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Detalhe de "A morte de Sêneca", de Peter Paul Rubens.
Detalhe de “A morte de Sêneca”, de Peter Paul Rubens.| Foto: Reprodução/Domínio público

Guia-me, ó Júpiter, e tu, Destino, ao fim,
seja qua1 for, que vos praza assinalar-me.
Seguirei imediatamente, pois se me atraso,
por ser vil, mesmo assim deverei alcançar-vos.
(Cleantes de Assos, poeta e filósofo estoico)

O caríssimo leitor sabe que sou professor de Filosofia, certo? Pois bem. Nos últimos tempos uma solicitação – às vezes em forma de pergunta – tem persistido entre mim e as pessoas mui queridas que acompanham o meu trabalho: Fale sobre o estoicismo. Ou: O que acha do estoicismo?

A insistência no tema intrigou-me até que, dadas a peculiares circunstâncias em que nos encontramos por conta da pandemia de coronavírus, compreendi. Zenão de Cítio e seus discípulos, grandes filósofos do período helenístico, legaram ao Ocidente uma das mais rigorosas doutrinas morais da História, cuja noção de imperturbabilidade (ataraxia) nos serviria a esse momento tão desafiador. E vi que muitos têm, de fato, recorrido a essa filosofia em busca de aplacar as suas angústias; outros, no entanto, têm usado o estoicismo como mola propulsora para os negócios, construindo uma imagem de empreendedores imperturbáveis na realização de seus objetivos profissionais e financeiros. Leio numa página universitária na internet: “É em momentos como esses que podemos estudar o estoicismo. Manter a calma diante do caos. Deixar de lado pensamentos irracionais e desenvolver um plano para nos manter avançando”. Em outra, deturpando a noção individualista do estoicismo (explicarei abaixo), leio: “Nós não somos somente responsáveis somente por nós mesmos, mas também pelas pessoas à nossa volta. Se eu sou uma pessoa negativa, acabo afetando aqueles ao meu redor, e isso é muito grave”. E, numa terceira, um tanto assustado, leio: “Os estoicos eram tudo sobre mindset, reframing, resiliência, automelhora e tranquilidade”. Isso levou-me a uma reflexão sobre o que estão a fazer com uma filosofia bastante específica que, há mais de 2 mil anos, num contexto completamente diverso, irradiou um ideal de vida que foi aproveitado e reaproveitado ao longo dos séculos – mas penso que, atualmente, temos um problema.

Na época de Platão e Aristóteles, a filosofia tinha uma, digamos, função social, não era uma atividade isolada; o filósofo não era um alienado

As filosofias do período helenístico surgiram num contexto histórico extremamente peculiar, pois, até então dominado pelos gigantes Platão e Aristóteles, o pensamento filosófico era totalmente voltado para a realidade da pólis, a Cidade-Estado grega. A filosofia tinha uma, digamos, função social, não era uma atividade isolada; o filósofo não era um alienado; ele tinha plena convicção, como diz Platão na República, de que “em cada um de nós [os cidadãos] estão presentes as mesmas partes e caracteres que na cidade” (435e). Portanto, a moral platônico-aristotélica era mormente voltada para o coletivo, a ética se unia à política. E Aristóteles é categórico a esse respeito na Ética a Nicômaco:

“A finalidade desta ciência [a ética] inclui necessariamente a finalidade das outras, e então esta finalidade deve ser o bem do homem. Ainda que a finalidade seja a mesma para um homem isoladamente e para uma cidade, a finalidade da cidade parece de qualquer modo algo maior e mais completo, seja para a atingirmos, seja para a perseguirmos; embora seja desejável atingir a finalidade apenas para um único homem, é mais nobilitante e mais divino atingi-la para uma nação ou para as cidades.”

No entanto, a ascensão de Alexandre, o Grande – que foi aluno de Aristóteles –, ao poder, em 336 a.C., suas expedições de guerra bem-sucedidas e sua conquista do Oriente (de 334 até sua morte, em 323 a.C.) simplesmente fizeram ruir a pólis e tudo o que ela representava para a vida grega. Como nos afirma o filósofo e historiador Giovanni Reale, “de cidadão, o homem torna-se simplesmente súdito”, pois o ideal cosmopolita de Alexandre e seu projeto de governo mundial dissolveram a cidadania grega de maneira irrecuperável. A cultura helena se tornou helenística.

