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“Aqueles que são mais afetados por uma visão em particular podem ser os que têm menos consciência de seus pressupostos fundamentais – ou os menos interessados em parar para examinar essas questões teóricas quando há questões urgentes de ordem ʻpráticaʼ a serem confrontadas, cruzadas a serem empreendidas, ou valores a serem defendidos a qualquer preço.” (Thomas Sowell)
Confesso que às vezes fico cansado. Parte considerável de meu trabalho, há mais de 20 anos, é plantar o dissenso, fazer um contraponto a teses estabelecidas sobretudo em grupos ideológicos, que fazem leituras da realidade a partir não dela própria, mas de abstrações acadêmicas, criadas nos departamentos de Ciências Humanas universitários. E isso cansa, pois aqueles que amparam sua visão de mundo em grupos sentem que estão do lado certo, e os argumentos, a razão, são o que menos importa.
Lembro-me sempre de Chesterton, que afirmou ser o senso comum – ou o bom senso, como dizemos aqui, após o termo original ter se tornado sinônimo de opinião sem critério – sua primeira e última filosofia. Na tradição britânica, o senso comum está ligado àquelas verdades autoevidentes (a existência do mundo externo, das relações de causa e efeito, do bem e do mal etc.), que não dependem de uma filosofia muito sofisticada para serem percebidas. Os americanos herdaram essa tradição, sobretudo de Thomas Paine, político britânico e um dos Pais Fundadores dos EUA, que, em defesa da independência da colônia, em seu panfleto Senso Comum, disse coisas como: “existe algo de muito absurdo em supor que um continente deva ser perpetuamente governado por uma ilha”.
Voltando a Chesterton, este disse que a “terra ensolarada do senso comum” é o país das fadas, pois, se lermos os contos de fadas, “observar-se-á que uma ideia os atravessa de ponta a ponta – a ideia de que a paz e a felicidade só podem existir dadas determinadas condições. Essa ideia, que é o âmago da ética, é o âmago dos contos infantis. Toda a felicidade da terra encantada pende de um fio, de um único fio”. Ou seja, o senso comum é a capacidade de perceber, por exemplo, que as ideias tem consequências; que as boas intenções não são suficientes. Mas falo como um conservador.
Aqueles que amparam sua visão de mundo em grupos sentem que estão do lado certo, e os argumentos, a razão, são o que menos importa
Um dos maiores argumentos do progressismo, pelo qual angaria a simpatia de muitos, é sustentado por suas (supostas) intenções. Todo progressista parte do princípio de que há algo errado no mundo, e que esse algo é provocado por alguns, que têm poder e subjugam os demais. Esses alguns criam estruturas que sustentam o seu poder e fazem manutenção delas por estratagemas altamente maquiavélicos de exploração e opressão. Tais estruturas, que precisam ser derrubadas, vencidas, são responsáveis por todos os males da humanidade. Dentre eles, o principal é a desigualdade, pois dela derivam o racismo, a xenofobia, o patriarcado. Lutar contra tais estruturas se torna, então, não só uma urgência, mas uma obrigação de todo aquele que as reconhece. E quem não as reconhece está cego, está errado, está do lado errado.
Um dos maiores erros do progressismo, que quase nenhum progressista admite, é que essa visão de mundo é essencialmente materialista e ignora todas as complexidades envolvidas na mente e nas relações humanas. É evidente que estabelecer a desigualdade como um problema a ser vencido nos coloca numa posição bastante delicada, uma vez que a desigualdade material tem, sim, causas materiais, mas não só. É evidente que pessoas são diferentes, desiguais; e só isso complica demais as coisas. É evidente que evocar algo abstrato como “estruturas”, no sentido sociológico (algo que critiquei recentemente, aqui), a fim de explicar e tentar solucionar problemas humanos nos leva a um oceano interpretativo de difícil navegação.
