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Apoiadores do presidente americano Donald Trump protestam em frente ao Capitólio, Washington DC., em 6 de janeiro
Apoiadores do presidente americano Donald Trump protestam em frente ao Capitólio, Washington DC., em 6 de janeiro| Foto: Alex Edelman/AFP

Fazendo tabula rasa de meu passado, que é simples, de todas as recordações de outros tempos, claras ou sombrias, tristes ou lisonjeiras, firmei-me no propósito de estudar os homens e as coisas, e só marchar à discrição de minhas próprias convicções. (Tobias Barreto)

Muitas pessoas têm me perguntado o que penso a respeito da situação dos Estados Unidos, com o final, no mínimo, barulhento do governo Trump; da ascensão de grupos supremacistas que parecem ter perdido completamente a vergonha de manifestar seu apoio a um presidente que, se não os endossa, também parece não os condenar com a veemência necessária; da insistente acusação de fraude nas eleições sem apresentar provas cabais para que as devidas providências legais sejam tomadas, incitando sua militância – que se mostrou surpreendentemente aguerrida durante sua administração –, aumentando o ruído da oposição e a iminência de um pedido de impeachment nos últimos dias de mandato.

O problema é que acompanho muito de longe a política americana e não domino nem superficialmente o assunto. Tenho muitos amigos que acompanham e entendem; então, quando tenho alguma dúvida, é a eles que recorro. Por isso, o que escreverei abaixo não é uma crítica qualificada, mas a minha opinião, o modo como vejo a situação.

A tensão racial recente nos EUA não começou no governo Trump

Recentemente escrevi um artigo tentando dar uma resposta às acusações de que Donald Trump é racista. Óbvio que, diante da ausência de atos inequivocamente racistas e da aproximação que sempre teve com lideranças negras, fica difícil sustentar tais acusações; por isso inicio dizendo simplesmente que “não sei”, e apresentando informações para que o próprio leitor tire suas conclusões. O mesmo fiz, no mesmo artigo, em relação ao famigerado grupo Proud Boys, acusado de ser formado por supremacistas brancos, dizendo, com todas as letras: “Podemos dizer, com certeza, que não há supremacistas envolvidos no Proud Boys atualmente? Óbvio que não. Mas estou somente querendo dizer que 1. o grupo não nasceu com ideais supremacistas; 2. um de seus principais líderes é negro; e 3. os rótulos que recebem da mídia são extremamente difamatórios e não correspondem à realidade”. Associações fotográficas e afirmações isoladas não dão conta de provar que se trata de um grupo supremacista; porém, como digo, não só a intenção original do grupo foi mudando, como, com o crescimento, saiu do controle de seus criadores, que já condenaram publicamente os supremacistas – inclusive Enrique Tarrio, que é negro. Isso não prova muita coisa, mas mostra que a situação é mais complexa do que querem admitir os críticos de Trump.

Agora, é forçoso admitir que, primeiro, a tensão racial recente nos EUA não começou no governo Trump. Na era Obama, por exemplo, o posicionamento público do presidente, dizendo que Michael Brown havia sido morto simplesmente por “andar como negro” –  o que se provou absolutamente falso com as investigações e como nos mostra Shelby Steele em seu excelente documentário What Killed Michael Brown? –, certamente foi um catalisador da violência que explodiu em Ferguson e vem se intensificando ao longo dos últimos anos nos movimentos contra o racismo. Tudo isso, somado a uma narrativa muito questionável de violência policial sistêmica e ao oportunismo dos violentíssimos jovens brancos dos grupos Antifas, embriagados de marxismo ralé, transformaram os EUA nessa nação que parece prestes a se desintegrar – pelo menos é o que diz a mídia.

