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O próximo cancelado: você
| Foto: Wikimedia Commons

“De todas as ameaças que pesam sobre nós, a mais temível, como sabemos, a única real, somos nós mesmos.” (René Girard)

O advento das redes sociais exacerbou algo que, antigamente, só percebíamos de vez em quando e muito isoladamente. Aquilo que antes ocorria com mais frequência nos grupos organizados e distintos – escolas, empresas, agremiações etc. – ou nos círculos íntimos, ou em grupos de amigos ou, ainda, com menos frequência e de forma menos aglutinada, nos eventos de maior proporção, agora ocorre aos montes, quase semanalmente e de maneira absolutamente descontrolada: a execração pública de pessoas e instituições. E o pior, a falsa sensação de volume – pois, é fato, as redes sociais são um recorte muito diminuto da sociedade – fomenta ainda mais o mimetismo do qual esses eventos se alimentam. Como dito em artigo recente, no qual já esbarro nesse problema, “a internet, que representa o ápice dessa total esquizofrenia relacional, tem aprisionado as pessoas numa sensação de unidade artificial, cuja volume engana e assusta. Como diz Rue Bennett, protagonista da aterradora série Euphoria: ʻIsso é o estranho da internet: são dez pessoas e parece que é todo mundoʼ.” E os últimos acontecimentos têm nos dado sinais evidentes de que a tal cultura do cancelamento não é somente absurda, mas perigosa.

Os recentes e sucessivos casos de Arthur do Val – que resultará na sua cassação –, Danilo Gentili, Adrilles Jorge, Kim Kataguiri e Monark (e, por associação, os Estúdios Flow, que seguem desmonetizados no YouTube há quase dois meses, o que suscitou a campanha #MonetizaFlow nas redes sociais, com amplo apoio de famosos que produzem conteúdo na plataforma) nos mostram que há, talvez por causa das eleições que se aproximam, uma escalada desse comportamento nas redes, provocado, muitas vezes, por grupos organizados como o Sleeping Giants – que, inclusive, tentou prejudicar esta Gazeta do Povo – e grupos políticos em busca de poder (e votos).

O problema de tal procedimento é que aqueles que a ele aderem não o fazem por uma análise acurada dos fatos – diante do prejuízo que podem causar, isso deveria ser o mínimo –, mas exatamente em sentido oposto, como eu também já disse, por um cruel e imperceptível ódio aos fatos. O anônimo que abraça uma campanha de linchamento virtual o faz não porque, zeloso pela ordem social e pela defesa dos ofendidos, conscientemente se manifesta mediante um julgamento racional da realidade. Ele o faz por dois motivos principais: mimetismo e sentimentalismo tóxico. Sobre o sentimentalismo já escrevi diversas vezes nesta coluna, inclusive recentemente, remetendo-me ao divino Platão e sua defesa incondicional da racionalidade em detrimento da sensação. Sobre o mimetismo, ninguém foi tão original quanto o antropólogo, filósofo e sociólogo René Girard e sua teoria mimética.

Os últimos acontecimentos têm nos dado sinais evidentes de que a tal cultura do cancelamento não é somente absurda, mas perigosa

Girard, que morreu recentemente, em 2015, foi um pensador genial e único. Sua obra, vastíssima, aborda muitos temas que gravitam em torno de sua tese fundamental, o mecanismo do bode expiatório, que ocorre, segundo Girard, em quatro estágios: o desejo mimético, a rivalidade mimética, a crise mimética e, por fim, a solução do bode expiatório. De acordo com sua teoria, todos, sem exceção, em nossa vida social, desejamos as mesmas coisas; mas esse desejo não é autônomo, fruto de minha própria deliberação. Ele ocorre justamente porque o outro também deseja, porque o outro se torna o meu modelo. O literato João Cezar de Castro Rocha resume bem o mecanismo na introdução do primeiro livro de Girard, Mentira romântica, verdade romanesca, publicado em 1961, em que analisa a onipresença do desejo mimético na literatura:

