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Paulo Filho

Paulo Filho

Escalada militar

Da Ucrânia ao Irã: o risco de duas guerras se tornarem uma

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(Foto: ROBIN VAN LONKHUIJSEN/EFE/EPA)

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No final da semana passada, a Ucrânia atacou um navio de carga iraniano no Mar Cáspio. Este foi o primeiro ataque ucraniano conhecido a atingir um ativo de um terceiro país no maior mar interior da Terra. Embora Kiev já tivesse realizado ataques de longo alcance contra instalações navais russas na região desde o final de 2024 e, mais recentemente, contra navios e plataformas de petróleo no Mar Cáspio, o envolvimento direto de uma embarcação iraniana marca uma nova etapa da escalada.

Esse evento chama especial atenção porque cria uma ligação direta entre os conflitos em curso no Leste Europeu e no Golfo Pérsico. O episódio ecoa acontecimentos semelhantes do passado e deve servir de alerta para a possibilidade de que guerras ainda formalmente distintas passem a se alimentar mutuamente, dando origem a um conflito mais amplo e perigosamente unificado.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã classificou o ataque como um “ato de agressão”, “hostil e criminoso” e uma violação da Carta da ONU. Afirmou que a ação matou um tripulante e feriu outro em um navio comercial iraniano. Além disso, o governo iraniano convocou o encarregado de negócios da Ucrânia em Teerã para apresentar um protesto formal.

Segundo a Ucrânia, o navio de carga transportava suprimentos militares do Irã para a Rússia. A cooperação militar entre os dois países não é nenhuma novidade. O melhor exemplo é o amplo emprego, pela Rússia, dos drones kamikaze iranianos Shahed-136, cuja venda foi acompanhada da transferência da tecnologia necessária à sua produção, o que permitiu a instalação de fábricas dessas armas em território russo.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que a inteligência ucraniana detectou o monitoramento, por satélites russos, de bases norte-americanas no Golfo Pérsico. Segundo o chefe de Estado, somente nos dias 19 e 20 de julho, quatro bases aéreas norte-americanas estiveram sob observação de satélites russos — duas no Bahrein, uma na Jordânia e uma no Kuwait.

Zelensky sustentou que existe uma correlação entre esse monitoramento e os ataques iranianos contra instalações militares dos EUA na região. A acusação, ainda não comprovada de forma independente, indicaria um nível de cooperação entre Moscou e Teerã muito superior ao simples fornecimento de armamentos.

Isso não significa que as duas guerras já estejam unificadas. Significa, entretanto, que começam a se sobrepor as redes de inteligência, logística, fornecimento de armamentos e seleção de alvos que sustentam os dois conflitos

Uma eventual retaliação iraniana contra a Ucrânia, novos ataques ucranianos contra ativos iranianos ou uma participação russa comprovada na preparação de ofensivas contra bases norte-americanas poderiam aprofundar essa interligação. A sobreposição de conflitos distintos está longe de ser inédita.

A Primeira Guerra Mundial começou como um conflito localizado nos Bálcãs: o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo, levou a Áustria-Hungria a declarar guerra à Sérvia. Em poucas semanas, uma sequência de ultimatos, mobilizações e declarações de guerra, potencializada pelo sistema de alianças, transformou a disputa local em um conflito europeu e, posteriormente, mundial.

A Segunda Guerra Sino-Japonesa, que começou em 1937 com o incidente da Ponte Marco Polo, permaneceu durante anos como um conflito essencialmente asiático entre China e Japão. Paralelamente, a guerra na Europa começou em 1939 com a invasão da Polônia. O ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, seguido da declaração de guerra da Alemanha aos EUA, fundiu os dois teatros. A guerra na Ásia passou a ser o teatro do Pacífico da Segunda Guerra Mundial. Rotas de suprimento, alianças e a participação das mesmas potências nos dois teatros transformaram conflitos paralelos em uma guerra global.

Os conflitos em curso no Golfo Pérsico e na Ucrânia permanecem formalmente distintos, e o ataque contra o navio iraniano no Mar Cáspio não significa que os dois teatros de operações tenham sido unificados. Entretanto, uma eventual resposta de Teerã — possibilidade reforçada pela declaração do ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, de que o episódio “não pode ficar sem resposta” — poderá iniciar uma dinâmica de ação e reação capaz de aproximá-los ainda mais.

Assim, é preciso que a comunidade internacional esteja atenta para evitar que uma sucessão de ataques, retaliações e compromissos entre aliados transforme duas guerras formalmente distintas em um único conflito, capaz de envolver um número maior de atores e de cobrar um preço ainda maior em vidas humanas.

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