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Isentão
| Foto: Pixabay

Você certamente já ouviu ou leu a palavra “isentão”. É uma das gírias políticas mais usadas no Brasil. Desconfio que boa parte dos brasileiros conhece o termo. Ao menos, boa parte dos brasileiros que acessam colunas sobre política, como esta, já deve ter ouvido falar sobre o tal isentão.

Rodrigo da Silva e a invenção do isentão

Até 2014, na imprensa e no Twitter, “isentão” era um apelido para o estádio do Corinthians. Os primeiros tuítes com a conotação atual surgem nas eleições daquele ano — especialmente no segundo turno, quando notórios simpatizantes do PT declararam “voto crítico” em Dilma Rousseff.

Apesar disso, a gíria estava restrita a pequenas bolhas nas redes sociais. A grande imprensa não mencionava o isentão, então desconhecido pelo público geral. Era uma palavra ainda em sua pré-história.

A história começa a mudar quando Rodrigo da Silva publicou um texto sobre o “isentão”. Rodrigo o descreveu  como “a maior vergonha da política em nosso tempo”. Foi num texto publicado pelo Spotniks em março de 2016. Viralizou, ultrapassando 100 mil compartilhamentos nas redes sociais. O link original está fora do ar, mas pode ser facilmente encontrado pela internet — acesse a íntegra clicando aqui.

Dados do Google Trends mostram que, após a publicação do texto de Rodrigo da Silva, surge um interesse regular pelo termo “isentão”, tendência que continua viva em 2021. Também a partir daquele momento, a palavra começa a aparecer na grande imprensa.

A deturpação do isentão

Apesar de praticamente ter inventado o isentão, Rodrigo da Silva hoje lamenta a deturpação do termo. “A tática de transformar gente verdadeiramente independente em isentão é um dos maiores engodos retóricos políticos de 2019”, ele tuitou ainda em janeiro daquele ano.

Pouco depois, Rodrigo da Silva passou a se descrever como isentão orgulhoso. Ou seja, ele se identifica com a mesma palavra que, no seu texto de 2016, significava a maior das vergonhas políticas. Era um protesto contra a deturpação do termo que ele popularizou.

O isentão original

O isentão inicialmente era um militante partidário como qualquer outro: alguém que segue fielmente a cartilha do partido. A diferença estaria numa tosca camuflagem. Antes de exibir seu partidarismo gritante, ele arrota isenção com ponderações falsas ou insignificantes.

Ao exemplificar quem seria um isentão-modelo, Rodrigo da Silva citou Celso Antônio Bandeira de Mello. O renomado jurista é próximo do PT há décadas, tinha o mesmo discurso do partido em quase todos os tempos e suas colocações públicas eram propagandeadas pelos caciques petistas. Apesar de tudo, Celso fazia uma ressalva: ele não se considerava petista em 2016, pois não votou num petista para deputado federal em 2014.

O isentão original tinha todos os defeitos de qualquer militante tribal e mais um: lhe falta coragem para assumir-se como o que é. Portanto, está num nível abaixo do gado. A falsa ponderação serve apenas como muleta para negar o que diversas evidências gritam. Qualquer observador concluiria que a distinção entre um partidário raiz e o isentão está no disfarce simplório.

Apesar de não se limitar ao tema, o conceito de Rodrigo da Silva focava na figura do “isento governista”. Repare, leitor: não era o isento petista.

O isento governista seria um militante sempre disposto a deslegitimar qualquer oposição, mas sem coragem de defender o governo. Todos os opositores são cretinos malvados, o que obriga nosso nobre isento a agir como governista. Ele não apoia o governo porque quer. É apenas uma vítima da situação.

Se o isentão original tinha todos esses defeitos, por que o criador passou a se identificar com a criatura? A explicação é simples: os isentões originais foram os deturpadores da palavra e, hoje, chamam figuras verdadeiramente moderadas como “isentões”.

Rodrigo Constantino, um legítimo isentão

Para compreender a mudança de Rodrigo da Silva, basta ler algumas colunas que um xará publica na Gazeta do Povo. Me refiro a Rodrigo Constantino.

Outrora economista, Constantino desistiu de analisar políticas públicas. Hoje, um jornalista especializado na cobertura de ressentimentos, seus e de lideranças do governo.

Cumprindo a cartilha do isento governista, a grande maioria dos textos de Constantino foca em críticas ao antibolsonarismo — é até comedido chamar de críticas o que, via de regra, tem mais ofensa do que argumento. Em particular, ele gosta de denunciar outros colaboradores desta Gazeta do Povo como isentões.

Francisco Razzo é um pensador conservador e autor do best-seller “Contra o Aborto”. Para Constantino, este seria um legítimo isentão. Reparam o contraste em relação ao perfil de Celso Antônio Bandeira de Mello?

Guilherme Macalossi, outro colega de Gazeta do Povo, recebeu o mesmo tratamento. Repare na imagem abaixo, caro leitor:

Ao escrever sobre o print screen acima, Constantino comete o seguinte parágrafo:

“A ‘análise’ de Macalossi contrasta com a análise isenta da Barbara, do canal TeAtualizei. Mas Barbara é acusada de bolsonarista, enquanto o outro banca o jornalista imparcial. A ‘terceira via’ apoia o arbítrio truculento dos corruptos do gabinete paralelo do lulismo na CPI circense, eis o ponto em que essa turma chegou.”

O absurdo é tão evidente que torna desnecessário qualquer argumento adicional sobre o parágrafo acima.

Antes de prosseguir, porém, vale notar que Constantino enxerga o antibolsonarismo como uma mistura do petistas puro-sangue com petistas disfarçados. Não há diferença entre petismo e antibolsonarismo.

Para defender o governo sem defender o governo, basta deslegitimar toda e qualquer oposição. Eis a fórmula do governismo isento: bolsonarismo + covardia.

O estranho liberalismo dos isentões governistas

Voltemos ao primeiro Rodrigo, o da Silva. Ele se assumiu como isentão por ver o termo instrumentalizado por esquerda e direita para xingar pessoas que verdadeiramente buscam isenção.

Rodrigo da Silva se justificou dizendo que “esquerda e direita buscam o apoio irrestrito, a ditadura do discurso único". Por isso, militantes dessas duas tribos classificam qualquer um que “não lambe o coturno de um milico ou o sapato de um burocrata progressista”. O xingamento serve para punir quem tenta fugir do curral partidário.

Mudo de Rodrigo novamente. Meu colega de Gazeta do Povo, fiel à isenção governista, rotula André Marinho, apoiador de Bolsonaro em 2018, como isentão. Tudo porque Marinho “ataca as Forças Armadas”. Vejam vocês o absurdo: ele está preocupado com a intromissão de generais da ativa em assuntos civis.

Constantino lamenta que André Marinho seja tão ingrato ao falar sobre esta “instituição que sempre gozou de prestígio e da estima popular, especialmente da direita”. É sintomático que o passado das nossas Forças Armadas apareça como referência.

Pelo menos num ponto, concordo com Rodrigo Constantino: muitos isentões se dizem liberais da boca pra fora e, na prática, lutam bravamente contra o liberalismo.

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