Segundo, a oposição patética ao governo Trump se iniciou mesmo antes de sua nomeação; e, ao ser eleito, imediatamente o Partido Democrata construiu uma narrativa torpe de influência russa nas eleições, com anuência de absolutamente toda a mídia, arrastada por dois anos e que resultou em absolutamente nada – assunto requentado, na maior cara de pau, nas últimas eleições. Também tentaram impedir sua posse, sem sucesso. Os pedidos de impeachment também começaram no início de seu mandato, em 2017, e o assunto se arrastou até 2019. Agora estão tentando de novo, no apagar das luzes de sua administração, obviamente para impedir que ele se candidate novamente. A imprensa, que o ridicularizou até não poder mais durante a campanha, se fez de vítima quando ele foi eleito e, durante os quatro anos, foi sua maior opositora. Ou seja, um governo conturbado, que não teve um minuto sequer de paz – mas que, ainda assim, entregou bons resultados –, não teve outra alternativa a não ser se isolar nas redes sociais, com o presidente se comunicando diretamente com seu eleitorado, incitando constantemente a sua militância contra o chamado establishment e aumentando a tensão política do país. Sim, Trump fez isso sistematicamente, mas os democratas e a imprensa estão longe – muito longe – de serem santos nessa história.

Agora, também é fato que a eleição de Donald Trump foi uma reação a anos de domínio “progressista” no debate público, e que ele, não sendo um conservador no sentido estrito do termo, sabiamente, com apelo populista – apesar de alguns pensadores discordarem do termo para designar Trump e Bolsonaro –, construiu sua candidatura como a voz do americano médio, esquecido por anos nas administrações anteriores. O discurso contra a imigração ilegal, contra o aborto – aliás, o amigo e colega de Gazeta do Povo Guilherme de Carvalho fez uma análise muito interessante de como esse tema ajudou Bolsonaro por aqui – e a favor da família fez dele o candidato mais à direita em muitos anos. Isso, obviamente, incomodou aqueles que pensam ter o progressismo o monopólio da virtude e instigou os revolucionários de iPhone.

Um governo conturbado, que não teve um minuto sequer de paz – mas que, ainda assim, entregou bons resultados –, não teve outra alternativa a não ser se isolar nas redes sociais

No entanto, no meu entender, conservadorismo e trumpismo – o mesmo em relação ao bolsonarismo, diga-se –, apesar de se encontrarem em muitos aspectos, se diferenciam pelo personalismo e pela tensão acentuada contra opositores, o que faz dele um reacionarismo, como define João Pereira Coutinho em seu As ideias conservadoras:

Uma disposição política conservadora [...] não recusa apenas as ambições utópicas (e futuras) dos revolucionários. Ela permite, igualmente, distinguir o conservador de sua caricatura habitual: o reacionário. Nas palavras de Anthony Quinton, o reacionário não será mais do que um “revolucionário do avesso”, alguém interessado em efetuar um corte semelhante com o “riso presente”, de forma a precipitar a sociedade, não para uma “felicidade utópica” futura, mas para uma “felicidade utópica” passada.

Seu comportamento beligerante é contrário aos princípios conservadores, é ideológico à medida que se coloca como representante absoluto do povo e o único capaz de frear, de modo maniqueísta, o mal sempre iminente do comunismo. Russell Kirk, conhecido como o pai do conservadorismo moderno americano, provavelmente não endossaria tais características e comportamento. Em seu (sempre citado por mim) A política da prudência, Kirk é enfático ao afirmar: “O que precisamos transmitir é prudência política, não beligerância política. A ideologia é a doença, não a cura. Todas as ideologias, incluindo a ideologia da vox populi vox Dei, são hostis à permanência da ordem, da liberdade e da justiça. A ideologia é a política da irracionalidade apaixonada”. Para ele, “ser ‘prudente’ significa ser judicioso, cauto, sagaz. Platão, e mais tarde Edmund Burke, ensinaram-nos que, no estadista, a prudência é a primeira das virtudes. Um estadista prudente é aquele que olha  antes de se lançar; que tem visão de longo alcance, que sabe que a política é a arte do possível”. E vai além:

A ideologia torna impossível o compromisso político, como fiz notar. O político prudente, au contraire, tem plena consciência de que o propósito original do Estado é manter a paz. Isso só poderá ser alcançado via a manutenção de um equilíbrio tolerável entre os grandes interesses da sociedade. Partidos, interesses, grupos e classes sociais devem realizar acordos, caso queiram manter as facas longe dos pescoços. Quando o fanatismo ideológico rejeita qualquer solução conciliatória, os fracos vão para o paredão [...] O reformador radical, proclamando-se onisciente, derruba todos os rivais para chegar mais rapidamente ao Paraíso terreno. Conservadores, em nítido contraste, têm o hábito de jantar com a oposição.

