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Paulo Cruz

Paulo Cruz

A liberdade é um direito radical. Coluna semanal

Educação superior

Jason Arday foi sacrificado no altar do identitarismo

Jason Arday, que lecionava em Cambridge, foi acusado de plágio e encontrado morto
Jason Arday, que lecionava em Cambridge, foi acusado de plágio e encontrado morto. (Foto: ConiferousForest19/Wikimedia Commons/Creative Commons CC0 1.0 Universal Public Domain Dedication)

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“A remoção do merecimento como um critério para alocação de assistência ajuda a privar a vida humana de qualquer sentido, e a promover o egoísmo mais desenfreado: afinal, se a recompensa não tem conexão com o mérito, as consequências não têm conteúdo moral, e podem-se buscar fins sem atentar para o interesse alheio”. (Theodore Dalrymple)

O assassinato de George Floyd, em 2020, abriu a Caixa de Pandora do movimento identitário. A ideia de atribuir papel central à identidade coletiva – raça, sexo, gênero, orientação sexual, nacionalidade, religião etc. – na interpretação da sociedade e na definição de reivindicações políticas, morais ou institucionais ganhou projeção com a ideia de que os problemas sociais não são apenas problemas culturais, de educação ou má administração, mas sistêmicos, perpetrados por instituições e estruturas sociais, políticas, jurídicas e econômicas cujo funcionamento independe das ações dos indivíduos.

Tal visão de mundo alterou a dinâmica social e institucional no Ocidente. Sob a mira da acusação de racismo, machismo, homofobia e outras mazelas sociais reais, mas potencializadas pelo identitarismo, empresas, universidades e outras instituições passaram a anunciar programas, compromissos, comitês, cargos e investimentos relacionados a programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) numa intensidade muito superior ao que vinha sendo praticado antes de 2020. O Magazine Luiza, por exemplo, anunciou um programa de trainee exclusivo para pessoas negras (iniciativa criticada por mim aqui); celebridades saíram pateticamente denunciando o próprio racismo; e as acusações de racismo e cancelamentos, nas redes sociais, por qualquer motivo, aumentaram sensivelmente.

Nada, efetivamente, mudou desde então. Mas houve quem se beneficiasse muito disso. Lembro-me, particularmente, de ver, a partir de 2020, muitos influenciadores negros aguardarem ansiosamente o Dia da Consciência Negra para encherem os bolsos de dinheiro dando palestras de conteúdo bastante duvidoso em grandes empresas que, pressionadas, correram para criar comitês de diversidade e fazem campanhas de conscientização nessa data. Eu, obviamente, fiquei de fora dessa sangria, pois era preciso rezar a cartilha do identitarismo para ser convidado. Tudo isso, nos últimos anos, arrefeceu, mas deixou seus rastros – e algumas tragédias. E o caso Jason Arday é um desses.

Arday é fruto da sanha identitária de uma elite progressista que deseja aplacar sua “culpa branca” com suposta consciência social/racial

Arday era, desde 2023, professor titular da Universidade de Cambridge, na cátedra de Sociologia da Educação. Celebrado como o mais jovem professor negro da história da instituição, foi encontrado morto no dia 14 de agosto, aos 41 anos. Ele havia renunciado ao cargo apenas nove dias antes, em meio a uma controvérsia que levantou graves questionamentos sobre sua trajetória acadêmica, sua tese de doutorado e até aspectos de sua biografia.

Filho de imigrantes ganeses e criado no sul de Londres, sua trajetória, segundo seus próprios relatos, era absolutamente surpreendente: afirmava ter sido diagnosticado com autismo aos 3 anos, ter ficado mudo até os 11 e ter permanecido analfabeto até os 18. Também dizia ser disléxico e ter sido curado de tumores cerebrais – um dos quais foi removido pouco antes da defesa de seu doutorado – e um tumor testicular. Também afirmava ter sofrido um derrame, sofrer de epilepsia devido a uma agressão de um colega na infância, e ter ficado em coma por meses após ser atropelado por um carro. Ou seja, um verdadeiro milagre ambulante chegara ao topo da carreira acadêmica.

