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Detalhe da “Alegoria do Bom e do Mau Governo”, afresco de Ambrogio Lorenzetti no Palazzo Pubblico de Siena.
Detalhe da “Alegoria do Bom e do Mau Governo”, afresco de Ambrogio Lorenzetti no Palazzo Pubblico de Siena.| Foto: Web Gallery of Art

Ordem e autoridade são coisas boas: creio nisso tão calorosamente quanto creio que deva acreditar em qualquer ideia; e muito da demanda por elas em nossa época tem bases profundas. No entanto, por trás da busca cada vez maior do povo por tais bens, por trás do papaguear das palavras, tenho a impressão de entrever certa anemia espiritual, uma tendência à ruína, o recorrente desejo humano de escapar do fardo da vida e da reflexão […] E, nesse estado mental e espiritual, os seres humanos tendem a acolher qualquer regime que os alivie da obrigação de uma pretensa democracia. (T.S. Eliot, citado por Russell Kirk em A era de T.S. Eliot)

Estimado leitor, quantas vezes, em sua vida pessoal, tomaste decisões sem avaliar as consequências futuras de tuas ações? E quantas vezes tais decisões resultaram em algo diferente do previsto e foste obrigado a te adaptares à nova realidade de maneira um tanto custosa? Se não é o teu caso, certamente conheces alguém assim, que teve de pagar um preço imprevisto pela falta de, digamos, cálculo das consequências das próprias ações. O ímpeto falou mais alto e cobrou caro.

O fato é que o controle que temos sobre os eventos que nos ocorrem são ínfimos – até nossas necessidades fisiológicas são, por vezes, imperiosas –, e nossa capacidade de prever o futuro é pequeníssima. Podemos e devemos projetar o nosso futuro; vislumbrar, por exemplo, onde queremos estar daqui a algum tempo e trabalharmos para isso. É saudável fazermos planos e é assim que se constroem os grandes empreendimentos: planejando.

Se a realidade que ansiamos ver alterada (para melhor, segundo nossa perspectiva ou de nosso grupo) envolve uma dose grandiosa não só de imprevisibilidade, mas tem grandes chances de desencadear processos incontroláveis e deletérios, o que fazer?

No entanto, parafraseando o grande Ortega y Gasset, nós somos nós e nossas circunstâncias, e se não salvamos a elas, não nos salvamos a nós. As ações que tomamos no presente precisam estar pautadas por essa máxima perfeita do filósofo espanhol, uma vez que temos de estar preparados para o que não prevemos, para as circunstâncias, e sermos capazes de nos adaptar a uma realidade que foge ao nosso controle. É o mínimo que se espera de pessoas maduras, que têm experiência de vida suficiente para não se deixarem levar pelo momento – pelo menos não sem avaliar os possíveis resultados. Tomar melhores decisões, pautadas numa boa avaliação das consequências, nos ajuda a evitar muitos problemas.

Mas e se tal intrepidez, tal impulso, não está relacionado somente à nossa vida pessoal, mas à de milhares – se não milhões – de pessoas? Se nosso desejo de mudança não for individual, mas coletivo? Se a realidade que ansiamos ver alterada (para melhor, segundo nossa perspectiva ou de nosso grupo) envolve uma dose grandiosa não só de imprevisibilidade, mas tem grandes chances de desencadear processos incontroláveis e deletérios? O que fazer?

É aí que a principal virtude do conservadorismo, a prudência – a mãe das virtudes cardeais –, deve entrar em cena. A prudência é a base do conservadorismo, seu princípio fundamental. Como diz Russell Kirk, no imprescindível A política da prudência, trata-se da compreensão profunda de que, “complexa como é a sociedade humana, as soluções não podem ser simples, se têm de ser eficazes. O conservador declara agir somente após suficiente reflexão, tendo sopesado as consequências. Reformas rápidas e agressivas são tão perigosas quanto cirurgias rápidas e agressivas” (grifo meu). E vai além, dizendo que o conservador afirma que “o julgamento de qualquer medida pública se dá pelas consequências no longo prazo”, e “desconfia de qualquer ideologia que possa querer governar por intermédio de um único princípio abstrato, seja esse princípio a ʻigualdadeʼ, a ʻliberdadeʼ, a ʻjustiça socialʼ ou a ʻgrandeza nacionalʼ. Reconhece que a natureza humana e a sociedade não podem ser tornadas perfeitas: a política continua a ser a arte do possível”.

