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Quando Hans Christian Andersen escreveu “A Roupa Nova do Rei”, ele não esperava que sua história fosse virar realidade num reino tropical.
Quando Hans Christian Andersen escreveu “A Roupa Nova do Rei”, ele não esperava que sua história fosse virar realidade num reino tropical.| Foto: Reprodução/Wikipedia

Era uma vez um bandido muito malvado, mas muito inteligente, cujo nome se perdeu no lodo da história. Uns o chamam de José, outros de Daniel . Condenado e preso, mas depois solto porque tinha como carcereira uma Justiça que além de cega não batia muito bem das ideias, por algum motivo o bandido veio parar no Bananão (apud Ivan Lessa), um reino governado pelo Conselho de 11 Ministros.

Chegou de mansinho, o bandido. E já foi tratar com o ministro que ele sabia o mais vaidoso e, portanto, suscetível a seus encantos diabólicos. Por meio de um intermediário, ele ofereceu seus serviços de consultoria política. Mas, como o ministro não concordasse com o valor, o bandido resolveu incluir no pacote seus talentos de alfaiate. No que o vaidoso ministro concordou de pronto, crendo estar fazendo um negócio da China.

Não que o ministro precisasse de uma toga nova. Vaidoso como era, ele tinha todo um armário cheio de togas em tons de preto os mais variados e que ele usava de acordo com o humor do dia. Quando estava possesso, furioso mesmo, e queria prender alguém por ofender sua frágil dignidade, o ministro usava um preto mais básico. Quando queria posar de defensor da democracia, no entanto, ele optava por um preto cintilante que muitos confundiam com vermelho-comuna.

A toga que o bandido-alfaiate ofereceu a esse ministro como brinde no pacote de consultoria política era diferente. Ela era feita com um tecido especial, cujo tom preto-trevas só poderia ser admirado em toda a sua plenitude pelas pessoas mais inteligentes do Bananão. “Essa toga também o fará tomar decisões mais democráticas, constitucionais e de acordo com os mais elevados padrões do Estado Democrático de Direito Inc.”, disse o bandido-alfaiate naquele tom melífluo dos grandes estelionatários.

Durante a negociação, e diante da hesitação do ministro, o bandido-alfaiate abriu uma maleta e dela tirou uma amostra do tecido com o qual confeccionaria a toga. Ou melhor, A Toga. O ministro, obviamente, não viu nada. Mas jamais admitira isso. “Que lindo!”, disse, olhando para as mãos vazias do bandido-alfaiate e, por um instantenzinho de nada, questionando a própria inteligência. A dúvida o deixou ainda mais ansioso para ter em volta do corpo magro a toga que o tornaria o supremo entre os supremos.

Faltam uns poucos retoques

O tempo passou. Instalado numa mansão no Lago Sul que fazia as vezes de ateliê, o bandido-alfaiate se dedicava aos conluios nada republicanos, ao mesmo tempo em que dizia estar dando os últimos retoques na toga mágica. Um dia o ministro, sem aguentar de ansiedade, foi à casa do bandido-alfaiate conferir como estavam os trabalhos. Um repórter fotográfico que passava por ali viu e tirou uma foto. Que, infelizmente, nunca ganhou a luz do dia, porque o Conselho de 11 Ministros tratou logo de abafar o caso, decidindo que a realidade era fake news.

Na mansão, o bandido-alfaiate apontou para um manequim nu. “Taí. Uma beleza, não é? Faltam uns poucos retoques. Não estou muito satisfeito com essa parte aqui, ó”, disse ele, fingindo pegar a toga com todo o cuidado do mundo. A fim de não ser visto pelo que era, o ministro sorriu e meneou a cabeça como se entendesse tudo de moda. “Não precisa se preocupar, não. Para mim está ótima assim. Não gosto de gente perfeccionista”, disse o ministro ao bandido-alfaiate. Que não era bobo nem nada e respondeu: “O senhor é quem sabe, excelência”.

Assim saiu da mansão no Lago Sul o ministro, levando consigo um pacote de vento que ele acreditava ser uma toga mágica. Na sacola, um folheto o instruía a vestir o traje sempre que lhe coubesse tomar uma decisão daquelas capazes de afetar as bases da democracia. Como prender arbitrariamente pessoas com opiniões estúpidas, por exemplo.

No dia seguinte, o ministro vaidoso apareceu no Conselho para dar expediente, levando consigo a toga mágica, mas disposto a só usá-la nos casos especiais em que precisasse demonstrar toda a sua inteligência, saber jurídico e moral elevada. Tudo corria bem, até que entrou esbaforido no gabinete dele um outro ministro. “Você não sabe o que aconteceu!”, disse ele ao vaidoso-sem-nome, mas que todo mundo sabe quem é. “Atacaram a nossa dignidade! Com fake news! Olha só a mancha aqui na minha toga”, choramingou.

O ministro vaidoso não viu nada. Mas, pensando talvez que fosse assim uma mácula invisível na frágil dignidade do Conselho, levantou-se, foi até o armário, pegou a toga mágica, pensando: “Agora eu se consagro!”. Vestindo o nada diante do outro ministro, que neste momento já havia se encolhido em posição fetal, murmurando “Tadinha da democracia, tadinha da harmonia entre poderes”, ele tomou ali mesmo a decisão de abrir um inquérito sobre fake news. Mas só no dia seguinte, porque o STF, digo, Conselho não paga hora extra.

E deixaram para lá

E foi o que ele fez. De ofício, como se diz, e passando por cima da Constituição, ele mandou prender e censurou opositores, tudo em nome do bem comum, da defesa de democracia e da dignidade das instituições. Os demais ministros, ao verem o vaidoso cometer todas essas barbaridades, a princípio se preocuparam. Mas daí lembraram que ele usava a toga mágica cujo negror só podia ser admirado pelos mais inteligentes. E deixaram para lá.

O ministro estava todo pimpão, peticionando a si mesmo, investigando e julgando, e não percebeu quando por uma portinhola lateral do Conselho entrou um menino chamado Bob. Para ser bem sincero, Bob era uma espécie de idiota da aldeia. Mas isso não vem ao caso. O que importa é que o menino meio tantã entrou no plenário do Conselho e, vendo o ministro fazer o que fazia, não perdeu tempo, gritando: “É inconstitucional! É inconstitucional!”.

Diante da obviedade da constatação, os demais ministros se entreolharam. E, talvez um tiquinho tarde demais, perceberam que o vaidoso-sem-nome não vestia toga mágica coisa nenhuma. O próprio ministro se encolheu, lembrando de seus tempos de constitucionalista e se dando conta, pela primeira vez, que havia manchado sua biografia com o preto-trevas da toga mágica inexistente.

Tudo caminhava para um desfecho de Disney quando o ministro se levantou e, surpreendendo a todos, mandou prender Bob. Enquanto o menino era levado para a Masmorra de Bangu I, o ministro dizia aos demais para não se espantarem. “Esses são os poderes constitucionais a mim conferidos pela toga mágica. Não adianta explicar. Vocês não entenderiam”, disse, rindo e limpando uma única gota de suor que escorria da calva.

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