Formado em Educação, mestre e doutor pela Liverpool John Moores University (com tese defendida em 2015), Arday passou por diferentes instituições britânicas até ser nomeado, em 2021, professor de Sociologia da Educação na Universidade de Glasgow e, dois anos depois, aos 37 anos, tornar-se professor da mesma área em Cambridge. Sua trajetória pessoal e sua identidade racial ocupavam lugar central na maneira como sua ascensão era apresentada ao público, tornando-o não apenas um acadêmico brilhante, mas também um poderoso símbolo da diversidade no ensino superior britânico.

No entanto, tudo começou a ruir quando, em 21 de julho de 2026, o filósofo Nathan Cofnas, que havia iniciado sua própria investigação em 13 de junho, após ser procurado por um membro do corpo docente de Cambridge, publicou no Substack o artigo “DEI Fraud and Cover-Up at Cambridge” (“Fraude e acobertamento de DEI em Cambridge”). Ele afirma explicitamente que submeteu a tese de Arday ao Copyleaks e encontrou numerosos trechos coincidentes com a tese de Paula Zwozdiak-Myers, de 2009, além de outras fontes.

Mas a controvérsia em torno de seu nome começou antes de sua chegada a Cambridge. Poucos meses depois de sua nomeação para Cambridge, em 2023, surgiram questionamentos sobre artigos publicados por ele. O professor emérito Dave Harris e o sociólogo Martyn Hammersley identificaram problemas de atribuição e trechos semelhantes a trabalhos anteriores, inclusive em um artigo de 2018 sobre saúde mental de estudantes negros e de minorias étnicas. Arday concordou em retirar temporariamente o artigo da plataforma da revista; posteriormente, a publicação emitiu uma correção, e outro artigo seu recebeu correções no ano seguinte.

Em 2025, o jornalista Jack Grove, do Times Higher Education importante publicação britânica especializada em notícias, análises e dados sobre o ensino superior no mundo – preparou uma reportagem sobre alegações de plágio na tese e em artigos de Arday, reunindo um dossiê de 63 páginas com comparações textuais; um dos especialistas que examinou o material, o bioquímico David Sanders, afirmou ter encontrado evidências extensas de plágio. Em setembro daquele ano, depois que Grove procurou Arday para obter sua resposta, o professor contratou o escritório Carter-Ruck, e assediou judicialmente o Times Higher Education com uma carta contestando as acusações e advertindo sobre danos à reputação de Arday. A reportagem acabou não sendo publicada.

O caso só veio a público em julho de 2026, quando Nathan Cofnas publicou sua análise. Segundo a Retraction Watch, Cofnas desconhecia inicialmente a investigação anterior do Times Higher Education e só tomou conhecimento dela depois de iniciar seu próprio trabalho. A publicação de Cofnas desencadeou uma nova onda de escrutínio sobre a carreira de Arday. Então, o caso deixou de ser apenas plágio e passou a envolver possíveis problemas metodológicos, inconsistências em dados, questões éticas em pesquisas com participantes humanos, alterações posteriores em artigos, possíveis problemas com citações e alegações sobre elementos do currículo e da biografia de Arday, pois nenhum dos elementos fantásticos de sua história de superação haviam sido devidamente comprovados.

A Universidade de Cambridge, inicialmente, defendeu Arday, afirmando que ele era vítima de uma campanha para destruir sua reputação e que acusações anteriores já haviam sido examinadas. A Liverpool John Moores University, responsável pelo doutorado, também havia anteriormente analisado alegações relacionadas à tese. Com a chegada de novas informações sobre sua produção acadêmica, qualificações e nomeações honorárias, entretanto, Cambridge anunciou, em 5 de agosto de 2026, uma investigação própria; no mesmo dia, Arday renunciou à cátedra. Em 14 de agosto foi encontrado morto, aos 41 anos, pouco mais de uma semana após sua renúncia.

“A única razão pela qual as pessoas acreditariam em toda essa maldita tolice [...] é que veem Arday como um ‘Negro Mágico’. Os benevolentes acadêmicos brancos antirracistas acham que suspender seu julgamento quando se trata de um homem negro faz deles pessoas melhores.”

John McWhorter, linguista norte-americano e professor da Universidade Columbia.

Diante dessa tragédia, uma questão se impõe: como nada disso foi detectado – ou, se detectado, não ter sido considerado suficientemente grave – antes de sua contratação para uma cátedra em Cambridge?