Em defesa de suas ações, militantes trumpistas – aliás, muita gente que admiro, mas parei de acompanhar pelo radicalismo assumido em favor do presidente americano – dirão que a oposição, se pudesse, os aniquilaria, e que não há acordo com quem quer o seu mal, com quem não enxerga um traço mínimo de virtude no contraditório; que é preciso romper com o sistema e isso não pode ser feito pacificamente. Concordo em partes e sei que progressistas são, em geral, incapazes de ceder um milímetro de suas convicções em direção a um acordo para o bem comum, uma vez que, para eles, seus opositores são o mal absoluto; que sua visão materialista os impede de compreender a imperfeição de todos os empreendimentos humanos.

Mas também sei que a situação atual não tem paralelo com outros momentos da história que exigiram rupturas, digamos, conservadoras; comparar revoltas populares antiestablishment do passado com as atuais e dizer, por exemplo, que a invasão recente do Capitólio – condenável sob qualquer aspecto, pois foi baseada em teorias conspiratórias e acusações sem comprovação – e os atos de violência perpetrados por figuras no mínimo pernósticas são um grito de liberdade do “povo” contra o sistema corrupto é tentar manipular os fatos e a história. Até os mais ferrenhos apoiadores de Trump, como o âncora da Fox News Sean Hannity, condenaram os atos, ainda que reiterem as acusações de fraude nas eleições.

Penso que conservadores devem encontrar um meio de não cederem ao radicalismo e ao conspiracionismo em nome de uma ordem terrena. Se são a voz da razão, é por meio dela que devem agir sempre, pois, como diz Platão n’A República, “um homem é justo do mesmo modo que é justa a cidade” – ou seja, a ordem da alma e a ordem da sociedade “têm relação idêntica em tudo que diz respeito à virtude”. Se são virtuosos, devem, como diz Aristóteles na Ética a Nicômaco, buscar o “meio termo”, aquilo que “é equidistante em relação a cada um dos extremos, e que é único e o mesmo em relação a todos os homens”. Se são tementes a Deus, é Nele que devem confiar. Se são verdadeiramente cristãos, devem saber que os princípios do Evangelho não são negociáveis e só são válidos se postos em prática.

Minha amada mãe, quando eu ainda era garotinho, dizia: “precisamos ter o que falar, e nunca dar o que falar”. Donald Trump deu muito o que falar e está pagando por isso

O comportamento de Trump, bem como de sua militância, em relação à pandemia, por exemplo, foi – mais uma vez, no meu entender – péssimo se o confrontarmos com os princípios expostos acima. Adotou uma espécie de negacionismo conspiratório em favor da economia, passando por cima da ordem e da pacificação num momento muitíssimo delicado. Poderia ter liderado com sabedoria a situação, inclusive dando a devida atenção à economia, mas minimizou a gravidade do vírus e viu os casos em estados-chave para sua reeleição aumentarem, comprometendo – e, provavelmente, foi o que impossibilitou – sua reeleição. Não que ele não tenha feito nada, mas o discurso e a imagem que passou não foram bons. E agora deixará a Casa Branca amargando uma invasão no Congresso que, apesar de também tê-la condenado frontalmente, cairá em sua conta, pois certamente foi provocada por suas acusações inflamadas e não devidamente comprovadas de fraude nas eleições.

Ao fim e ao cabo, em minha modestíssima opinião, a democracia americana não está mais ameaçada do que qualquer democracia – o melhor dos piores governos, parafraseando o grande Winston Churchill. É preciso vigilância constante. Os supostos supremacistas que defendem Trump perderão força se a administração Biden for inteligente o suficiente para neutralizá-los – não os confrontando, mas governando com equilíbrio. A conferir. E não importa se os protestos do BLM e Antifa foram e são, sempre, muito mais violentos, mas ao líder prudente cabe seguir o que sempre me dizia minha amada mãe quando eu ainda era garotinho: “precisamos ter o que falar, e nunca dar o que falar”. Donald Trump deu muito o que falar e está pagando por isso.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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