Mas os planos de Alexandre foram interrompidos por sua morte prematura, aos 32 anos, e o que se seguiu trouxe consequências drásticas para a organização da sociedade grega. É Reale quem nos esclarece:

“As monarquias helenísticas, nascidas da dissolução do império de Alexandre [...], foram organismos instáveis. Entretanto, não o foram de tal forma a provocar reação dos cidadãos nem de constituir ponto de referência para a vida moral [...]. A vida nos novos Estados se desenvolve independentemente do seu querer. As novas ‘habilidades’ que contam não são mais as antigas ‘virtudes civis’, mas são determinados conhecimentos técnicos que não podem ser do domínio de todos, porque requerem estudos e disposições especiais. Em todo caso, elas perdem o antigo conteúdo ético para adquirir conteúdo propriamente profissional. O administrador da coisa pública torna-se funcionário, soldado ou mercenário. E, ao lado deles, nasce o homem que, não sendo mais nem o antigo cidadão nem o novo técnico, assume diante do Estado uma atitude de desinteresse neutro, quando não de aversão. As novas filosofias teorizam essa nova realidade, colocando o Estado e a política entre as coisas neutras, ou seja, moralmente indiferentes ou francamente entre as coisas a evitar.”

As filosofias helenísticas são, sobretudo, individualistas, pouco se preocupam com o outro, com o próximo; sua maior preocupação é alcançar a serenidade da alma e resistir aos infortúnios impostos por revoluções e domínios

É exatamente nesse contexto, portanto, que surgem as filosofias helenísticas, o cinismo de Diógenes e Pirro, o Jardim de Epicuro, e o Pórtico (Stoá) de Zenão de Cítio. Tais filosofias se desenvolveram numa reação a essa orfandade dos gregos, pois, uma vez impossibilitados de tratar do coletivo, cumpriu a eles cuidar do indivíduo, e, como consequência, a ética apartou-se da política. Tais filosofias, portanto, são, sobretudo, individualistas, pouco se preocupam com o outro, com o próximo; sua maior preocupação é alcançar a serenidade da alma e resistir aos infortúnios impostos por revoluções e domínios. “Aos filósofos helenísticos e aos seus seguidores”, diz Reale, “na realidade importava não a sophia, mas a phronesis, isto é, importava resolver os problemas da vida”. O resultado foi um nível elevadíssimo de individualismo e egoísmo de tais doutrinas, que, ainda assim, influenciaram gerações – e, pelo jeito, continuam influenciando.

Foi assim que Zenão (332-262 a.C.), um jovem de ascendência semítica, após ter sido presenteado pelo pai – um comerciante que viajava muito a negócio – com escritos de alguns filósofos socráticos, se interessou pela filosofia e partiu para Atenas a fim de buscar conhecimento entre os socráticos menores. Tempos depois, passou a dar aulas num Pórtico (Stoá) – por não ser ateniense, não podia alugar um prédio – pintado pelo célebre artista Polignoto. As muitas pessoas que começaram a ouvi-lo e a seguir seus ensinamentos foram chamadas de estoicos (“os da Stoá”). Ali Zenão desenvolveu sua filosofia pautada numa espécie de ascese moral rigorosa, totalmente materialista e individualista, na qual o logos divino era imanente e, mais do que isso, determinava nossas ações mediante um Destino; ou seja, para os estoicos, o ser humano não é livre, sua liberdade está intimamente ligada à noção de ataraxia, de imperturbabilidade, que estabelece a liberdade somente mediante à não resistência a esse destino. Diz-nos Reale: “A verdadeira liberdade do sábio consiste em conformar a própria vontade à do Destino, consiste em querer, com o Fado, aquilo que o Fado quer. Isso é ʻliberdadeʼ, enquanto aceitação racional do Fado, que é racionalidade. Com efeito, o Destino é o Logos; por isso, querer os quereres do Destino é querer os quereres do Logos. Liberdade, pois, é pôr a vida em total sintonia com o Logos”.

Para a situação em que vivemos, para um mundo saturado de individualismo, apelar ao estoicismo é como tentar curar a doença com veneno

Ou seja, a essa filosofia, que nos legou discípulos célebres como Sêneca, o imperador Marco Aurélio e o escravo Epíteto, e cujas lições para uma vida tranquila são um tesouro inestimável, falta aquilo que Viktor Frankl chamou de autotranscendência, que é a “a existência humana que ultrapassa a própria pessoa em relação a algo que não é ela mesma”, e que “mobiliza o ser humano a viver ʻpor algoʼ ou ʻpor alguémʼ”.

Por isso a filosofia estoica encontrou eco em tantas panaceias contemporâneas, desde as palestras de coaches motivacionais até o empreendedorismo hardcore do “primeiro milhão em seis meses”. Mas, para a situação em que vivemos, para um mundo saturado de individualismo, apelar ao estoicismo é como tentar curar a doença com veneno. Precisamos de mais Sócrates e menos Sêneca, mais solidariedade e menos imperturbabilidade.

Que sejamos, portanto, perturbados pelo desejo de unirmo-nos ao nosso próximo, de nos ajudarmos mutuamente e de buscarmos, juntos, um caminho verdadeiramente virtuoso para nossas mazelas.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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