Mas isso pouco importa para um progressista, pois ele está “do lado certo”. Ele olha para a realidade social, vê a persistência dos problemas, mas não se convence de que o ser humano, por seu ânimo, como diz Pico della Mirandola, pode “degenerar até aos seres que são as bestas”, ou “regenerar-te até às realidades superiores que são divinas”. Ele olha para si e até vê as contradições todas, mas não consegue transportá-las para o outro, pois, apesar de suas próprias contradições, ele julga estar desperto (woke), consciente da desigualdade e suas causas. Todo progressista se vê fora da engrenagem que tritura seus semelhantes simplesmente porque admitiu (ou se convenceu de) que ela existe.
Novamente peço licença ao generoso leitor para evocar um exemplo pessoal. Dia desses me peguei numa discussão com um amigo, provocada por ele, que me enviou um vídeo de uma jovem influenciadora digital negra americana, muito inteligente, que também acompanho no Instagram, que fala muito sobre questões relacionadas a raça (tomo aqui o termo sociologicamente, como se faz na atualidade). No vídeo em questão, curiosamente, ela fala sobre o Brasil, sobre a suposta contradição de nosso país ter uma das legislações antirracistas mais duras no mundo, mas, ainda assim, carregar os mais altos índices de violência contra negros do mundo. Ela, então, passa a explicar as causas dessa contradição através de todo o receituário progressista sobre racismo estrutural e o mito da democracia racial (em 2018 eu já criticava as duas tolices aqui).
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Minha resposta inicial, ao perceber a absurda simplificação que a moça fez de um problema ultracomplexo de mais de 500 anos, foi: “um monte de correlações tratadas como causalidades. Na verdade, o problema da sociologia brasileira da segunda metade do século 20 é basicamente esse: essa malandragem interpretativa que serve a um propósito político específico”. Foi o suficiente para meu amigo pegar em armas – ainda que com certa classe, pois trata-se de um homem de cultura. Ele começou sua réplica, dizendo:
“Paulo, os fatos e dados reforçam esse conceito. Hoje na aula do [XXXX] mais uma vez fomos alertados que nossa presença em Conselhos de Administração é mínima, e que seguirá sempre muito difícil conseguirmos um lugar. Por quê? Não entender que existe um ʻsistemaʼ, um viés, construído ao longo de mais de 350 anos de escravidão, e que não foi tratado pelas instituições republicanas até aqui, não me parece malandragem interpretativa (apesar de haver muita malandragem). Chame do que quiser, mas negar o fato sistêmico, que normaliza a empregada doméstica negra, ou o sambista, mas cria dificuldades para o médico ou o engenheiro, me parece uma briga mais semântica do que com a realidade que vivemos.”
Não vou expor o leitor a toda a discussão, que foi longa. Mas basta ver que meu querido amigo abandona, vê como desnecessário – já no início e assim segue até o final – qualquer rigor conceitual numa discussão em que conceitos são absolutamente fundamentais. A frase que inicia com “não entender que existe um ʻsistemaʼ, um viés...” já é escandalosa o suficiente, pois “sistema” e “viés” são coisas diametralmente opostas, uma vez que um sistema é uma engrenagem, e um viés é uma tendência. Se é uma coisa, não pode ser outra. E o fato de ele não ver problema nisso mostra que, para ele, isso pouco importa, pois está do lado certo.
Iniciei minha resposta, após mostrar minha admoestação a respeito dessa evidente contradição em seu argumento inicial, e disse que ele só estava “convencido por conta de uma recorrência. Só isso. Mas essa recorrência não pode ser explicada por um único fator”. E, aqui, um ponto importantíssimo: a multifatorialidade dos fenômenos sociais é completamente ignorada pelos progressistas, pois tornaria impossível reduzir tudo a “estruturas”.
