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À direita e à esquerda, o fetiche do golpe toma conta do ambiente quando as pessoas querem se sentir vivas participando de um momento "único" da história.
À direita e à esquerda, o fetiche do golpe toma conta do ambiente quando as pessoas querem se sentir vivas participando de um momento “único” da história.| Foto: Reprodução/ Twitter

Ontem foi meu dia de folga, mas o WhatsApp não parou. De um lado, a turma do “vai ter golpe daqui, vai ter golpe dali, eu disse que Bolsonaro era fascista e chavista, mas você não me ouve!”. Do outro, o pessoal do “tem que ter golpe mesmo, ninguém aguenta mais a ditadura de toga, artigo 142, não sei o quê, não sei o que lá”. E, no meio deles, um amigo que prefiro manter no anonimato e que acredita que tudo se resolve com um cafezinho.

Hoje (10) cedo, ao acompanhar o famigerado desfile de tanques que, oh, acabariam com a democracia, notei até certo tremor na voz da apresentadora do telejornal. Como se, a qualquer momento, um dos tanques fosse mirar o fálico tubo de lançamento de foguetes (é esse o nome?) em direção ao STF ou ao Congresso e ela, a apresentadora, fosse entrar para a história – aquela que os marxistas grifam com letra maiúscula.

E então me dei conta do que estava por trás até da minha ansiedade ao acordar hoje, admirar a linda aurora invernal curitibana e, ao sair para comprar o pão nosso de cada dia, ver rastros de jatos no céu sem nuvens, pensando ridiculamente que talvez quem sabe aquilo poderia ser o prenúncio de alguma coisa. Não era. Até porque nunca é.

Fetiche do golpe

O desejo e a repulsa por rupturas institucionais não são fenômenos restritos ao bolsonarismo. Não à toa, há cinco anos a esquerda tenta nos fazer acreditar que o impeachment de Dilma Rousseff foi um... golpe. E, nas eleições de 2002, vencidas por Lula, o medo de que as Forças Armadas não deixariam o metalúrgico governar também estava no ar.

Nessas ocasiões, como agora, não havia nada de concreto. Exército, Marinha e Aeronáutica estavam lá no canto deles, caiando meio-fio aqui, dando piruetas no ar ali, lançando nota de repúdio acolá. Alheios, portanto, a essa estranha atração dos brasileiros pela sensação de estarem vivendo momentos tormentosos, ruidosos ou, como dizem os executivos novinhos, disruptivos (argh).

É disso (e de uma inacreditável barbeiragem política) que se trata todo o barulho em torno dos poucos tanques que decidiram tirar foto dos cartões-postais de Brasília: a vontade de fazer parte da história e de se ver obrigado a se posicionar claramente no apoio ou oposição a um ser malvadão com poderes absolutos. E, assim, posar para as gerações futuras como um desses rebeldes que têm medo de barata ou um colaboracionista de bigodinho pontinho.

Barbeiragem política

O que vivemos nas últimas 24 horas é, pois, consequência de uma fantasia forjada logo no dia 1º de janeiro de 2019. Me refiro, aqui, à fantasia de que o governo de Jair Bolsonaro seria assim uma espécie de teocracia fascista daquelas que jogam gays do alto de edifícios e queimam livros. Não é nem nunca foi. O problema é que essa fantasia, antes restrita a uma esquerda rançosa e carcomida, hoje em dia contamina setores da sociedade que se cansaram da retórica belicosa do presidente.

Daí a barbeiragem política a que me referi dois parágrafos atrás. Por mais que o desfile de tanques estivesse marcado há tempos e por mais que fosse apenas um evento protocolar, não convém atiçar uma oposição que, sabemos, vive de sinalizar virtude. É muita, digamos, ingenuidade não prever que essa oposição faria do desfile um escarcéu, interpretando o papel piegas de uma vítima de intimidação (oh!). Bolsonaro dá aos covardes a oportunidade de parecerem corajosos.

Tampouco convém cutucar o enxame daqueles que não aguentam mais barrosices no STF e renanzices do Senado e que veem numa ruptura a oportunidade de chegarem em casa, ligarem a TV no Jornal Nacional e não passarem raiva. Simplesmente porque não há absolutamente nada de virtuoso em despertar nas pessoas o medo – erro, aliás, que o STF vem cometendo com uma frequência (na falta de um adjetivo melhor) assustadora.

Por mais que vivamos numa época de vazio moral disfarçado de convulsão política e que queiramos preencher esse vazio dando um sentido especial ao fato de vivermos em determinada época, nesta época, a verdade é que a convivência harmoniosa é, necessariamente, tediosa e modorrenta. A democracia ideal, pois, é aquela que se arrasta como uma simpática lesma pelo campo de batalha ideológico. E o Estado de Direito? O Estado de Direito age melhor quando encarna o cartorário de oclinhos de aro fino do que quando banca o revolucionário do bem.

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