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Detalhe de Jó e seus Amigos, de Ilya Repin.
Detalhe de Jó e seus Amigos, de Ilya Repin.| Foto: Wikimedia Commons/Domínio público

Mas o homem que nos atos e palavras
se deixa dominar por vão orgulho
sem recear a obra da justiça
e não cultua propriamente os deuses
está fadado a doloroso fim,
vítima da arrogância criminosa
. (Sófocles, Édipo Rei)

O Livro de Jó é um dos cinco livros sapienciais ou poéticos da Bíblia – junto com Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares, entre os protestantes; já os católicos separam Salmos e Cantares, e incluem Sabedoria e Eclesiástico. No ketuvim (escritos) da Bíblia Hebraica, Jó figura entre Salmos e Provérbios. É, segundo o historiador e ensaísta Thomas Carlyle, “uma das maiores coisas já escritas com caneta [...]. É um livro nobre; o Livro de todos os homens! É a nossa primeira e mais antiga declaração do eterno problema – o destino do homem e os caminhos de Deus com ele aqui nesta terra”. É uma obra de profundidade ímpar no cânon bíblico, que mesmo traduzido tem uma riqueza poética indiscutível.

A história (ou lenda) de Jó é arquiconhecida: trata-se de um homem justo e próspero, que habita a terra de Us (ou Hus, ou Utz), e se vê, de repente, afligido pelo imponderável, por uma calamidade que assola não só os seus bens, mas mata seus filhos e lhe cobre de chagas. Uma desgraça sem precedentes que leva, de surpresa e de uma só vez, tudo aquilo há de mais valioso para um homem nesse mundo: seu patrimônio e sua família. Do ponto de vista humano, diríamos que se trata de uma fatalidade. Mas estamos falando de um livro bíblico, em que não há fatalidades, pois “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. Nesse sentido, o livro de Jó é, na verdade, um tratado de teodiceia – ramo da teologia que procura explicar o mal do mundo em relação a um Deus bondoso –, uma descida às profundezas do sofrimento “injustificado” ou das razões pelas quais, como diz o rabino Harold Kushner em seu livro homônimo, “coisas ruins acontecem às pessoas boas”.

O tema da providência divina é central no livro de Jó, pois mostra que, mesmo diante do infortúnio, aquele que “fechou com portas o mar” está no controle de tudo

É nisso que entra o seu prólogo intrigante (capítulos 1 e 2), no qual Jó é apresentado como “um homem íntegro e reto, que temia a Deus e se afastava do mal”, e que possuía “sete filhos e três filhas [...], sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas mulas e servos em grande número” – o que fazia dele “o mais rico de todos os homens do Oriente”. Do outro lado, no prólogo celeste, Deus, reunido com seus “filhos”, recebe uma provocação de “o Satã” (com artigo), que muitos teólogos célebres – como Luís Alonso Schökel, tradutor e comentarista da espetacular Bíblia do Peregrino – julgam não ser Satanás, o anjo caído, mas um adversário (do hebraico satan), que põe “em movimento a ação, criticando, incitando”; não como “afirmação teológica, mas um personagem funcional no relato”. É ele que, quando Deus diz “reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal”, faz o desafio: “É por nada que Jó teme a Deus? Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens? Abençoaste a obra das suas mãos e seus rebanhos cobrem toda a região. Mas estende tua mão e toca nos seus bens; eu te garanto que te lançará maldições em rosto”. Tal provocação, sucedida pela permissão de Deus para que tal adversário arruine a vida de Jó – “tudo o que ele possui está em teu poder, mas não estendas tua mão contra ele” – e, depois, ainda, lhe cubra de chagas (2,6), é que coloca o dilema de Jó – o justo que tem consciência de não ter feito nenhum mal, mas que é afligido por Deus – em contraposição à aparentemente unânime teologia da retribuição de sua época. Diz Harold Kushner:

Que espécie de Deus era este em que a história nos queria fazer acreditar, o qual matava crianças inocentes e infligia a angústia mais insuportável a seu mais devotado servo, só para provar que está certo; só para, quase que o sentimos, vencer uma aposta com Satanás? Que espécie de religião a história quer nos impingir, a qual se deleita com a obediência cega e acha pecaminoso o protesto contra a injustiça? O autor ficou tão transtornado por essa piedosa fábula antiga que a retomou, a revirou de dentro para fora e a refundiu em um poema filosófico em que as posições dos personagens são invertidas. No poema, Jó lamenta-se contra Deus e são os amigos que sustentam a teologia convencional, a ideia de que “as doenças não pegarão o bom”.

