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Paulo Filho

Paulo Filho

Estratégia militar

Os Estados Unidos de Trump e a Rússia de Putin perderam suas capacidades de dissuasão?

Dissuasão depende de força, credibilidade e comunicação. Sem esse tripé, até grandes potências perdem capacidade de evitar conflitos. (Foto: Aaron Schwartz/Pavel Byrkin/EFE/EPA/SPUTNIK/KREMLIN)

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Dissuasão é uma palavra muito usada quando se escreve ou se conversa sobre estratégia. Entretanto, seu conceito não é completamente percebido por muitos que ou a empregam de forma equivocada ou não compreendem perfeitamente seu significado.

Dissuadir é convencer um adversário a não realizar determinada ação, fazendo-o acreditar que não conseguirá alcançar seus objetivos ou que sofrerá consequências superiores aos eventuais benefícios esperados.

Para que a dissuasão seja alcançada, são necessárias três condições — “3Cs”. A primeira é possuir as capacidades militares necessárias para negar ao adversário os objetivos pretendidos ou lhe impor custos elevados. Por exemplo, um país que detenha um arsenal nuclear capaz de sobreviver a um primeiro ataque e retaliar possui um instrumento que, em tese, deveria levar seus adversários a agir com extrema cautela.

A segunda condição é a credibilidade. Possuir capacidades, por si só, não dissuade completamente. É necessário que aquele que as detém consiga convencer o adversário de que estará disposto a empregá-las caso determinados limites sejam ultrapassados.

A terceira condição é a comunicação. As capacidades e a disposição para empregá-las precisam ser percebidas corretamente pelo adversário. Para isso, intenções, limites e consequências devem ser comunicados de maneira suficientemente clara, reduzindo o risco de erros de cálculo.

Duas guerras em curso, entretanto, mostram que a dissuasão não é automática, como talvez pudesse parecer

A Rússia tem se mostrado incapaz de dissuadir a Ucrânia de aprofundar o combate, atingindo alvos cada vez mais no interior do país, e os EUA são incapazes de dissuadir o Irã de continuar interferindo no tráfego marítimo no Estreito de Ormuz e de atacar interesses norte-americanos no Golfo Pérsico.

Por que isso acontece, mesmo sendo Rússia e Estados Unidos grandes potências militares?

No caso russo, a dissuasão convencional mostra-se insuficiente, não exatamente por ausência de capacidades militares, mas porque Moscou não consegue, apenas com elas, impedir os ataques ucranianos em profundidade nem impor custos capazes de fazer Kiev abandoná-los.

Resta aos russos, então, a dissuasão nuclear. O arsenal atômico de Moscou ainda influencia a cautela dos países da OTAN e ajuda a explicar por que a Aliança evita participar diretamente da guerra. Entretanto, as ameaças nucleares não conseguem impedir que a Ucrânia realize ataques convencionais limitados porque falta à Rússia a segunda condicionante: a credibilidade, uma vez que os ucranianos consideram que a Rússia dificilmente empregará uma arma nuclear em resposta. Uma reação dessa natureza seria desproporcional, romperia o tabu nuclear e provocaria enorme reação contrária da comunidade internacional, muito especialmente dos países europeus da OTAN.

No caso dos Estados Unidos, evidentemente, não faltam capacidades militares. Mas o fato de o presidente Trump, repetidas vezes, ter deixado claro que queria um fim breve para as operações militares causou um efeito contrário ao pretendido em termos de dissuasão. Ao sinalizar pouca disposição de sustentar uma guerra prolongada ou de enviar efetivos terrestres para a zona de operações, Trump sinalizou aos iranianos que os ataques poderiam ser intensos, mas certamente seriam limitados no tempo e não envolveriam invasões terrestres. A enorme superioridade militar norte-americana é incontestável, mas, como a disposição de Washington para empregá-la pelo tempo e na intensidade necessários é questionável, o poder dissuasório decresce consideravelmente.

Há, também, um problema na comunicação. Ultimatos, anúncios de cessar-fogo, ameaças de novos ataques, retomada das negociações e posteriores bombardeios transmitem sinais contraditórios. As “linhas vermelhas” não ficam claras e, consequentemente, os limites que podem ou não ser ultrapassados sem gerar consequências ficam borrados.

O risco disso tudo é que, em determinado momento, tanto russos quanto norte-americanos queiram demonstrar aos seus adversários e ao mundo que seu poder dissuasório não pode ser desconsiderado.

Nessa hipótese, Moscou e Washington podem ser levados a escalar seus conflitos de forma abrupta, adotando medidas cada vez mais destrutivas não apenas para alcançar objetivos militares imediatos, mas também para restaurar a credibilidade de suas ameaças e de sua disposição para empregar a força. Nesse caso, as consequências seriam amplas, extrapolando os teatros de operações atuais e trazendo consequências para todo o sistema internacional.

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