John McWhorter, linguista norte-americano e professor da Universidade Columbia – negro, é bom que se diga –, autor, dentre outras obras, de Racismo Woke, em 10 de agosto (antes do suicídio de Arday, portanto) escreveu um longo artigo sobre o caso no site The Free Press: “How Academia Created Jason Arday” (“Como a Academia criou Jason Arday”). Num determinado momento de sua análise minuciosa, ele afirma: “a melhor explicação que podemos dar à sua nomeação é que seus apoiadores viram os obstáculos que ele supostamente superou como justificativa para esperar menos dele”. E ele não tergiversa ao avaliar o trabalho de Arday:

“O tema central do trabalho de Arday é que o racismo é gravemente determinante na vida dos britânicos negros; sua tese de doutorado descreve o racismo com o qual os acadêmicos negros precisam lidar incessantemente. Em suas apresentações, sua maneira de se expressar, como de costume, sugere que nenhuma pessoa decente poderia discordar dessa visão e que, em um mundo justo, ele nem sequer deveria precisar explicitá-la. A ubiquidade e o poder do racismo seriam evidentes, e qualquer pessoa que questione isso teria algum motivo oculto (manter o poder, ser incapaz de reconhecer o Outro como plenamente humano etc.) […]. O problema é que aquilo que é óbvio provavelmente não é muito complicado – sem falar que o que Arday considera óbvio é um exagero descomunal e autocentrado. Dentro desse universo mental, o foco acadêmico de Arday não estava em aprender coisas novas e elaborar novas formas de compreender a existência, mas em criticar a moral dos outros. Isso não é atividade intelectual, mas militância, e, francamente, militar é muito mais fácil do que pensar.”

E complementa: “Nada em seu trabalho sugere um envolvimento intenso com um conjunto de dados (o próprio Arday afirmou que, devido à sua dislexia, consegue se dedicar a apenas uma página de prosa acadêmica por vez), nem com uma maneira desafiadora de analisar esses dados. Na academia, o que é interessante é o contraintuitivo, a descoberta. Arday simplesmente reforçou lugares-comuns simplistas e há muito estabelecidos”.

Arday, na verdade, é, como dito anteriormente, fruto dessa sanha identitária de uma elite progressista que deseja aplacar sua “culpa branca” com suposta consciência social/racial. Como diz McWhorter: “A única razão pela qual as pessoas acreditariam em toda essa maldita tolice [...] é que veem Arday como um ‘Negro Mágico’. Os benevolentes acadêmicos brancos antirracistas acham que suspender seu julgamento quando se trata de um homem negro faz deles pessoas melhores”.

Ou seja, a tragédia de Jason Arday não é culpa do racismo, mas do antirracismo. Seus algozes foram os mesmos que o alçaram a tal posto, sem condições de sustentá-lo lá – pois, obviamente, ele não tinha as credenciais acadêmicas necessárias –, e o abandonaram depois. Tudo indica que ele era um homem doente, um tanto mitômano e instável emocionalmente, e que usou da vitimização própria do identitarismo para alcançar notoriedade acadêmica e prestígio social.

A tragédia de Jason Arday não é culpa do racismo, mas do antirracismo. Seus algozes foram os mesmos que o alçaram a tal posto, sem condições de sustentá-lo lá, e o abandonaram depois

Em 2020, após o assassinato de George Floyd, 152 estudantes e ex-alunos da Faculdade de Educação de Cambridge assinaram uma carta pedindo a “descolonização” do departamento e mudanças nas práticas de contratação e diversidade. E reportagens recentes apontaram que o departamento de Sociologia da Educação consultou uma organização pró-BLM (Black Lives Matter) antes da contratação. Em artigo escrito à época dos violentos protestos desencadeados após o assassinato de Floyd, nesta Gazeta do Povo, fiz uma advertência, digamos, profética:

“Os ideólogos e aproveitadores, que usam o momento delicado para implementar suas pautas de engenharia social, devem ser reconhecidos e distinguidos, pois não estão preocupados com os verdadeiros objetivos da luta contra o racismo, mas somente com suas próprias causas, que, se analisadas a fundo, têm pouco ou nada a ver com os objetivos específicos dos que sofrem com o preconceito de cor e com a discriminação.”

O resultado está aí, mas, infelizmente, os verdadeiros responsáveis não serão punidos e mais um militante, alimentado pelas ideologias do ressentimento, foi imolado no altar do nocivo movimento identitário.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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