Todo progressista se vê fora da engrenagem que tritura seus semelhantes simplesmente porque admitiu (ou se convenceu de) que ela existe
Mas, lá pelas tantas, meu amigo evocou os clássicos argumentos de quem pensa estar do lado certo. Primeiro, ele insistiu que eu somente tinha uma “crença” diferente sobre o mesmo problema. Depois disse que minha questão era com a “forma”, que eu estava me apegando à semântica ao dizer que discordava de uma teoria – racismo estrutural, no caso. Ou seja, não bastou eu dizer que o conceito de “estrutura social” é extremamente controverso e abstrato, de difícil definição, e que a facilidade de reduzir tudo a isso é um atalho que, como um intelectual, eu não poderia aceitar. Ele, obviamente, ignorou, pois está do lado certo.
E reforçou isso me indicando livros que sustentam sua tese – o bom e velho argumento de autoridade. Disse: “leia o Pacto da Branquitude, da dra. Cida Bento. Se é que já não leu. Talvez ela, por ter maior erudição, apresente melhores argumentos que reforçam o racismo estrutural”. E quando eu disse que estou há pelo menos sete anos debruçado sobre esse assunto, e que nem por isso evoquei quaisquer autores, ele disse: “é que o fato de você ter debruçado sobre o tema não lhe confere diretamente a propriedade da verdade absoluta”. Quem precisa se debruçar sobre um assunto quando está do lado certo, não é mesmo?
Mas, em seguida, ele apelou ainda mais, dizendo: “Se o que você pensa, ao final, estiver direcionado para acabar com as injustiças cotidianas para com os ʻminorizadosʼ, está valendo. Chame do que quiser. Só não vale jogar o jogo do dominador”. E aqui, caro leitor, tive de repreendê-lo severamente. Ou seja, ficou mais do que evidente que ele pensa estar do lado certo, pois aventou a possibilidade de eu, seu amigo, estar jogando “o jogo do dominador”. Aqui é a hora em que uma amizade se rompe. Mas fui paciente, e disse: “um amigo de mais de 30 anos, que conhece toda a minha família, me disse isso esses dias: que eu não poderia esquecer as minhas raízes. Me senti profundamente ofendido. Mas vou relevar sua admoestação”. E completei:
“Eu DISCORDO do conceito de estrutura social de Anthony Giddens sobre o qual Almeida se apoia. E faço isso com base, por exemplo, em Margaret Archer. Mas veja, não usei isso contra você, um argumento de autoridade. Mas não é semântica. É uma questão conceitual, filosófica na verdade. Que importa. Não é perfumaria. Não é birra minha com a esquerda, como você também quis dizer que era.”
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Após não se desculpar, insistiu que os conceitos pouco importam, pois está do lado certo: “No meu meio, há uma visão (não filosófica, mas prática), de que sub-representação negra é fruto de algo que foi definido e aceito como Racismo Estrutural. Movimentos negros, aliados brancos, empresas inclusivas, utilizam o mesmo conceito. Eu estou ao lado deste movimento”.
Eu, já, como se diz, jogando a tolha, disse: “essa é uma opção que você fez. Mas a quantidade numérica de pessoas que aderem a uma ideia não confere a essa ideia uma legitimidade. E nem preciso pegar exemplos para provar isso”. Algo, de novo, evidente. E finalizei:
“Só quero deixar clara uma coisa aqui: estou totalmente disposto a testar minhas convicções, pois posso estar cometendo um mal sem saber. O mundo está cheio de exemplos de boas intenções que terminaram em tragédias. Sou prudente nesse sentido e incapaz de abraçar uma ideia por sua popularidade ou por estar ancorada em ʻautoridadesʼ. Para mim, os conceitos têm fundamental importância e não podem ser escanteados por conveniência ou por sentimentos. Nossa experiência pode nos enganar. Para mim, se duas ou três pessoas de alguma reputação levantam objeções a determinada ideia, prefiro ouvi-las a dizer que estão loucas ou querem ʻatrasar a lutaʼ. Mas, para testar minhas convicções, é necessário mostrar que meus argumentos têm problema, não tentar menosprezar a minha capacidade de desenvolvê-los.”
Diante disso, respondo à pergunta do título: prefiro estar certo a estar “do lado certo”. E você?
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos




