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A pressão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, pela derrubada do sigilo dos inquéritos do Banco Master ocorreu logo após ele e aliados enxergarem a crise histórica da Corte como forte fator de desgaste eleitoral e crescente ameaça à sua reeleição.
A ordem na campanha foi tentar apagar a associação política facilmente estabelecida na sociedade entre Lula e Alexandre de Moraes, do STF. O afastamento do presidente da República de quem ajudou a sustentar o seu governo evoluiu de mero cuidado para acenar com uma ruptura de saldo incerto.
A aposta de Lula era transformar seu discurso em favor da transparência em antídoto contra a sangria eleitoral. Mas o remédio pode produzir um efeito inverso. O fim do sigilo aprofunda suspeitas sobre Moraes e figuras ligadas ao governo, o que deve ampliar a crise que a campanha queria estancar.
Pesquisas recentes aumentaram a apreensão. No levantamento divulgado em 7 de setembro, a Quaest mostrou Lula e o rival Flávio Bolsonaro (PL) empatados, com 41% cada, no eventual segundo turno. Já a AtlasIntel/Bloomberg registrou avanço do senador e, também, empate técnico entre os dois, ampliando a percepção de uma eleição aberta. A sondagem foi publicada em 10 de setembro.
A Quaest ouviu 2.004 eleitores de 3 a 6 de setembro, com margem de erro de dois pontos, sob o registro BR-01720/2026 no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A AtlasIntel/Bloomberg entrevistou 5 mil pessoas, de 4 a 9 do mês, por meio digital, com margem de um ponto e registrada como BR-01452/2026 no TSE.
Aposta de Lula no fim do sigilo indica desespero na reta final da campanha
O desgaste do STF provocado pelo caso Master se acelerou perigosamente para Lula desde o começo do mês, quando um relatório da Polícia Federal (PF) expôs 52 mensagens entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e Moraes, com a eclosão de uma guerra de decisões entre ministros da Corte na sequência.
Lula mudou, então, de posição pública. Passou a reconhecer a grave crise no Judiciário, criticou “vazamentos seletivos” capazes de interferir nas eleições e pediu a quebra completa do sigilo do Master. O pedido alcançou Fachin e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em nome do controle institucional da crise.
Para o cientista político André Cesar, da Hold Assessoria Legislativa, essa tentativa de reagir à perda de tração da campanha de Lula começou com a ordem do ministro Flávio Dino, do STF, de reintegração da cúpula da PF, afastada pelo relator André Mendonça, para obrigar Fachin a se mexer. O presidente da Corte decidiu suspender as duas decisões.
Fachin entra em campo e Mendonça abre parte dos processos do Master
O movimento produziu resultado rápido. Fachin também pediu a Mendonça que levantasse o segredo dos procedimentos ligados ao Master, preservando diligências cuja publicidade pudesse comprometer as investigações. O relator respondeu horas depois e liberou a Petição 15.556 e 14 procedimentos.
A medida abriu milhares de páginas e determinou o compartilhamento dos autos com os demais ministros. Mas a quebra não foi integral. Mendonça preservou peças sensíveis, mantendo sob sua responsabilidade a avaliação sobre documentos cuja divulgação poderia prejudicar diligências em curso.
O movimento de Fachin, porém, tem uma dimensão institucional própria. Pressionado por ministros, governo, ex-integrantes do Judiciário e opinião pública, ele visa acomodar tensões dentro de uma Corte fraturada. A sessão extraordinária da terça-feira (15) decidirá se Moraes será investigado. Moraes agora alega parcialidade do ministro André Mendonça e quer que os dois casos sejam analisados no julgamento da próxima semana.
Já Lula defende que Moraes, Mendonça e outros magistrados respondam por eventuais maus feitos, fugindo da imagem de defensor do maior alvo de pressões. “No desespero, Lula rifou Moraes, torceu para surgir algo contra Flávio e tentou pulverizar o noticiário”, diz o cientista político Paulo Kramer.
Dino amplia a pressão sobre Flávio, mas a crise ainda ameaça mais Lula
A ofensiva de Lula pela quebra de sigilos coincidiu com decisões de Dino que deflagraram operações transversais da PF para investigar o financiamento do filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), por supostos desvios de recursos por meio de emendas parlamentares.
A série de operações, decisões e revelações de provas mantém o caso Master no topo do noticiário e reforça a percepção de que investigações e disputa presidencial caminham juntas.
A retirada do sigilo de parte dos documentos do caso Master revelou também que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é investigado pela Polícia Federal desde o mês de julho por suspeita de envolvimento no financiamento do filme Dark Horse.
Para o cientista político Adriano Cerqueira, do Ibmec-BH, há ainda maior risco para Lula com a avalanche de documentos públicos, em razão do menor controle político sobre os rumos das revelações. “A abertura já expôs ramificações do escândalo Master, sem garantia de que o saldo favorece o governo”, diz.
Segundo Marcus Deois, diretor da consultoria Ética, a disputa política rompeu nos últimos anos os últimos limites de convivência e invadiu espaços como o Judiciário, gerando insegurança. “Democracias vivem do conflito, mas, sem método e freios, cobra-se um preço. A conta da degradação virá”, alerta.

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




