O Censo, pesquisa mais profunda e precisa que temos sobre a população do Brasil, deveria ter ocorrido em 2020, mas vai ficar para 2022.| Foto: Divulgação/IBGE
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Lá se vão quatro anos desde a famosa manchete da The Economist declarando que dados são o novo petróleo. Se a frase estiver correta, e acredito que está, há um grande problema no debate público brasileiro. Temos uma grande crise de credibilidade e transparência dos dados públicos, mas pouco se fala no assunto. Oscilações momentâneas do antigo petróleo recebem mais atenção do que problemas estruturais do novo petróleo.

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Há um argumento óbvio para explicar esse desequilíbrio de atenção: o preço da gasolina tem impacto imediato no bolso do brasileiro. Um problema dessa tese é ignorar que a perda de credibilidade dos dados públicos também tem impacto. O suposto Orçamento de 2021 certamente ajuda a explicar o desempenho recente do dólar. O mesmo pode ser dito sobre a metamorfose ambulante na metodologia de monitoramento da pandemia.

Os questionamentos aos números da pandemia e do orçamento já seriam suficientes para falarmos em uma grande crise. Mas a verdade é que os problemas são parecidos em muitas outras áreas do governo federal. Na vacinação, a Fiocruz passa pelo constrangimento de regularmente adiar o próprio cronograma de produção.

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O Censo, pesquisa mais profunda e precisa que temos sobre a população do Brasil, deveria ter ocorrido em 2020. Já com um intenso debate sobre corte de gastos, foi adiado para 2021. Após ver as verbas previstas caírem 96,5% no suposto Orçamento de 2021, a presidente do IBGE pediu demissão. O Censo de 2020 ficará, na melhor das hipóteses, para 2022.

Esses são apenas os exemplos maiores: numa das peças mais importantes do ano legislativo (Orçamento), na principal pesquisa pública brasileira (Censo) e nos dados sobre o grande acontecimento histórico do momento (Covid). Entrando em áreas mais específicas do governo os exemplos são ainda mais comuns.

O caso do Caged, cadastro que registra todos os vínculos trabalhistas com carteira assinada, é estarrecedor. A metodologia mudou em 2020, sem que o governo explicasse adequadamente as mudanças. Mesmo assim, o governo compara livremente dados com metodologias diferentes, sem explicar o que fundamenta a comparação. A imprensa, sem o mínimo senso crítico, passou meses repetindo o modo como o governo divulgava os números. Diversos consideram os últimos números do Caged exageradamente otimistas. Está aí uma história muito mal contada.

Eu poderia cansar o leitor com diversos dados públicos que perderam credibilidade nos últimos anos. O movimento começou na área ambiental, ainda em 2019, e hoje é generalizado. Da economia à saúde, da educação ao meio ambiente, diversas áreas da política pública federal são questionadas pelo mesmo motivo.

A produção de informações de interesse público pelo governo traz consigo um dilema. Com frequência, a transparência das informações contraria o desejo do governante. A longo prazo, faz sentido prezar pelo maior grau de transparência possível e fortalecer a autonomia das instituições responsáveis. Porém, a divulgação dos dados pode prejudicar os interesses de curto prazo dos governantes.

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Vale lembrar que o ataque à credibilidade dos dados públicos foi uma marca da guinada autoritária dos presidências Chávez/Maduro na Venezuela e Kirchner na Argentina. As contas públicas de Dilma são exemplos inespáveis – mesmo que o Orçamento 2021 seja, no mínimo, tão grave quanto as fraudes fiscais que derrubaram a ex-presidente.

Porém, Dilma não foi a regra da Nova República. Todos os presidentes tiveram algum legado positivo na produção e transparência de dados, especialmente FHC e Lula. Michel Temer pode dizer que foi o primeiro presidente que produziu dados regulares, oficiais e confiáveis na área da segurança. Bolsonaro, em contraste, até agora é desastroso quando se discute transparência.

Dados confiáveis parecem uma preocupação pequena num país cheio de urgências. Especialmente porque o Brasil é primoroso em medir o próprio fracasso. Temos um sistema de avaliação incrível até para países desenvolvidos, mas nossos índices de aprendizagem seguem decepcionando.

Uma observação mais atenta, porém, mostra que a disponibilização de dados públicos já parece impactar positivamente a educação brasileira. Os estados e municípios de maior sucesso recente na educação tem em comum o uso intensivo de dados, além de boas práticas que devem ser seguidas. Outros estados e municípios foram pressionados por mudanças recentes.

Isto porque, nas últimas décadas, houve um boom de centros de pesquisa e organizações da sociedade civil dedicadas à educação pública. Esse boom tem relação direta com a incrível disponibilidade de dados. É interessante pensar nesse exemplo, pois ele mostra a importância da credibilidade.

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Quando o governo disponibiliza dados de relevância pública, pesquisadores e especialistas podem avaliar os problemas das políticas existentes, estudar melhorias e avançar nosso conhecimento sobre um tema.

Acredito que se referir a “dados públicos” ou “números oficiais” até subestima a importância das instituições envolvidas. Não estamos debatendo números frios, mas um sistema de inteligência pública. Como qualquer inteligência, seu objetivo é produzir e processar informações, informar as decisões e melhorar as políticas públicas.

Quando os dados públicos perdem credibilidade ou não são divulgados quando esperados, os que perdemos não é o privilégio de ler uma porcentagem qualquer. Não é só um número. O que perdemos, na prática, é inteligência na tomada de decisão. Quando discutimos políticas públicas, o apagão estatístico é a antessala da burrice.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]