepção do filme. O filme não acontecerá. Quando se verifica um tal conflito, só existe uma solução: transformar o roteiro literário em uma nova trama que, numa certa etapa da realização do filme, passa a chamar-se decupagem técnica. E, ao longo do trabalho sobre este roteiro, o autor do filme (não do roteiro, mas do filme) tem o direito de introduzir no enredo as modificações que julgar necessárias. Tudo o que importa é que a sua visão seja coerente e integral, e que cada palavra do roteiro lhe seja cara e venha filtrada pela sua experiência criativa pessoal.” (grifos meus)
Creio que, diante do exposto, seja possível perguntar: Tarkovski foi fiel à obra de Bogomolov? A resposta pode vir com outras perguntas: Fiel ao quê? À sequência dos fatos? À psicologia das personagens? Ao estilo? À linguagem? Ao ritmo? À estrutura? À cosmovisão do autor? Lendo as reflexões de Tarkovski, parece-me que tais questionamentos fazem pouco sentido, pois a fidelidade de uma adaptação não se mede pela reprodução da letra da obra, mas pela criação de uma nova obra, a ser reproduzida em outro meio, mas que, de alguma maneira, dialogue com a original. A obra literária deixa de ser um modelo a ser reproduzido e passa a ser apenas o ponto de partida para uma criação cinematográfica autônoma.
Do mesmo modo que, no seu projeto de adaptação de O Idiota, ele disse, eu seu Diário, que “o tratamento passo a passo do romance está fora de cogitação; isso contrariaria o espírito da obra”. E vai além, ao afirmar: “pode ser que material de outros romances do escritor tenha de ser incluído no roteiro, a fim de esclarecer a posição de Dostoiévski”. Ousado, não?
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Pois bem. Essa semana fui assistir à adaptação de Christopher Nolan de uma das obras fundacionais do Ocidente, a Odisseia. Não me aterei à descrição da obra original e nem à importância de sua estrutura para a literatura, seu impacto cultural e os valores morais que, somados à tradição judaico-cristã, formaram quem somos e como pensamos. O leitor, creio, já sabe isso muito bem. O fato de estarmos discutindo, em 2026, uma obra oriunda de uma tradição oral de quase 3 mil anos já é, em si, um fato a se comemorar.
Entretanto, desde que o filme começou a ser divulgado, a expectativa dos fãs (e dos haters) não parou de aumentar. A cada comentário, entrevista, trailer, o frisson era enorme. Até que o elenco foi divulgado. Mais uma vez a política entrou em cena e os cansativos identitarismo e anti-identitarismo ganharam a dianteira nas discussões sobre o filme que nem sequer havia sido lançado. A suspeita de que Lupita Nyongʼo seria Helena de Troia causou mais discussões acaloradas do que a escalação de Halle Bailey para ser a Pequena Sereia, na mais recente adaptação da Disney (tratei disso aqui). Comparações de caráter racista, apresentando uma imagem de Diane Kruger (a Helena de Troia, filme de 2004), toda produzida, ao lado de uma Lupita Nyongʼo numa cena como escrava em 12 Anos de Escravidão, circularam por meses nas redes sociais e uma indignação irracional tomou conta do ambiente virtual. Para completar, Zendaya como Atena e até o rapper Travis Scott, como o bardo Demódoco, tornaram a grita ainda maior.
Curiosamente, antes mesmo de o filme chegar aos cinemas, a discussão pública quase não dizia respeito à adaptação em si. O debate foi capturado por outra questão: a escalação do elenco.
A primeira questão é: qual a importância da etnia dos atores na representação cinematográfica de um poema épico antiquíssimo? E nem é preciso ir tão longe: quando Akira Kurosawa fez as suas brilhantes, geniais adaptações de O Idiota, de Macbeth e de Rei Lear, transportando todo o contexto para o Japão, as histórias perderam seu substrato original? Não. E quando Orson Welles representou, ele próprio, o general mouro Otelo, em sua adaptação, o substrato da história se perdeu? Também não. Será que quando, nas montagens das tragédias na Grécia Antiga, em que homens faziam o papel de mulheres, isso diminuía o impacto das obras? Aristóteles dirá que não, que elas cumprem o papel catártico a que se propõem. Então, qual o problema de uma Helena negra? Porque alguém achou um verso de Homero dizendo que ela tinha a pele branca, isso se torna um problema? É uma crítica muito suspeita, para dizer o mínimo.
Nenhuma adaptação será como a obra original; e arrisco dizer que qualquer diretor que tente fazer uma adaptação literal de uma obra literária terá muitos problemas
Em relação à história em si, muitos estão dizendo: “não é Odisseia”. Pois é, não é mesmo. É uma adaptação cinematográfica realizada em 2026. Nenhuma adaptação será como a obra original; e arrisco dizer que qualquer diretor que tente fazer uma adaptação literal de uma obra literária terá muitos problemas. Uma adaptação está sujeita à visão do diretor, que pode ou não corroborar com a visão literal do autor, mas não poderá reproduzi-la integralmente. Uma reprodução integral da Odisseia daria um filme imenso, ou uma série; mas, ainda assim, seria irreproduzível em sua literalidade, pois trata-se de meios diferentes.
