O Estado brasileiro regulava esta que é uma das relações de caridade mais básica de todas: uma pessoa estendendo um prato de comida a outra em necessidade.| Foto: Reprodução
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Atenção, porque estou prestes a escrever a frase mais imprudente e perigosa do nosso tempo. Prevejo que ela surja ali pelo terceiro ou quarto parágrafo, depois de feitas todas as ressalvas. Porque, no fundo, é disso que se trata este texto: das ressalvas e mais ressalvas necessárias para se falar algo que deveria ser óbvio, até corriqueiro, e decididamente isento de toda essa carga dramática.

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Meu coração acelera. As mãos suam. Vou escolhendo as palavras todas com muito cuidado. Mesmo sabendo que é inútil. Que a única precaução realmente eficiente seria manter o silêncio. Que, a despeito da simplicidade e até mesmo irrelevância da frase, ela já nasce carregada de uma repulsa que seguramente será transferida a mim. Por que escrever, então? Será que gosto tanto assim da aventura ultrarradical do encadeamento de ideias? Será que estou viciado na endorfina de me fazer compreendido?

Acontece que o presidente Jair Bolsonaro sancionou uma lei, de autoria do senador Fernando Collor, permitindo que restaurantes doem sobras de alimentos a pessoas carentes. E aqui vale, sim, um “oh” de espanto. Era proibido? Mais ou menos. A lei anterior era tal que responsabilizava o doador por qualquer dorzinha de barriga causada pelo alimento dado a quem passava necessidades. Sem querer correr riscos, portanto, os donos de restaurante preferiam jogar as sobras no lixo a doá-las.

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Sim, é inacreditável, mas o Estado brasileiro regulava esta que é uma das relações de caridade mais básica de todas: uma pessoa estendendo um prato de comida a outra em necessidade. A regulamentação ofendia, e muito, o bom senso. Porque ela partia do pressuposto macabro de que o dono de um restaurante, talvez por ser um patrão-capitalista-malvadão-de-cartola-na-cabeça, usaria as sobras de alimentos doadas aos mendigos para intoxicá-los deliberadamente.

E eis que chego à frase imprudente & perigosa, já pedindo desculpas pelo parágrafo de atraso: o presidente Jair Bolsonaro agiu corretamente. Uau. Calma que agora até me assustei. Eu escrevi isso mesmo? E mais: tive a coragem de publicar?

No atual ambiente de hostilidade, elogiar uma atitude cuja correção chega a ser ridícula, de tão óbvia, resvala na loucura, quando não na estupidez. Para quem odeia a pessoa que atualmente ocupa o Palácio do Planalto, tudo é um absurdo, inclusive os acertos dele. E todas as medidas já nascem contaminadas por uma espécie de mal intrínseco. Bolsonaro é Hitler, é Nero, é o próprio Lúcifer – e qualquer coisa que ele faça é digna de escárnio.

Para essas pessoas, apontar um acerto de Bolsonaro (em “conluio” com Fernando Collor, ainda por cima!) é, portanto, coisa de pena vendida, de fanático bolsominion, de extrema-direita desalmada ou intencionalmente ignorante que não percebe que tudo é um grande plano neoliberal higienista para, lentamente, uma diarreia por vez, exterminar as vítimas maltrapilhas do capitalismo desumano.

E, agora que já abri a porteira, talvez seja o caso de escrever a “segunda frase mais imprudente e perigosa de nosso tempo”. E a terceira. E a quarta. Bolsonaro não é Hitler, mas tampouco o Messias. Ele não é o ungido. Não é o “homem que colocará o Brasil nos eixos”, simplesmente porque esse eixo não existe. A história não é um caminho linear rumo a um futuro perfeito – utopia, aliás, muito mais associada ao coletivismo de esquerda que atende pelo nome de comunismo.

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A salvação ou a redenção ou a felicidade (para quem nelas acredita e almeja) só são alcançáveis por meio da manifestação muito íntima e particular da caridade. Pode ser o uso de máscara no mercado para proteger uma pessoa que está com medo de um vírus. Pode ser a leitura generosa de um texto com o qual se discorda integralmente. Pode ser o perdão amplo e irrestrito a quem um dia lhe causou mal.

E pode ser o reconhecimento de que há, na política e fora dela, atos genuinamente bons, como dar um simples prato de comida a um mendigo sem a necessidade de intermediação do Estado e sem achar que, por trás disso, há todo um esquema diabólico para exterminá-lo com uma rajada de salmonela.