“Ao imitar o meu modelo, terminarei por desejar o objeto que ele possui e farei o possível para deles me assenhorear. Imaginemos, agora, o alcance desse tipo de rivalidade em grupos sociais: o desejo mimético é contagioso e pode agravar-se na exata proporção em que um número maior de agentes encontrar-se envolvido no curto-circuito da rivalidade mimética. Se nenhuma forma de controle da dimensão apropriativa da mimesis for desenvolvida, a própria formação social pode vir a desintegrar-se em meio a um conflito generalizado. Nesse instante, o mecanismo do bode expiatório, tal como descrito por René Girard, oferece uma alternativa ímpar. No auge da violência endógena, um fenômeno ocorre e, devido ao êxito com que permite controlar os efeitos disruptivos da mimesis, tende a repetir-se: a violência indiscriminada, de todos contra todos, torna-se dirigida contra um único membro do grupo. Todos voltam-se contra esse membro, canalizando a violência que, de geral e inespecífica, portanto anárquica e desagregadora, se converte em violência dirigida e, por isso mesmo, ordenadora do próprio grupo. O bode expiatório e sacrificado e a ordem retorna.”

A mim parece que o fenômeno do cancelamento ocorre da mesma maneira, pelas mesmas motivações – quer ambiente mais suscetível ao desejo mimético que as redes sociais? –, só que acrescido de uma recorrência, talvez, não prevista por Girard, que não conheceu a proliferação desse comportamento nas redes sociais, posto recentíssimo; do contrário, certamente teria refletido a respeito. A novidade é essa recorrência absurda. Mal a paz tem oportunidade de se fazer presente mediante o sacrifício do bode expiatório da ocasião, e lá estamos nós envolvidos em mais um processo de rivalidade mimética que, mais cedo do que se imagina, será violentamente direcionada para um indivíduo ou organização. E é exatamente por causa dessa recorrência que a probabilidade de sermos nós os próximos cancelados aumenta consideravelmente, pois – e isso deveria ser óbvio para todos – a exposição das redes sociais torna todos muito vulneráveis. E mais: em não havendo quem não cometa deslizes, mais hora menos hora, dada a superexposição das redes, o erro pode ser nosso.

Em outra obra fundamental, Aquele por quem o escândalo vem, de 2001, Girard, em ensaios primorosos, revisita sua teoria e analisa aspectos contemporâneos da violência, como o terrorismo e o chamado etnocentrismo. Do ensaio Violência e reciprocidade, podemos tirar lições valiosas a respeito do tema aqui brevemente exposto.

Girard, na frase que está em epígrafe, nos coloca diante de um problema fundamental: somos os nossos algozes. Diante da escalada da violência, a máxima hobbesiana – o homem é o lobo do homem – parece fazer cada vez mais sentido. Girard diz que “a violência parece estar presa num processo de escalada que lembra a propagação do fogo ou de uma epidemia”. De fato, temos visto, com o advento da globalização – ainda mais essa, virtual, que a internet nos proporciona –, um processo de recrudescimento e generalização dos conflitos que botam em xeque nossa esperança de paz diplomática. Diz Girard: “Quando a globalização se fazia esperar, todo mundo a invocava em seus votos. A unidade do planeta era um grande tema do modernismo triunfante. Multiplicavam-se as ʻexposições internacionaisʼ em sua honra. Agora que já está presente, ela suscita mais angústia que orgulho. A eliminação das diferenças talvez não seja a reconciliação universal que todos tinham como certa”.

