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Pra Siba deles!
Pra Siba deles!| Foto:

Por partes.

A segunda edição do Cultura na Rua acontece neste sábado (24) a partir das 13 horas, na Boca Maldita. O pernambucano Siba (leia entrevista com ele abaixo) e a curitibana Trombone de Frutas são as atrações do dia.

A Fundação Cultural de Curitiba foi rápida em sacar a tendência recente de eventos a céu aberto, mesmo na capital mais fria e esquisitinha do país, e idealizou o projeto pensando em “disponibilizar cultura de qualidade no coração da cidade”, como regozija Igor Cordeiro, vocalista da banda Supercolor e superintendente do órgão.

Siba:

Siba: “Eu circulo.”

No dia 8 de junho, o projeto estreou com o afrojazz da Orquestra Rumpillezz, que tocou para poucas pessoas, ao menos no começo do show. “Curitiba tem essa característica. A população precisa tomar conhecimento antes para depois aderir e abraçar”, relativiza Cordeiro. De acordo com a Guarda Municipal, cerca de 1,5 mil pessoas circularam pelo petit-pavé durante a apresentação da big band.

A queixa de muitos foi a falta de uma programação definida, com datas e respectivas atrações. Isso parece estar resolvido. “Já temos o calendário até o fim do ano”, diz Cordeiro. As apresentações agora serão mensais porque “outros artistas nacionais se interessaram.” Nenhum nome foi adiantado, entretanto. Aguardemos.

Às bandas:

O Trombone de Frutas é um coletivo curitibano neo-hippie que produz “trilha sonora para a vida.” Conde Baltazar (voz), Thiago Ramalho (voz, guitarra e loop station), Marc Olaf (voz e piano), Rodrigo Ribeiro (baixo), João Taborda (bateria), Marcel Cruz (percussão) e Rimon Guimarães misturam música e performances teatrais. Não há amarras, e os limites são poucos. Frutas (frescas e de verdade) são elementos quase sempre presentes. Piadas, improviso e versões tropicalistas-lisérgicas para clássicos do rock também. É divertido se você entrar na pira.

É de fruta, o trombone.

É de fruta, o trombone.

Fora que Marc Olaf (também integrante do Klezmorim) e Thiago Ramalho (terceiro lugar no BOSS Loop Station World Championship, campeonato mundial de pedais de guitarra realizado na California) são alguns dos melhores músicos que você irá ouvir em Curitiba.

O cabra Siba, por sua vez, tem quase 20 anos de carreira. Fundador da banda Mestre Ambrósio, nos anos 90, o recifense irá mostrar ao vivo as canções do disco Avante (2012), produzido pelo Midas Fernando Catatau. A contrapartida ao fato de ser o trabalho mais pop de sua carreira está nas letras, todas talhadas com visível esmero.

O álbum também promove o reencontro do músico com a guitarra, instrumento que deixou de lado quando se mudou para a Zona da Mata pernambucana e gravou A Fuloresta do Samba (2003) e Toda Vez que eu Dou um Passo o Mundo Sai do Lugar (2007).

Talita Miranda

Pra Siba deles!

“Enquanto Fuloresta era um mergulho em uma linguagem específica de uma região de Pernambuco, Avante é mais abrangente. Tem maracatu e música africana, além do que se ouve na periferia do Recife. Na verdade é bastante estranho”, diz Siba, que se apresenta em Curitiba acompanhado por Felipe Faraco (teclado e vibrafone), Leo Gervázio (tuba), Thiago Babalu (bateria) e Mestre Nico (percussão). Leia a entrevista completa abaixo:

 

Como foi a última vez em Curitiba, no Paiol, ano passado?

Lembro que era uma noite bastante fria, mas tinha um calor bem gostoso vindo da plateia. O próprio lugar é um ambiente aconchegante. O som baixo, todo mundo muito atento. Foi legal porque o trabalho estava chegando em um ponto de fechamento. As músicas estavam ganhando sua cara definitiva ao vivo. Foi bem feliz pra gente.

Dessa vez o show é na rua. Sente-se mais à vontade tocando em um palco assim?

Eu venho da rua. O tipo de música que eu faço é de rua. Maracatu, ciranda. Em Pernambuco se faz muitos shows em espaços públicos, e acho sempre especial. Porque me coloca mais próximo da origem do meu trabalho.

O show será baseado em Avante?

Sim, mas não vou me limitar. Retomo a minha obra em algum momento. Há uma música do Mestre Ambrósio. Uma da Fluoresta. E venho com a banda completa, com o meu quinteto.

Avante é mais pop e tem mais guitarra. Você deixou o regionalismo quase ortodoxo e de certa forma ampliou sua abrangência. É um som mais urbano, enfim. Ou não?

O disco, da forma como ficou, foi o resultado de uma busca. Busca por colocar mais elementos que fazem parte da minha formação. Não compactuo com essa ótica de composição ‘pop.’ Não me guio por essa maneira de organizar e rotular, porque é questionável. É meio difícil de dar conta muito fácil. No tempo da Fluoresta, fazia um mergulho em linguagem especifica de uma região de Pernambuco. Avante é mais abrangente. Tem maracatu e música africana, além do que se ouve na periferia do Recife. Na verdade é bastante estranho.

Qual a marca de Fernando Catatau na produção do disco?

O Catatau está presente em diversas dimensões. Foi uma grande inspiração pra direção do texto. Tenho como matéria prima a minha vida pessoal e minhas questões particulares. É uma necessidade minha. O que o Catatau tem me oferecido é transformar a matéria pessoal em matéria pra qualquer um. O que é fabuloso. Num segundo momento, ele foi importante pra minha volta à guitarra. A retomada foi lenta, difícil. Ele agiu como interlocutor.

E por que você se afastou dela?

Eu queria fazer outras coisas. Desde o começo da Fluoresta, estava focado no processo da poesia. Via a banda como outro instrumento.

Sua relação com poesia é muito forte.

Ela vem da tradição da poesia oral do nordeste. O côco, a cantoria de viola. Há vários estilos e maneiras de abordar essa estética poética. O maracatu de baque solto e a ciranda também. A minha relação com a poesia vem daí. Porque o texto é a finalidade. É o ponto central de todo processo estético. A música está em função de um texto. A música está subjugada a ele.

A poesia faz falta hoje?

Sempre fez. Nunca houve momento em que não fez. Nunca ouve momento em que a poesia interferisse profundamente nas coisas do mundo. Ela sempre foi necessária. Os textos, de alguma forma, vão transformando as pessoas ao redor dele com o decorrer do tempo.

Como o Siba se vê na atual cena do Recife?

Não consigo enxergar essa coisa de geração. Saí de Recife nos anos 90 [atualmente mora em São Paulo], e não transitei muito por lá depois disso. Mas é óbvio que tenho uma relação intensa com parceiros do começo da carreira. Os caras do mangue beat. Eu tenho uma rede mais abrangente, em Recife e fora da cidade. Algo independente. Presto atenção no que está acontecendo, mas definitivamente não sigo uma geração ou outra. Eu circulo.

E como está a cena no Recife?

Há um problema sério de estabelecer e construir um mercado local. Até hoje, mesmo com toda a produção que sai de lá. Não se vê, por exemplo, a música pernambucana “espelhada” nas rádios locais. Nem na grande mídia de Recife.

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