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Manifestação contra Jair Bolsonaro: fartura de gritos e escassez de ideias.
Manifestação contra Jair Bolsonaro: fartura de gritos e escassez de ideias.| Foto: Lula Marques/ Fotos Públicas

“A gente somos inútil”, canta Roger, do Ultraje a Rigor, para em seguida soar quase profético ao dizer “a gente não sabemos escolher presidente” e sobretudo “a gente não sabemos tomar conta da gente”. Acrescentaria, e é uma pena que a rima não caiba em nenhum momento da letra, que a gente não sabemos fazer oposição. Nunca soubemos. E esse é um dos maiores dramas da nossa política.

No Brasil a oposição ou é burra e escalafobética, do tipo que aposta no “quanto pior melhor” e se opôs até ao Plano Real, ou é omissa e tem os “glúteos-moles”, do tipo que precisa de nota de rodapé para assumir uma postura contrária à situação.

A primeira é notoriamente representada, nos últimos 40 anos, pelo PT e seus vários partidos-satélites. A segunda teve uma única chance de atuar desde a redemocratização, isto é, durante os intermináveis anos em que o petismo virou vidraça. E é representada pelo PSDB e um punhado de partidos que se dizem liberais/conservadores, mas que, sabemos, não é nem uma coisa nem outra.

Já na conturbada eleição de Collor, o PT e seus asseclas deram sinais de que não aceitariam o rito democrático nem se contentariam com seu papel (legítimo e digno, diga-se de passagem) de oposição. O fato de os planos econômicos serem desastres teóricos e práticos, sem falar nos sucessivos escândalos que hoje parecem até brincadeira de criança (um Fiat Elba? Sério?!), ajudaram a consolidar um estilo de oposição que dá as costas para o tal do “bem comum”.

É seguro dizer que, de 1989 a 2002, a oposição só pensou em uma coisa: assumir o poder. E, para isso, usou de todos os meios de sabotagem possíveis. O país? O bem-estar da população? O azeitamento da máquina estatal? Nada disso jamais importou para uma oposição que sempre tratou os governantes da vez como monstros a serem exterminados, quando não “jogados na vala comum da história”, e não como adversários políticos que defendiam ideias que em geral não eram nem contrárias, e sim diferentes.

De estilingues e vidraças

Naquele tempo, contudo, a imprensa ainda não era tão ostensivamente militante e servia como uma espécie de amortecedor para esse ímpeto destrutivo da oposição praticada por PT, PDT, PCB & Cia. Embora as redações já estivessem apinhadas de lulistas, havia certo decoro que impedia os formadores de opinião de se juntarem ao coro de “Fora FHC!”, por exemplo. A imprensa era oposição, não antagonista.

O PT, enquanto isso, e a despeito do sucesso do milagroso Plano Real, continuou seguindo sua cartilha revolucionária rumo ao poder. No Poder Legislativo, reduto em que prosperou e ainda prospera, o petismo sempre ignorou os conceitos “burgueses” em que se baseiam a ética política (como honra e a mítica busca pela Verdade, por exemplo) para se firmar como a única saída para o país. Até que, em 2002, o estilingue virou vidraça.

Levando em conta que Dilma Rousseff sofreu um traumático processo de impeachment em 2016, é até estranho falar que a oposição foi omissa no governo do PT. Mas aqui é bom frisar que o impeachment de Dilma ocorreu apesar, e não por causa da oposição, na época capitaneada pelo PSDB. Que, depois que Lula ascendeu ao trono, prestou-se ao patético papel de mero despachante de todas as políticas progressistas do Partido dos Trabalhadores. O PSDB fingia ser oposição, mas a verdade é que estava gostando das políticas esquerdistas do lulismo.

Por consequência, o PSDB deixou o PT à vontade, tranquilão mesmo, para mexer de forma desastrosa não só na economia, mas também na educação, nas políticas ambientais, na segurança pública, na estrutura do Poder Judiciário e na infraestrutura. Toda essa condescendência teve consequências nefastas para o país. E, mais uma vez, qualquer noção de bem comum se perdeu.

Uma ajudinha da imprensa e do STF

O que se vê hoje em dia, com a oposição ferrenha e incansável a Jair Bolsonaro, nada mais é do que uma “volta aos bons tempos” daquele petismo revolucionário que espera contar, no caso de uma vitória em 2022 (toc, toc, toc), com a condescendência também da imprensa e do STF – duas instituições que sempre prezaram pela neutralidade (nem que fosse teórica), mas que hoje em grande medida se uniram em oposição nem tanto ao governo, e sim ao homem que ocupa o Palácio do Planalto.

Conchavos à parte, o fato é que José Sarney soube lidar bem com a oposição intransigente de uma esquerda recém-saída da Ditadura Militar – e louquinha para mostrar as garras de seu ressentimento. Collor disse ter “aquilo roxo” e deu no que deu. Fernando Henrique Cardoso, por outro lado, entendeu que os gritos de “Fora FHC!” eram só um teatro encenado por seus amiguinhos do sindicato. Lula, mesmo sem precisar, pagou mesada para garantir a governabilidade. E Dilma, emulando Collor, partiu para o confronto – do qual saiu derrotada.

Dizem que o presidente Jair Bolsonaro, com seu jeito que uns chamam de (  ) simples e outros de (  ) tosco, com sua retórica que uns consideram (  ) sincera e outros (  ) grosseira, quando não (  ) intolerável, e com seu governo que uns dizem ser (  ) inquestionavelmente maravilhoso, (  ) ruim, mas pelo menos não tem corrupção ou (  ) péssimo, é um exímio jogador desse xadrez 4D cuja lógica escapa a nós, seres humanos comuns. Pode ser.

Mas pode ser também que a falta de traquejo político, ainda que em concordância com os anseios de boa parte da solução, fragilize ainda mais essa vidraça tão cobiçada pelos espertalhões de estilingue em riste e cujo horizonte, para a infelicidade desse país abençoado por Deus e bonito por natureza, não vai além de 2022.

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