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Paulo Filho

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Tensão no Estreito de Ormuz

O risco de uma escalada na guerra entre EUA e Irã

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Trégua breve deu esperança, mas contradições do Irã e postura dos EUA reacenderam tensões; risco de escalada volta a crescer. (Foto: Will Oliver/EFE/EPA/Pool)

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A trégua de duas semanas na guerra entre o Irã e os EUA, cujo prazo se extingue amanhã, e a reabertura do Estreito de Ormuz, na costa iraniana, anunciada pelo presidente Trump em suas redes sociais na última sexta-feira, dia 17 de abril, deram uma esperança ao mundo de que a crise estava ficando para trás. Isso se refletiu imediatamente nos mercados de petróleo, cujos preços despencaram, em um sinal de otimismo. Entretanto, o alívio das tensões foi efêmero e não durou nem 24 horas.

A situação retornou muito rapidamente ao status anterior, com a Guarda Revolucionária do Irã voltando a obrigar os navios mercantes a dar meia-volta em suas tentativas de ultrapassar o Estreito controlado pelos iranianos.

Ao retomar o bloqueio, o governo iraniano se contradisse, uma vez que tinha sido Seyed Abbas Araghchi, o ministro das Relações Exteriores do país, que havia anunciado que a passagem para todos os navios comerciais pelo Estreito de Ormuz seria “completamente aberta” pelo período restante do cessar-fogo entre EUA e Irã, uma vez que havia sido celebrada uma trégua no conflito entre Israel e o Líbano, que beneficiava o Hezbollah, aliado iraniano.

A explicação mais plausível para essa contradição parece estar na falta de unidade de comando no Irã. Com praticamente toda a liderança eliminada pelos ataques israelenses, a começar pelo líder supremo, Ali Khamenei, estabeleceu-se um vácuo de poder que ainda não foi completamente preenchido. O substituto de Khamenei — seu filho, Mojtaba Khamenei — não aparece em público desde que foi nomeado no início de março.

Os líderes que assumiram as posições-chave disputam para fazer valer seus pontos de vista. A própria estratégia de defesa iraniana, a “Defesa em Mosaico”, que estabelece alto grau de descentralização das ações militares, além de ampla liberdade de ação aos comandos subordinados, pode estar dificultando ainda mais essa unidade de comando.

No momento, Araghchi, que vinha sendo um nome proeminente nas negociações, parece ter sido desautorizado pela linha dura do regime, representada pela Guarda Revolucionária Iraniana e seu comandante, o general Ahmad Vahidi, que vê qualquer concessão nas negociações como traição aos ideais da revolução islâmica. Isso foi tornado explícito em um comunicado da agência de notícias Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, sobre a declaração de Araghchi, afirmando que "o Ministério das Relações Exteriores deveria reconsiderar esse tipo de comunicação”.

Essa situação impõe uma enorme dificuldade à continuidade das negociações de paz: será que os enviados no governo iraniano têm, de fato, autoridade para falar em nome do país?

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Por outro lado, a decisão do governo dos EUA de manter o bloqueio aos portos iranianos, mesmo com o anúncio de que o Irã iria abrir o Estreito de Ormuz, certamente contribuiu para dificultar a resolução do conflito. Afinal, o bloqueio americano foi imposto em resposta ao bloqueio iraniano. A manutenção do primeiro, mesmo em face do anúncio do levantamento do segundo, deu argumentos à linha dura iraniana e enfraqueceu a posição de Araghchi.

Em meio a tudo isso, amanhã, terça-feira, dia 21 de abril, encerra-se o período de duas semanas de cessar-fogo entre o Irã e os EUA. Da parte iraniana, Mohammed Ghalibaf, presidente do parlamento e principal negociador até aqui, alertou que Teerã está pronta para retomar os combates caso o cessar-fogo seja rompido ou entre em colapso.

A postura norte-americana, depois da efusiva comemoração feita por Trump em sua rede social quando do anúncio do fim do bloqueio, frustrada logo em seguida, está sendo mais cautelosa nesses dois últimos dias. Após o novo fechamento do Estreito, Trump convocou, no sábado, uma reunião na Sala de Situação da Casa Branca.

Após a reunião, vazamentos para a imprensa norte-americana, atribuídos a integrantes do governo dos EUA, davam conta de que, “a menos que haja um avanço nas negociações de paz, a guerra poderá recomeçar em poucos dias”. De qualquer maneira, Trump anunciou o envio de uma delegação de negociadores ao Paquistão. Fiel ao seu estilo, ameaçou "destruir cada usina de energia e cada ponte no Irã" caso as negociações falhem.

Até o presente momento, entretanto, o lado iraniano não confirmou o envio de uma delegação para a negociação, o que torna bastante incerta a possibilidade de êxito de novas conversas.

Assim, embora a continuidade das hostilidades não seja do interesse de nenhuma das partes, a possibilidade de que ambos caiam em uma armadilha de escalada, na qual nem EUA nem Irã queiram — ou mesmo consigam — recuar, é real. De um lado, Trump não pode se permitir demonstrar fraqueza após ter elevado o tom das ameaças e mobilizado poder militar significativo na região. De outro, o regime iraniano, fragilizado internamente e pressionado por sua ala mais radical, tampouco pode ceder sem comprometer sua própria sobrevivência política. O resultado é uma dinâmica perigosa, na qual cada movimento de um lado é percebido como ofensivo pelo outro, alimentando um ciclo de ação e reação cada vez mais difícil de interromper.

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