Um dos maiores expoentes do conservadorismo brasileiro, João Camilo de Oliveira Torres – sobre quem já escrevi aqui, nesta Gazeta do Povo –, afirma, em Os construtores do império, que o conservadorismo “é uma posição política que reconhece que a existência das comunidades está sujeita a determinadas condições e que as mudanças sociais, para serem justas e válidas, não podem quebrar a continuidade entre o passado e o futuro”. E exalta a prudência conservadora, ao asseverar:

“Podemos dizer que o traço mais característico da psicologia conservadora consiste, exatamente, no fato de que não considera viáveis as transformações e mudanças feitas sem o sentido da continuidade histórica − mais: o conservador acha impraticáveis e condenadas ao suicídio todas as reformas fundadas unicamente na vontade humana, sem respeito às condições preexistentes. Podemos reformar – por meio de um processo de cautelosa adaptação do existente às novas condições – e nunca pelo estabelecimento de algo radicalmente novo”.

O leitor amigo pode objetar, dizendo que situações excepcionais exigem atitudes excepcionais, uma vez que, caso esteja em curso uma afronta direta à democracia ou mesmo à soberania nacional, o governante conservador deve fazer o que for preciso para restabelecer a ordem – tal qual, por exemplo, a união entre Churchill e Stalin contra Hitler. Mas devemos manter em mente 1. a absoluta excepcionalidade de uma guerra e 2. que Hitler era um inimigo externo. Em situações de relativa normalidade, um governante conservador sempre pensa no longo prazo, pois sabe que seu governo não durará para sempre e é preciso garantir soluções de continuidade para o país, que, inclusive, deverão ser acatadas pelos governos posteriores, ainda que opositores. Temos como exemplo brasileiro o Plano Real.

A violência é um componente indissociável do processo revolucionário, pois parte-se do princípio de que aquilo que mantém as coisas como estão é sustentado por estruturas de poder que precisam ser eliminadas

Em relação às mudanças empreendidas por conservadores, João Pereira Coutinho, em seu As ideias conservadoras, vai ao ponto. Evocando Michael Oakeshott, diz que “a inovação deve partir de uma situação concreta, não de mero desejo abstrato. Deve ser uma resposta a um defeito preciso. Deve ser pequena e parcelar. Deve operar-se lentamente e ser acompanhada passo a passo. E deve ser limitada à parte que se encontra em falta, de forma a minorar as consequências indesejadas e incontroladas que podem emergir da ação reformista”. Qualquer governante que se julgue conservador e não observe tais princípios o faz porque pretende manter-se no poder para sempre – só assim as mudanças radicais terão efeito; por isso mente, engana o seu eleitorado, e no final, fatalmente – pois seu ímpeto desmesurado fez o alvo virar para si –, terá de sucumbir aos ditames da oposição – que agora o considera um inimigo. Creio que não preciso ir além nesse ponto.

Politicamente, aqueles que conhecemos como revolucionários pensam que as mudanças não só valem a pena como são necessárias para atingir os objetivos – quase sempre abstratos – de uma sociedade mais justa. Se há algo que deve mudar, tem de ser mudado não importam as consequências – ou, melhor dizendo, a projeção é que a mudança certamente é melhor que a continuidade. E a violência é um componente indissociável desse processo, pois parte-se do princípio de que aquilo que mantém as coisas como estão é sustentado por estruturas de poder que precisam ser eliminadas. Outros, mais moderados, julgam que podem prescindir da violência, mas, ainda assim, têm certeza de que a mudança deve ocorrer. A estes podemos chamar de progressistas, que, como diz João Camilo, “acreditam […] que a história é sempre um campo em que se realiza, automaticamente, um progresso continuado, e onde, pois, o novo é sempre bom”.