Nolan alterou muitas coisas da história original, mas o fez de maneira coerente com a sua própria visão de mundo. Visão essa que quem acompanha o seu trabalho já conhece. Não à toa, o final de Odisseia se assemelha, na mensagem que quer transmitir, ao final de Oppenheimer e outros de seus filmes. Ele seleciona o que quer transportar para a tela, muda cenários e até cenas. Mas o substrato principal da obra homérica está lá: o nostos, retorno para casa; e também a violação da xenia, da hospitalidade, que era algo sagrado.
O fato de Nolan ter abordado Odisseu como um homem fraturado pela guerra (desculpem o pequeno spoiler, mas serve até como um aviso sobre a quebra de expectativa) não é de todo estranho ao próprio olhar da Antiguidade e à recepção da obra posteriormente. Na própria Odisseia, o choro de Odisseu, no Canto VIII, após Demódoco cantar sobre a guerra e o estratagema do Cavalo de Troia, é sinal de que ele estava abalado com tudo o que passou. Ele é um homem, ao mesmo tempo, orgulhoso de seus feitos, mas ferido pelas consequências. Eurípides, em As Troianas, refletiu sobre a devastação humana provocada pela Guerra de Troia, sobretudo na vida das mulheres. E os escritores latinos são ainda mais severos: Virgílio, em sua Eneida, trata Odisseu (Ulisses) como um enganador ardiloso; já Dante Alighieri, na Divina Comédia, coloca Ulisses no inferno.
Se dois dos maiores escritores da tradição ocidental sentiram-se livres para reinterpretar Odisseu segundo os valores de suas épocas, por que exigir de um cineasta contemporâneo uma literalidade que jamais existiu na própria tradição?
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Numa entrevista ao LA Times, Nolan diz: “tenho contado essa história em todos os meus filmes há anos. É uma história de família, uma história de amor, uma história de vingança, uma história de guerra, uma história de amadurecimento. É um texto fundamental muito forte para mim”. E sobre os diálogos em linguagem contemporânea, coloquial – alvo de muitas críticas também –, ele disse: “Talvez eu estivesse sendo ingênuo, isso pode me prejudicar, mas eu queria uma narrativa realista. Para mim, foi uma escolha óbvia”.
Ou seja, Nolan tem uma visão muito clara a respeito do que queria em seu filme, e não se trata de lacração ou de trair Homero, mas de filmar uma Odisseia do seu jeito, que dialogue com a sua carreira, que respeite as suas convicções e obsessões, todas presentes em seus filmes desde sempre. A escalação de elenco pode ter fins políticos? Pode. Mas isso não atrapalha em nada na trama. Elliot Page faz o papel de um soldado frágil, que não deveria ter ido à guerra; um personagem que nem sequer está na Odisseia, mas na Eneida, de Virgílio. O fato de ser um homem trans não influencia em seu papel. E Nolan achata toda a representação de divindades, torna-as menos sedutoras, o que faz caber muito bem, por exemplo, Zendaya como Atena. São escolhas coerentes com as suas ideias. E tudo bem, pois ele o faz muito bem.
O célebre crítico de cinema da André Bazin, em seu artigo “Por um cinema impuro: defesa da adaptação”, publicado na obra O que é Cinema?, diz coisas preciosas a respeito das adaptações cinematográficas. Ele diz, por exemplo, que “o drama da adaptação é o da vulgarização”, e exemplifica de maneira excepcional:
“Pudemos ler num artigo publicitário do interior esta definição do filme Amantes eternos [La Chartreuse de Parme, de Christian-Jaque, 1948]: ʻBaseado no célebre romance de capa e espadaʼ. A verdade sai por vezes da boca dos comerciantes de filme que nunca leram Stendhal. Devemos condenar por isso o filme de Christian-Jaque? Sim, na medida em que traiu o essencial da obra, e em que acreditamos que tal traição não era fatal. Não, se consideramos, em primeiro lugar, que essa adaptação é de qualidade superior ao nível médio dos filmes, e que ela constitui ainda, afinal de contas, uma sedutora introdução à obra de Stendhal, à qual ela certamente rendeu novos leitores. É absurdo indignar-se com as degradações sofridas pelas obras-primas literárias na tela, pelo menos em nome da literatura. Pois, por mais aproximativas que sejam as adaptações, elas não podem causar danos ao original junto à minoria que o conhece e aprecia; quanto aos ignorantes, das duas uma: ou se contentarão com o filme, que certamente vale qualquer outro, ou terão vontade de conhecer o modelo, o que é um ganho para a literatura.” (Grifo meu)
E mais à frente dirá que “a boa adaptação deve conseguir restituir o essencial da letra e do espírito”. E creio, de verdade, que Nolan faz isso em seu Odisseia. Ele traduz um personagem complexo como Odisseu para um público contemporâneo, saturado de guerras. O seu heroísmo é acrescido de uma reflexão importante – e conservadora: não há, de fato, heróis; há acordos e prudência.
Procure a maior tela de cinema que puder, com o melhor som, e assista ao filme de Christopher Nolan de coração aberto. Quer ter a fidelidade da obra de Homero, leia Homero.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Paulo Cruz é professor e palestrante, formado em Filosofia e mestre em Ciências da Religião. Em 2017, foi um dos agraciados com a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pelo Ministério da Cultura a nomes que se destacaram na produção/divulgação cultural, e em 2022, com o podcast Noir, foi vencedor do Prêmio Governo do Estado de São Paulo para as Artes, na categoria Cultura Urbana. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