Entre os capítulos 3 e 37, Jó discute com seus amigos, que, na intenção de o consolarem, passam por sustentar a teologia da retribuição e acusá-lo de ter feito algo para que o mal caísse sobre ele. Os argumentos de Elifaz, Bildade, Zofar e Eliú, bem como a defesa contundente que Jó faz de si mesmo, são um primor de profundidade teológica e poética. A intrepidez do moribundo lhe coloca não no lugar do paciente, tampouco daquele que sofre calado; Jó é ousado. Ao mesmo tempo em que diz: “Eu sei que meu Defensor está vivo e que no fim se levantará sobre o pó” (19,25), dispara uma acusação seríssima, que põe em xeque a tão célebre virtude da justiça (dar a cada um o que é devido), dizendo que Deus lhe “nega a justiça” (27,2). No entanto, como já nos adianta o prólogo: “Jó não cometeu pecado nem protestou contra Deus” (1,22; 2,10) – ainda que sua mulher tenha lhe dito para amaldiçoar a Deus e morrer (2,9); ao que ouviu, em resposta: “Se aceitamos de Deus os bens, não vamos aceitar os males?”

Abundam as interpretações teológicas sobre o livro, que, como diz o próprio Kushner, “da mesma forma que todo ator anseia por desempenhar o papel de Hamlet, todo estudioso da Bíblia anseia por escrever um comentário ao Livro de Jó”. No entanto, minha pretensão não é de me aprofundar no ofício dos teólogos, mas tentar extrair uma lição prática para nossos tempos pandêmicos, tempos de insegurança financeira, polarização política e temor pela indesejada das gentes, a morte, que a tantos faz sofrer atualmente por conta de um mal invisível. E aqui, caríssimo leitor, já deve ter ficado claro que, caso não tenhas como referência a tradição judaico-cristã, o que disse e direi pode não fazer sentido para ti. Entretanto, convido-te a uma suspensão do juízo em favor de acompanhares uma visão distinta da tua.

São Tomás de Aquino, em sua interpretação de Jó, diz que, “assim como as coisas que são geradas naturalmente alcançam a perfeição a partir da imperfeição em pequenos graus, o mesmo ocorre com os homens em seu conhecimento da verdade. Pois no começo eles alcançaram uma compreensão muito limitada da verdade, mas mais tarde eles, gradualmente, vieram a conhecer a verdade em medida mais completa. Por causa disso muitos erraram, no início, sobre a verdade de um conhecimento imperfeito. Entre estes, houve alguns que excluíram a providência divina e atribuíram tudo à fortuna e ao acaso. Na verdade, a opinião desses primeiros homens não era correta, porque consideravam que o mundo foi feito por acaso”. Ou seja, o tema da providência divina é central no livro de Jó, pois mostra que, mesmo diante do infortúnio, aquele que “fechou com portas o mar” está no controle de tudo. É óbvio que, da perspectiva humana, essas afirmações são somente metáforas que tentam aplacar o desespero dos mais suscetíveis; mas, para aqueles que creem em Deus, tais palavras são “luz para o caminho”.

