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Paulo Filho

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Crise EUA-Irã e petróleo

Bloqueio contra bloqueio: Trump aposta na pressão para sufocar o Irã

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Navios petroleiros cruzando o Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. (Foto: Ali Haider/EFE/EPA)

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Fracassaram as negociações de paz entre EUA e Irã. Durante quase 21 horas, entre sábado e domingo passados, negociadores norte-americanos, liderados pelo vice-presidente J.D. Vance, conversaram com os iranianos, chefiados pelo presidente do parlamento, M. B. Ghalibaf.

O encontro, realizado em Islamabad e intermediado pelo Paquistão, tinha por objetivo discutir os chamados dez pontos de negociação entre norte-americanos e iranianos, a fim de se chegar a um cessar-fogo definitivo entre os dois países.

As coisas, entretanto, não correram bem, e a situação hoje é ainda mais complicada do que antes. Segundo declarou o presidente Trump, a responsabilidade pela falta de acordo é dos iranianos, que se recusaram a renunciar às suas ambições nucleares, algo inadmissível para os Estados Unidos — e também para Israel.

Os iranianos, por sua vez, atribuíram o fracasso das negociações à incapacidade dos norte-americanos de transmitirem confiança e às “demandas excessivas e ilegítimas”, além da “não aceitação dos direitos e interesses legítimos do Irã”.

A reação do presidente Trump ao insucesso de Islamabad não tardou. Em mensagens na sua rede social, ele anunciou que a marinha dos EUA iniciaria um bloqueio naval no Estreito de Ormuz, com seus navios de guerra interceptando, inclusive, embarcações que trafeguem por águas internacionais, mas que tenham concordado em pagar pedágios aos iranianos. Ao mesmo tempo, Trump também afirmou que a marinha dos EUA iniciaria uma operação de desminagem no Estreito de Ormuz.

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A lógica de Trump é simples: se o Irã fecha o Estreito para pressionar o mundo, os EUA igualarão o jogo, fechando a passagem marítima para quem colabora com Teerã. O objetivo é sufocar ainda mais a economia iraniana e forçar o país a ceder

O problema é que apenas o bloqueio norte-americano aos portos iranianos não dará fim às limitações atualmente impostas pelo Irã ao trânsito pelo Estreito de Ormuz. Tais restrições vêm causando um enorme prejuízo aos países do Golfo Pérsico, aliados dos Estados Unidos. Esses países, altamente dependentes do livre trânsito pelo Estreito e já duramente afetados há mais de 40 dias, continuarão a arcar com custos crescentes.

Além disso, o fracasso das negociações de paz já levou à retomada da escalada do preço do petróleo, agravando ainda mais esse cenário de alta e escassez de combustíveis. Esses efeitos devem chegar ao Brasil, não somente afetando os preços dos combustíveis, mas também a disponibilidade de fertilizantes, com parcela relevante (cerca de um terço da ureia) originada ou transportada via países do Golfo. Um bloqueio prolongado ameaça elevar ainda mais os preços dos fertilizantes e do óleo diesel, comprimindo as margens do agronegócio e pressionando a inflação de alimentos na safra 2026/27.

Há ainda que se considerar que a operação militar de bloqueio naval, que será conduzida a partir das 11 horas da manhã de hoje pelo Comando Central dos Estados Unidos, não é simples nem imune a riscos. Apesar da esmagadora superioridade militar norte-americana, o Irã pode explorar vantajosamente sua geografia, que domina o Estreito, com o uso de técnicas assimétricas, e causar perdas aos norte-americanos.

Mísseis antinavio, drones aéreos e navais, ou mesmo minas, podem causar perdas materiais e em vidas de militares dos EUA, o que teria enorme repercussão na opinião pública do país.

Para se contrapor a essas ações iranianas, é bastante provável que as forças norte-americanas optem por ações militares limitadas contra posições iranianas em terra, nas ilhas ou no litoral, o que abre uma perigosíssima possibilidade de escalada do conflito.

Isso nos traz a uma conclusão lógica: o risco é que Trump, ao tentar igualar o prejuízo bloqueando os portos iranianos, acabe multiplicando-o, agravando a crise global de energia, com os seus aliados do Golfo Pérsico pagando a conta mais alta. Em vez de pressionar apenas o Irã, a estratégia pode acabar penalizando todo o sistema internacional, elevando os custos econômicos e ampliando os riscos de escalada militar.

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