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O filosofo romeno Constantin Noica.
O filosofo romeno Constantin Noica.| Foto: Dinu Lazăr/Wikimedia Commons

Por que motivo não se fala de crise senão para as doenças e não para a saúde? Porque com a saúde física permanecemos no imediato, não há dialética senão com a doença e só então se pode falar de crise. Mas o espiritual, ou quando se estuda o homem sob esta categoria, doença e saúde são igualmente críticas, e não existe saúde imediata do espírito. (Sören Kierkegaard, O desespero humano)

Em meus muitos anos de debate público, creio que estejamos num momento dos mais conturbados. Não somente por seu ineditismo – com as redes sociais, definitivamente, servindo de campo de batalha política e dando voz a um sem número de pessoas que, de uma hora para outra, trata suas convicções pessoais como verdades absolutas –, mas porque repete-se, de maneira mais capilarizada e intensa, aquele maniqueísmo que, por muitas vezes, acomete os povos que têm uma tendência escapista de depositar suas idiossincrasias no colo dos outros, ou que, como disse bem o filósofo Sílvio Romero há mais de cem anos, sofre de uma espécie de síndrome de falsa superioridade. Diz ele, a nosso respeito, no artigo Nosso maior mal, de 1908: “Nosso maior mal [...] é não termos a consciência positiva do que realmente somos e, muito ao invés disso, darmo-nos a nossos próprios olhos uma superioridade, uma grandeza, um poderio, um progresso, uma cultura, um adiantamento, uns predicados quase sem par por aí além entre as demais nações”.

Muito provavelmente isso é fruto de termos nascido na era moderna, na qual o mundo já havia amadurecido – passado por guerras, fome, catástrofes naturais e epidêmicas –, enquanto por aqui, após termos sido colocados no mapa-múndi pelos intrépidos portugueses, nosso maior flagelo, a escravidão colonial, atingiu diretamente apenas parte da população. A ciência moderna já estava em seu alvorecer, enquanto aqui, nossos silvícolas não conheciam a roda; a Reforma Protestante já havia dividido a cristandade, enquanto aqui, os jesuítas traduziam em tupi os rudimentos do evangelho. Ou seja, somos aquela criança nascida e criada por uma família de anciãos, cuja maturidade precoce mascara deficiências que só a experiência pode desnudar e resolver.

Ademais, há um agravante: a modernidade também abriu espaço para o isolamento espiritual, para o individualismo e para a incerteza das coisas mais certas – e se estivermos sonhando, como ousou imaginar Descartes? Antes que pudéssemos assentar as bases de nossa civilização, o mundo já se esfacelava no relativismo moral. Antes que fôssemos curados de nossa ignorância histórica, os males metafísicos já nos assolavam; e antes que erradicássemos as doenças do primitivismo social – como a febre amarela –, as doenças da alma já fazia suas vítimas.

Creio que ninguém tenha feito um diagnóstico tão preciso de nossas mazelas metafísicas, ou seja, relativas ao nosso ser, do que Constantin Noica

E por falar em doenças espirituais, creio que ninguém tenha feito um diagnóstico tão preciso de nossas mazelas metafísicas, ou seja, relativas ao nosso ser, do que o maior filósofo romeno – e, seguramente, um dos maiores do ocidente moderno – Constantin Noica.

Já falei sobre Noica em mais de uma ocasião (aqui e aqui) nesta Gazeta do Povo, pois sua obra As seis do espírito contemporâneo faz uma análise absurdamente precisa da mentalidade moderna; é um livro que, embora seja curto no número de páginas, abunda em densidade filosófica e consciência da realidade. Noica foi, no sentido prático, um Platão de nosso tempo, responsável por formar uma geração de grandes filósofos romenos – como Gabriel Liiceanu, Andrei Pleșu e Alexandru Dragomir – diante de uma situação absolutamente adversa: a ditadura comunista e sanguinária de Nicolae Ceauşescu. Amigo de Mircea Eliade, Noica foi perseguido e condenado duas vezes – e torturado na prisão – pelo regime, tendo cumprido, a primeira vez, nove anos (1949-1958) de residência forçada em Câmpulung-Muscel, e, no mesmo ano de sua saída, após a publicação de um livro de Cioran, recebeu a sentença de mais vinte e cinco anos de trabalhos forçados em Jilava, sendo perdoado posteriormente, após cumprir ¼ da pena. Exilou-se em Păltiniș, na região de Sibiu, onde manteve sua “escola” de filosofia numa modestíssima cabana; lá, eles liam, discutiam e faziam traduções de Platão; o registro desse período foi feito por Liiceanu, seu discípulo mais próximo, na obra O diário de  Păltiniș (no prelo pela É Realizações).