No outro extremo temos os reacionários, que querem usar a mudança – igualmente a qualquer custo – a fim de retroceder a um passado do qual ou têm saudades ou julgam ter sido melhor. As mudanças que nos trouxeram à situação atual, que consideram más, devem ser desfeitas e uma suposta ordem moral passada deve ser restabelecida. São igualmente inimigos do seu tempo e ignoram que é impossível, como diz João Camilo, “que o tempo reflua, que o rio volte à fonte”. E o fazem “condenando as transformações ocorridas numa determinada época recente, como se a história pudesse ser vítima de condenação, como se a história não fosse, pela própria condição humana, essencialmente ambígua, isto é, havendo, sempre, bem e mal em todas as situações históricas”. “O reacionário” – graceja seriamente João Camilo – “é capaz de construir um castelo medieval em Brasília, e andaria de armaduras ou calções de veludo em Copacabana, se isso fosse possível − se assim não faz, com relação a roupas, não deixa de fazê-lo com relação às ideias”.

Reacionários são inimigos do seu tempo e ignoram que é impossível, como diz João Camilo de Oliveira Torres, “que o tempo reflua, que o rio volte à fonte”

Desse modo, é perfeitamente possível distinguir a posição verdadeiramente conservadora do  reacionarismo e do progressismo, bem como do espírito revolucionário e do imobilismo (que não deseja mudança alguma). A mentalidade – ou a disposição, como diz Oakeshott – conservadora tem a profunda compreensão de que – de novo recorro a João Camilo – “a existência das comunidades está sujeita a determinadas condições, e que as mudanças sociais, para serem justas e válidas, não podem quebrar a continuidade entre o passado e o futuro”. Tanto o ímpeto revolucionário quanto o reacionário não respeitam a ordem institucional, tampouco a imperfeição dos empreendimentos humanos. Projetam um futuro ou um passado utópicos e julgam, por seus próprios esforços, serem capazes de nos fazer chegar a esse tempo glorioso.

E embora a história não canse de nos mostrar o perigo dessas posições radicais e inconsequentes, e das consequências desastrosas de ímpetos ideológicos, alguns ainda insistem em fechar os olhos à verdade e vivem de sonhos – que acabam, por ideologia e/ou oportunismo, transformando a vida de muitos em pesadelo.

O exemplo de André Rebouças, aqui, para encerrar, nos é de grande valia. Numa carta de 7 de abril de 1895 a seu amigo Joaquim Nabuco, o maior dos abolicionistas, diz:

“Certamente não se aperfeiçoa uma nacionalidade, permitindo, sob pretexto de necessidade da guerra, todos os horrores e todos os crimes. Dificílimo é aperfeiçoar a espécie humana. Tenho disso a experiência íntima e pública em toda minha longa vida de mestre e educador de meninos e moços. Se alguma coisa pode ser conseguida, é pela propaganda quotidiana, como fizeram Wilberforce e Cobden, e como imitamos, de 1880 a 1888, na Propaganda Abolicionista […]. Nosso juvenil entusiasmo pela Revolução Francesa está hoje muito moderado. Quando consideramos o quanto há sofrido a França e o quão longe ainda ela está do ideal de Liberdade, de Igualdade e de Fraternidade, somos obrigados a concluir que foi um mal, tanto para a França quanto para a Humanidade, esse amálgama de reformas filantrópicas no sangue a na alma do terror e do militarismo de Napoleão. Ainda mais: feito o cálculo dos abusos atuais da 3.ª República em militarismo, em protecionismo, em burocracia, em exploração do povo por toda sorte de monopólios, fica-se em dúvida se eram maiores os horrores e as misérias do ʻantigo regimeʼ”.

Isso foi dito há mais de 120 anos, mas parece que ainda não aprendemos, infelizmente.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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