Tal efeito também se vê nas redes sociais, que surgiram como um dos grandes acontecimentos do presente, a possibilidade de conectar pessoas do mundo todo com um clique. Entretanto, temos experimentado efeitos desagradáveis e não previstos, como a cultura do cancelamento. Girard afirma: “Os homens estão expostos a um contágio violento que desemboca, frequentemente, em ciclos de vingança, em violências em cadeia evidentemente semelhantes porque todas se imitam. É por isso que digo: o verdadeiro segredo do conflito e da violência é a imitação desejante, o desejo mimético e as rivalidades ferozes que ele engendra”. Entre no Twitter e tenha a prova virtual e cabal disso. E o mais curioso é que, nesse processo sucessivo e perpétuo, o violento sempre é o outro, uma vez que aderimos a ele de maneira absolutamente irrefletida e, pensamos, em reação a uma violência muito maior que justifica nossa ação. Diz Girard: “Por pequenos toque sucessivos, portanto, nossas relações podem degradar-se sem que ninguém nunca se sinta responsável por sua degradação. A violência dos não-violentos, que todos cremos ser, nunca é obra de indivíduos particularmente ʻagressivosʼ, de que medidas profiláticas apropriadas poderiam livrar-nos (expulsão, ritual etc.); tampouco é fruto de um instinto de agressão, um traço indelével de nossa natureza humana a que seria preciso acomodar-se; é resultado de uma colaboração negativa que nossa cegueira narcisista sempre consegue deixar de perceber”.

Temos visto, com o advento da globalização – ainda mais essa, virtual, que a internet nos proporciona –, um processo de recrudescimento e generalização dos conflitos que botam em xeque nossa esperança de paz diplomática

O fato primordial desse comportamento e a única maneira de compreendermos e tentarmos controlar o contágio da violência mimética é retomarmos a consciência, hoje amplamente rejeitada pelo secularismo, de que somos intrinsecamente falhos – conclusão herdada da doutrina bíblica do pecado original – e só essa constatação e consciência é capaz de nos fazer refrear nosso desejo de sermos os juízes do mundo. Já tratei disso num artigo escrito em 2019, em que digo: “Não precisamos concordar com o conceito para percebermos que, do ponto de vista prático, há alguma verdade nele. Somos, mesmo, mais atrapalhados do que gostaríamos; mais erramos do que acertamos, mais magoamos do que alegramos, mais produzimos e sofremos o mal do que o bem”. Dessa condição vem o pior de nós, mas, por outro lado, por vir o melhor, afinal de contas, de posse dessa verdade, seremos muito mais compreensivos e cautelosos do que hoje somos. Girard vai no mesmo sentido quando afirma:

“Não é razoável lamentar sempre nossa propensão à violência sem ver a contrapartida positiva de nossa condição. A fragilidade e a mobilidade de nossas relações são o fundamento indispensável não somente do pior em nossa humanidade, mas do melhor. Se nossas relações não pudessem transtornar-se, tampouco poderiam reacomodarem-se. Para que o amor verdadeiro seja possível, é preciso que o ódio também o seja.”

E converge também quando afirma que “os únicos textos que dão conta do mimetismo de nossas relações são os Evangelhos, cujas recomendações essenciais estão reunidas no famoso ʻSermão da Montanhaʼ. Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra [Mateus 5:38-40]. A maioria dos modernos vê nessas recomendações uma ʻutopia pacifistaʼ manifestamente ingênua e até condenável, porque inutilmente servil e ʻprovavelmente masoquistaʼ. Essa interpretação carrega a marca das ideologias que veem programas políticos por toda parte e atribuem ʻa irracionalidadeʼ de nossas relações unicamente à ʻsuperstiçãoʼ”. No entanto, completa Girard: “É sempre preciso desobedecer aos violentos, não somente porque nos arrastam para o mal, mas porque nossa desobediência pode cortar pela raiz essa empresa coletiva que é sempre a pior violência, a que se expande contagiosamente. Só a conduta recomendada por Jesus pode sufocar ab ovo a escalada. Um instante a mais e será demasiado tarde”.

Ou tomamos isso como um verdadeiro dogma de nossa existência virtual, ou, num próximo desencadeamento de crise mimética, o cancelado pode ser um de nós.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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