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Paulo Filho

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Crise na OTAN e desgaste com os EUA

A Europa acelera sua autonomia militar

O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, e o presidente da França, Emmanuel Macron. (Foto: EFE/EPA/TOM SKIPP/POOL)

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A crise de confiança entre os Estados Unidos e seus parceiros europeus da OTAN chegou a níveis inéditos. A desconfiança chegou a tal ponto que, em um e-mail interno do Departamento da Guerra dos EUA, divulgado pela agência de notícias Reuters, cogita-se uma série de medidas contra países europeus que não apoiaram, na medida esperada pelos EUA, o esforço de guerra empreendido pelo país em sua campanha contra o Irã.

Entre as medidas cogitadas contra os países considerados de difícil relacionamento estão a suspensão da Espanha da Aliança e até mesmo a revisão da postura americana de apoio à soberania britânica sobre as Ilhas Malvinas.

A suspensão de um país não é uma medida prevista pelo Tratado de Washington, que constituiu a OTAN; portanto, é uma medida que, a priori, não poderia ser efetivamente implementada.

Mesmo tratando-se de especulações, essas medidas punitivas, impensáveis há muito pouco tempo, ganham ares de real possibilidade porque são ventiladas em meio a várias críticas disparadas pelo presidente Trump contra os parceiros europeus e contra a própria OTAN — chamada por Trump de “tigre de papel” —, além de virem na esteira de outra situação que gerou muita tensão entre os EUA e um parceiro europeu da OTAN: a crise com a Dinamarca em torno do desejo manifestado por Trump de incorporar a Groenlândia aos Estados Unidos.

Essas fissuras na Aliança Ocidental, em meio à continuidade da invasão russa à Ucrânia e à crise persistente no Oriente Médio, estão gerando um senso de urgência na Europa quanto à necessidade de se criarem arranjos de segurança próprios, que diminuam a dependência dos países do velho continente em relação aos EUA.

Nesse sentido, nos círculos de estudos estratégicos e de defesa europeus, tem-se falado sobre o artigo 42.7 do Tratado da União Europeia, uma cláusula de defesa mútua semelhante à do artigo 5º da OTAN.

Ele permite que um Estado-membro sob “agressão armada” solicite assistência aos outros Estados-membros, que pode assumir várias formas, tais como ajuda militar, econômica, diplomática ou médica. Esse artigo foi acionado apenas uma vez na história, pela França, em 2015, por ocasião dos ataques terroristas ao Teatro Bataclan.

É muito difícil imaginar, entretanto, que um arranjo politicamente tão variado como a União Europeia ofereça, no curto prazo, a coesão necessária para que uma aliança militar em seu âmbito seja efetiva.

Uma alternativa viável para a Europa provavelmente estará ancorada em suas duas potências nucleares, França e Reino Unido; em sua maior potência econômica, a Alemanha; e nos países que sentem na pele a ameaça russa com maior intensidade e que, por isso, já estão em acelerado processo de desenvolvimento de suas próprias forças armadas, com destaque para a Polônia, a Finlândia e os países bálticos.

O presidente Macron, da França, tem repetidas vezes declarado que a Europa já não pode ter certeza de que contará com o apoio dos EUA no longo prazo, defendendo uma maior autonomia tecnológica e militar dos países europeus, que reduza a dependência dos Estados Unidos

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Essa maior autonomia se dará, inclusive, no campo nuclear. Nesse sentido, o presidente francês já anunciou que oito países europeus concordaram em participar do esquema de dissuasão nuclear recentemente proposto por seu país: Reino Unido, Dinamarca, Polônia, Alemanha, Holanda, Bélgica, Grécia e Suécia.

A Alemanha, por sua vez, na semana passada, divulgou sua nova Estratégia Militar, entre outros documentos relevantes para sua Defesa, como um plano para um aumento significativo de seus efetivos militares. Nas entrelinhas do plano, fica claríssima a preocupação em ampliar significativamente a autonomia das forças alemãs.

Considerando todos esses fatos, é difícil imaginar que o aumento da autonomia da defesa europeia seja conjuntural e que a aliança atlântica volte ao seu status anterior ao término do atual mandato do presidente Trump. Parece-me muito mais uma transformação estrutural nas relações euro-atlânticas.

Pressionada por um parceiro americano cada vez mais focado em suas próprias prioridades estratégicas e cansado de arcar desproporcionalmente com os custos da segurança europeia, a Europa vê-se obrigada a acelerar um processo de autonomização que já vinha sendo discutido há anos.

O resultado ainda é incerto: uma Europa militarmente muito mais poderosa tanto pode fortalecer a OTAN como pode acelerar uma gradual dissociação entre os dois lados do Atlântico.

O que já está claro é que, após décadas de conforto estratégico sob a proteção do guarda-chuva americano, a Europa já não pode mais se dar ao luxo de adiar sua própria autonomia militar e geopolítica. Numa ordem internacional cada vez mais multipolar, a autonomia na defesa deixou de ser uma opção desejável para se tornar uma necessidade imperiosa.

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