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Fachada do Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves e a bandeira nacional na Praça dos Três Poderes, em Brasília.
Fachada do Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves e a bandeira nacional na Praça dos Três Poderes, em Brasília.| Foto: Pedro França/Agência Senado

Caro leitor,

Dado que você está lendo uma coluna de jornal sobre política, pressuponho que você tem interesse pelo tema e talvez alguma simpatia ideológica ou partidária. Não sei qual grupo político te agrada, mas suponho que existe algum. Suponho, também, que você está preocupado com o futuro da democracia brasileira. Todos nós estamos.

Hoje, é difícil encontrar quem não tenha medo do Brasil virar a Venezuela – o que muda, infelizmente, é o grupo ao qual atribuímos o rótulo de autoritário. Bolsonaristas acreditam que o PT e o STF estão degradando a democracia brasileira. Petistas acreditam que Moro e Bolsonaro representam esse risco. Por fim, a terceira via atribui o rótulo autoritário tanto ao petismo quanto ao bolsonarismo. Discordamos sobre o agente causador da doença, mas concordamos sobre o diagnóstico.

De fato, o diagnóstico é preciso, mas a maioria dos brasileiros ignora o que cientistas políticos dizem sobre o assunto. Quando uma democracia morre, os assassinos raramente pertencem a um mesmo grupo. No caso da Venezuela, por exemplo, é fácil identificar quem são os principais responsáveis pelo fim da democracia: os chavistas. Poucos lembram, porém, que o antichavismo deu contribuições fundamentais ao processo.

Em 2002, militares e empresários antichavistas comandaram um golpe de Estado na Venzuela. O golpe tentou dissolver a Assembleia Nacional e a Suprema Corte, dando plenos poderes a Pedro Carmona. Ele comandava a Fedecámaras, principal grupo empresarial do país, e estava justamente revoltado com as arbitrariedades de Hugo Chávez.

Não pretendo negar o óbvio: antes da tentativa de golpe, o chavismo já tinha um projeto autoritário. Depois de 2002, porém, Chávez e seus comparsas ganharam um argumento muito convincente: que moral a oposição tinha para falar de democracia? A população ficou ao lado do presidente, que a partir daí teve passe livre para aparelhar as Forças Armadas sem causar tanto atritos, além de cassar o registro do maior canal de TV local, que apoiou a tentativa de golpe.

No Brasil, seguimos a mesma toada. O aparelhamento da Polícia Federal avança a passos largos. O orçamento secreto representa a maior imoralidade já vista nas relações entre Executivo e Legislativo – é um mensalão institucionalizado e anabolizado. O STF, por sua vez, segue com as arbitrariedades de sempre, mas adicionou um perigoso ingrediente a este cardápio: o inquérito das fake news e as controversas ordens de prisão relacionadas ao caso.

Ainda mais grave é o fato de boa parte dos brasileiros não reconhecer pelo menos uma das práticas autoritárias citadas acima. Uns consomem apenas conteúdo antibolsonarista e sequer conhecem os argumentos de quem critica o STF. E vice-versa: outros consomem apenas conteúdo bolsonarista, acreditam que o orçamento secreto é comparável às emendas parlamentares que sempre existiram e não sabem o que ocorre na PF.

Nos faltam fatos compartilhados. Só é possível discutir política de forma construtiva quando reconhecemos um mesmo corpo de fatos e, assim, podemos conciliar valores divergentes de forma pacífica. Quando não compartilhamos os mesmos fatos, só a briga será possível, pois um lado perde a capacidade de compreender o outro e não é sequer capaz de identificar quais divergências existem no campo dos valores.

A raiz do problema está no não reconhecimento do outro como um semelhante. Identidades partidárias se sobrepõem à identidade nacional, de modo que os problemas da nação já não são discutidos numa praça comum a todos. Cada grupo frequenta sua praça, onde circulam a suas informações, e não reconhece os compatriotas de outra praça como iguais. O pessoal do outro grupo é visto como ameaça existencial.

Não é difícil adivinhar o resultado: quando o outro é uma ameaça existencial, vale a pena jogar sujo contra o grupo dele. Numa espiral infernal, a vítima do jogo sujo passa a pensar que só pode continuar na disputa se jogar ainda mais sujo. É assim que as democracias morrem – se os nossos problemas viessem de um grupo malvado que age sozinho, seria bem mais fácil resolver.

Fica aqui, então, a minha mensagem natalina: a nossa identidade humana, assim como a identidade nacional, devem vir antes de eventuais filiações partidárias. Antes de sermos de esquerda ou direita, somos humanos e brasileiros. Fazemos parte da mesma comunidade e precisamos conversar, compartilhar fatos e buscar soluções pacíficas para problemas coletivas. É a nossa única opção que vale a pena: a outra, infelizmente, é cair no abismo da violência política.

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