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No fim de semana, formadores de opinião parecem ter disputado quem era cancelado mais rápido na cobertura da morte de Marília Mendonça.
No fim de semana, formadores de opinião parecem ter disputado quem era cancelado mais rápido na cobertura da morte de Marília Mendonça.| Foto: Reprodução/ Twitter

Me causa espanto a morte de celebridades, sejam elas de que calibre forem. E ainda mais em meio à pandemia de cancelamento para a qual, aparentemente, não há vacina. Nesses casos, à comoção invariavelmente se mistura a revolta dos fãs por algum detalhe que ficou sobrando ou faltando no obituário. E, assim, da morte nascem várias discussões sobre o nada e coisa nenhuma. E tome cancelamento!

É assim desde que o mundo é mundo. Ou melhor, desde que o mundo criou celebridades. O que era para ser um momento de reflexão coletiva, uma espécie de lembrete cósmico de que todos vamos morrer (memento mori) e que por isso mesmo nossas lutas (inclusive as políticas) devem ser escolhidas e travadas com cuidado, se transforma numa exaltação dessas mesmas lutas, à revelia do lembrete que insiste em ser esfregado em nossa cara.

A despeito de Lula e Bolsonaro e PEC dos Precatórios e cancelamento de jogador de vôlei e decisões do STF e todos os tipos de confrontos diários nos quais somos levados a nos envolver, a morte é o norte que orienta as bússolas de todos nós. A morte é uma certeza. Pode ser daqui a alguns dias ou décadas. Pode ser agora mesmo. Seja quando for, o fato é que haverá um dia em que nossas opiniões ou atos sobre isto ou aquilo se reduzirão apenas a consequências. (Profundo, não?)

Qual o sentido, então, em usar esse momento especialmente dolorido para a família e os admiradores da cantora para discutir a cor de pele, o peso, a orientação sexual e as preferências políticas da moça? De que vale aproveitar a tragédia para vir a questionar a qualidade artística do trabalho dela? Por que não reconhecer de uma vez por todas que desperdiçamos nosso tempo preciosíssimo sobre esse geoide azul em discussões inúteis como essas?

Neste caso, infelizmente, as perguntas não são apenas retóricas. E a resposta para elas está na necessidade contemporânea de ser reconhecido pelas multidões. Em outras palavras, a necessidade de ser famoso e, assim, ter uma voz ativa no mundo. Eu disse “necessidade”? Minto. Trata-se de um vício – uma vez que o indivíduo passou séculos e séculos vivendo num mundo alheio à existência dele e nem por isso a Humanidade foi extinta.

Vale lembrar que, mesmo sob ataque progressista, somos livres para cometer o bem. Ou seja, ninguém o obriga a ser o espírito-de-porco que politiza a morte de uma artista popular de 26 anos. Este é um daqueles momentos, portanto, em que você pode optar por uma atitude realmente virtuosa. Nem que seja pelo silêncio respeitoso. (Aquele que insistem em confundir com covardia, mas não é).

Estranha potência

As campanhas de cancelamento têm um papel nesse fenômeno, mas não no sentido que você imagina. E se eu lhe dissesse, por exemplo, que há pessoas que buscam (sejamos generosos, parecem buscar) o cancelamento por meio de opiniões à toa, todas elas sempre controversas e polêmicas, digna de revolta ou apoio sempre entusiasmado? Afinal, não é preciso nem saber a tabuada do 7 de cor para concluir que, para além do ambiente belicoso, a cultura do cancelamento cria vítimas que imediatamente se tornam celebridades.

"Ah, mas eu disse que ela era branca. Ah, mas eu disse que ela era hétero. Ah, mas eu disse que ela era pensava assim, e não assado, e votava assado, não assim. Ah, mas eu disse que para o meu gosto as músicas delas não serviam". Novamente temos aqui a mais profunda das perguntas jamais respondidas por meus contemporâneos: para que você quer liberdade, afinal?

Como quebrar esse círculo (triângulo?) vicioso de agressão-cancelamento-vitimismo? Seguramente não será com leis – por mais rígidos que sejam os calabocas chancelados pelo STF. Nem regulamentando as redes sociais. Como sempre, a solução para esse problema passa por uma reflexão individual profunda sobre o peso e a relevância das próprias palavras. Bem como sobre o objetivo delas.

A “estranha potência” das palavras, mencionada por Cecília Meirelles em seu lindo (e esquecido) “Romanceiro da Inconfidência”, não tem a ver com o leitor/espectador/ouvinte que se sente ferido em seu questionável “direito a não sofrer”. Não! A estranha potência tem a ver com a arma de que dispõe quem escreve/fala. E sobretudo com a disposição dessas pessoas em usar ou não a força das palavras para destruir os vivos e aviltar os mortos.

Já que nesta guerra os objetores de consciência são vistos todos como covardes, talvez a solução passe por conceder a todos, de uma vez por todas, o direito à agressão mútua, de modo que a ofensa de um anule a ofensa do outro. Seja como for, o importante é deixar em paz os mortos. Bem ou mal, eles já fizeram a parte deles. Ou pelo menos tentaram. E, só por isso, são dignos de nossa admiração.

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