Voltando às seis doenças, é curioso que Noica produz um tratado de ontologia valendo-se da linguagem da medicina, tratando males metafísicos como patologias. Ele inicia dizendo:

Ao lado das doenças somáticas, que conhecemos há séculos, e das doenças psíquicas, identificadas mais recentemente, deve existir outras, de ordem superior, às quais chamaremos doenças do espírito. Nenhuma neurose poderia explicar o desespero do Eclesiastes, o sentimento do nosso exílio na terra ou da nossa alienação, o tédio metafísico, a consciência do vazio e do absurdo, a hipertrofia do eu ou a revolta sem objetivo; nenhuma psicose poderia explicar o “furor” econômico ou político, a arte abstrata, o “demonismo” técnico, ou talvez aquele formalismo extremo que hoje em dia, em todos os domínios da cultura, consagra o primado da exatidão sobre a verdade.

O diagnóstico se divide em três doenças de carência e três de recusa. As doenças de carência são: Catolite – do grego kathoulou, que significa “geral”; Todetite – do grego tode-ti, que significa “esta coisa aqui”, individual; e Horetite – do grego horos, que significa “termo”, determinação. A catolite, explica Noica, “nasce da precariedade da ordem geral numa realidade individual provida de suas determinações”. A todetite “deve-se a uma precariedade de uma realidade individual que deveria assumir as determinações inscritas numa ordem geral”. E a horetite “é provocada por uma carência de determinações apropriadas de uma realidade geral que já tem sua forma individual”.

O individualismo do qual é acometido aquele que sofre de catolite é uma fardo pesado para o ser humano. Como diz Noica: “é-lhe preciso, a todo custo, e até mesmo quando tem à sua disposição a infinidade de todos os sentidos gerais, encontrar aquele que, sozinho, esteja à sua medida individual. Ademais, este sentido geral não está pronto de antemão, recolhido em algum lugar, num desvio qualquer onde o homem o fosse procurar a seu bel-prazer; cabe ao homem, ao contrário, dar-lhe feição nova a cada vez, e de acordo com suas manifestações individuais”. O Filho Pródigo bíblico é um exemplo desses, pois é assim que ele se comporta quando diz ao pai: “dá-me parte dos bens que me pertence” e parte, desgarrado em busca de aventura: “'Farei o que bem entender' diz o filho pródigo, e parte para o mundo, libertando-se assim dos sentidos gerais de sua família e de sua comunidade, a fim de se dar determinações arbitrárias cujo alcance geral ele desconhece: pois é precisamente a tirania da generalidade que, em casa, o exasperava. Ei-lo liberto dela”.

Esse eu perdido em busca de um sentido de determinações gerais – mas sem consegui-lo –, é presa fácil para o pensamento massificado, cuja pretensão se transforma em devaneio idealista e ideológico. Diz Noica:

Em certo sentido, a catolite é a doença espiritual típica do ser humano, tão atormentado pela obsessão de se elevar a uma forma de universalidade. Quando, por um gesto elementar de lucidez, o homem desperta da hipnose dos sentidos comuns que geralmente o manobram – no interesse, aliás, da espécie e da sociedade –, ele busca por todos os meios curar de sua amargura de ser uma simples existência individual sem nenhuma significação de ordem geral. Ele busca então, mediante a maior parte de seus engajamentos deliberados, apoderar-se dos sentidos gerais. Com muita frequência cai na armadilha dos sentidos prontos (como as “ideologias” de seu tempo), que não são senão falsos remédios, incapazes de curar seu mal em profundidade.

E, à frente, arremata: “o homem cujo coração não é serenado por nenhum sentido mais amplo de seus atos vê-se forçado a seguir sempre em frente, rumo a outras façanhas, não encontrando satisfação senão em sua velha droga: a ação”.

Os delírios de submissão partidária, os grupos organizados de ação política, as organizações cujas metas são sempre abstrações irrealizáveis (as causas), são todos subterfúgios onde aquele que carece de um sentido adequado de geral se ancora.

A todetite, ao contrário, acomete o ser humano na massa, no indistinguível, mas carente de encontrar um sentido de seu próprio eu; é a doença da “disposição teórica particular em que ele coloca sua servidão a um sentido geral, e que o impede de encontrar seu individual apropriado”. É uma doença que, de certo modo, aspira a perfeição de um absoluto. Em termos gerais, o exemplo de Noica, de algo que se manifesta na própria natureza, é bastante apropriado:

A consciência religiosa do homem frequentemente se atormentou, ante o pensamento da perfeição do divino, por não o ver encarnar em nada, procurando-o incansavelmente nos meteoritos caídos do céu ou nas realidades que na terra lhe pareciam miraculosas. Que o cristianismo tenha adquirido, no curso da história, um lugar à parte entre as demais religiões não deixa de ter relação com o fato de ele ter tido força para assumir radicalmente (como testemunham os concílios da Igreja – desde o de Nicéia) a encarnação individual do divino.

No ser humano, a doença se manifesta, segundo Noica, desde sempre: “Em comparação com as outras doenças espirituais, a todetite é velha como o mundo. Ela é, indubitavelmente, a doença típica de metade da humanidade […]; todo ser humano sofre de todetite em certo momento da juventude, sob o impacto de seu idealismo – por vezes algo tolo e, no entanto, rico de belezas e exaltações  –, em particular sob a magia do ideal – essa primeira e obscura ascensão ao plano de um sentido geral –, de que ele se torna, por um instante, prisioneiro”.