Tenho visto um número não desprezível de cristãos afirmando, diante do cenário econômico que se desenha por conta da pandemia, que as medidas de distanciamento social e restrição de funcionamento do comércio estão sendo deveras prejudiciais aos diretamente afetados; o que é verdade. Por isso, argumentam que os governadores deveriam, como vem insistindo desde março de 2020 o presidente da República (para quem não passaríamos de 800 mortos, embora atualmente sejam cerca de 270 mil), manter a normalidade, ainda que diante de uma circunstância absolutamente anormal; ou seja, prevaleceria a preocupação com a economia, que tem sido o mote de Jair Bolsonaro desde o início da pandemia – numa jogada que lhe daria vantagem retórica caso morressem 800 ou 8 milhões de pessoas, ao dizer que ocorreriam mais mortes de CNPJs do que CPFs. Esse falso dilema – sim, pois as duas coisas são importantíssimas – mais uma vez dividiu a sociedade e a empurrou para a polarização política, só que agora diante de uma crise sanitária, financeira e de saúde de proporções inéditas. E, vendo muitos cristãos que apoiam o presidente, em oposição aos governadores comprarem o falso dilema “economia vs. vidas”, lembrei-me de Jó, que, diante de sua total falência financeira e de saúde, ousou confiar em Deus, e disse:

Se pus no ouro minha confiança e disse ao ouro mais puro: “És minha segurança”; se me comprazi com minhas grandes riquezas, com a fortuna amontoada por minhas mãos; se olhei para o sol resplandecente ou para a lua que caminha com esplendor, e meu coração se deixou seduzir secretamente, e minha mão lhes enviou um beijo; também isto seria um crime digno de castigo, pois teria renegado ao Deus do alto. (31,24-28).

E, após Deus aparecer a ele “no seio de uma tempestade” e colocá-lo em seu lugar de criatura, afirma, arrependido: “Reconheço que tudo podes e que nenhum dos teus desígnios fica frustrado. Sou aquele que denegriu teus desígnios com palavras sem sentido. Falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam […]. Conhecia-te só de ouvido, mas agora viram-te meus olhos: por isso, retrato-me e faço penitência no pó e na cinza”. (42,2-6). Jó não deu ouvidos a seus amigos que o queriam fazer pecar, antes manteve sua confiança em Deus e teve restituídas suas economias e sua saúde.

Num artigo recente, aqui nesta Gazeta do Povo, eu disse que o momento em que vivemos nos oferecia uma oportunidade de “(re)orientarmos os nossos corações à virtude, ao amor, para que não caiamos, como muitos brasileiros – infelizmente, tomados pelo desespero impetrado por aqueles que deveriam promover a paz e a ordem social –, num comportamento temerário e insensível à dor do próximo”. Nada mais cristão, não? Em outro artigo, em que uso como exemplo o grande Viktor Frankl, alertei que “muitos, que infelizmente depositaram todo o sentido de suas vidas em suas realizações materiais, podem sofrer deveras por verem, por exemplo, uma crise financeira os levarem à repentina falência; não por incompetência, mas por circunstâncias absolutamente alheias à sua vontade e – pior! – de caráter, de certo modo, discutível (tal como a celeuma em torno dos reais benefícios do isolamento social e dos chamados lockdowns)”. Mas que “toda essa situação pode nos ter aberto uma oportunidade ímpar: não só a de buscarmos uma saída do isolamento existencial em que muitos já viviam, mas de uma renovação de nosso senso de comunidade e verdadeira solidariedade”. Que “muitos precisarão de ajuda – financeira, emocional e espiritual –, mesmo aqueles cujo individualismo os fez pensar serem absolutamente autossuficientes. Muita gente se verá diante de um abismo de perspectivas e de sentido para suas vidas. [No entanto] A frustração, a incapacidade de reparar um dano, o desespero, pode ser aplacado pelo redirecionamento de nossos esforços para o outro, para aqueles que, como nós, sofrerão os efeitos possivelmente devastadores da pandemia”.

Como cristão, conclamo meus irmãos de fé a (re)lerem o livro de Jó sob essa perspectiva, que encontra no servo sofredor de Utz um exemplo de virtude e de fé, capaz não de nos colocar em contraposição aos nossos irmãos por conta das imposturas políticas de nossos governantes, mas, por sabermos que nosso redentor vive, nos fazer “bons dispenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pedro 4,10).

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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