A horetite “pretende designar o desregramento das determinações que as coisas e o homem se dão; um desregramento que pode levar à sua precipitação, mas também ao seu retardamento e até a sua extinção. É uma doença que acompanha os fenômenos da vontade, no homem, enquanto a catolite está antes ligada aos sentimentos, e a todetite à inteligência e ao conhecimento. Sofrem de horetite, no exercício de sua vontade, tanto os grandes impacientes quanto, ao contrário, os grandes pacientes deste mundo e a multidão dos bodes expiatórios”. D. Quixote e Fausto, segundo Noica, são exemplos de doentes de horetite, pois são incapazes de “oferecer manifestações adequadas à sua vontade”, se entregando, sempre, a determinações que conflitam tanto com o sentido de geral, quanto ao de individual. Os moinhos de vento e a tentação pelo poder são inadequações de espíritos confusos em suas dimensões de existência.

Derivadas dessas, a Acatolia, a Atodécia e a Ahorecia, são as doenças provenientes da recusa consciente do geral, do individual e das determinações adequadas, respectivamente. Os exemplos dados por Noica são basilares.

Don Juan sofre de acatolia, pois é aquele que se rejeita, terminantemente, a contemplar um sentido geral de existência. Com diz Noica, ele “encarna plenamente o primeiro termo do ser, o individual, pois ele é uma 'individualidade' no sentido forte do termo, isto é, um ser humano que conseguiu destacar-se da inércia das generalidades comuns […]. É libertino e libertário, age como bem lhe parece. É neste sentido que ele adquiriu já sua individualidade, o que não quer dizer sua personalidade: pois, se se libertou de uma ordem imposta, deveria agora abrir-se a uma ordem diferente e que lhe fosse própria. Mas Don Juan não se abre deliberadamente a nada. Ele permanece um 'individual' absoluto, o homem do diabo, como no-lo diz Sganarello na versão de Molière, isto é, aquele que está condenado à recusa do geral”.

O grande escritor Liev Tolstói é, para Noica, um exemplo cabal de atodécia, pois quem sofre desse mal “toma ora a forma da compaixão para com o mundo inteiro, ora a da indiferença para com tudo o que é humano e individual”. Em sua vida, ignorou que “todo ato e toda manifestação dependem de leis que desprezam as individualidades, ainda que sejam da estatura de um Napoleão”. Em sua obra, porém, teoriza a atodécia. Como diz Noica a respeito de Guerra e Paz:

A recusa do individual domina todo o romance, desde a primeira cena, a recepção nos salões de Anna Pavlovna Scherer. Todas as personagens que aí entram – com exceção de Pedro Bezukhov, cuja autenticidade é indispensável ao autor, como eixo central da narrativa – trazem em seu ser a marca de uma sociedade bem estabelecida em suas modalidades gerais e que já não pretende fazer concessões a nenhuma autenticidade individual. Tolstoi, o artista, proíbe-se, certamente, de reduzir sistematicamente suas personagens a simples “figuras típicas”: em contrapartida, o atodécico que há nele as saberá pôr em situações típicas, ou reduzi-las ao silêncio quando, em sua verdade vivente, ameaçam escapar ao controle do geral e transformar-se em sedutoras individualidades.

Em relação à ahorecia, peço perdão por ser autorreferente, mas como exemplo de ahorécico contumaz não vejo personagem mais emblemático que Bartleby, o escrivão de Herman Melville – retratado por mim em artigo indicado acima –, cuja obstinação por não fazer nada é constrangedora:

Bartleby é um jovem escriturário – “levemente arrumado, lamentavelmente respeitável, extremamente desamparado” – que, pouco tempo após ser contratado, por um escritório de advocacia em Wall Street, passa a se recusar a fazer o seu trabalho. De início, cumpre freneticamente o seu ofício – fazer cópias de documentos. Porém, à primeira solicitação para que faça algo além de seu mecânico trabalho de copista, ele responde, laconicamente, com aquele que se tornaria o bordão oficial dos procrastinadores: “Acho melhor não”.

Posteriormente, Bartleby passa a se recusar a cumprir qualquer ordem.

O leitor pode, de acordo com as características de cada “doença”, encontrar outros personagens (ou pessoas conhecidas) equivalentes, ou mesmo reconhecer a si próprio, como fez o autor, inclusive apresentando sua “ficha clínica”.

Por fim, advirto que não pretendo, caríssimo leitor, com essa breve apresentação, resumir o pensamento de Noica e seu magnum opusAs seis doenças... é, como eu disse, uma obra densa, apesar do tamanho. No entanto, é importantíssima para compreendermos o espírito de nosso tempo e suas facetas; e talvez entendermos o que nos faz ser como somos e como buscar a cura para nossas mazelas espirituais. Isso, certamente, nos ajudará a sair dessa espiral de loucura que se tornou o debate público, para buscarmos a verdadeira solução, que está no aprofundamento do nosso ser. Que esse artigo seja, na verdade, um vetor para o livro, a despertar a curiosidade daqueles que, no interesse de contribuir com nosso país, acometido em larga escala pelas doenças do espírito, enfrentem a erudição invejável de Constantin Noica.

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