Sábado à noite. Estava assistindo a um filme (chato) quando resolvi pegar o celular. Entrei no WhatsApp e vi a mensagem de um amigo: “Bolsonaro acabou de mostrar as tripas dele no Twitter”. Levei um tempo para decifrar a mensagem e ingenuamente pensei que o ex-presidente tinha decidido, sei lá, contar algum podre bem podre do Alexandre de Moraes, e que se dane o risco de ser preso e tal. Ou talvez fosse uma piada cuja referência tinha me escapado. Acontece.
Curioso que sou, e ainda sem acreditar (mas já acreditandozinho), entrei na rede social mais próxima. E por que não me surpreendi ao ver elas: as tripas, como disse o amigo; as vísceras, como digo eu; as entranhas do ex-presidente Jair Bolsonaro, como diz alguém com algum pendor poético? “Não acredito”, disse, mas sem ponto de exclamação porque a surpresa se dissipou em um segundo, e perguntando para a minha mulher se ela queria ver. Ela fez que não e foi aí que mostrei a imagem. Boys will be boys, etc.
“Que nojo!”
“Que nojo!”, respondeu ela, sem tirar os olhos do meu celular. Na hora, comentei que nunca tinha visto um intestino – normal ou doente – antes. Era verdade. E que agora não dava para desver. Outra verdade. A imagem tinha me hipnotizado. Nem tanto pela ojeriza ao vermelho vivo ou pela vulgaridade das dobras caóticas expostas à apreciação pública por um corte cru, com um quê de rústico, e mais pela aleatoriedade. Pelo que havia de entediante e falsamente profundo naquilo tudo.
“Isso também é um ser humano”, pensei, mas não falei na hora e por isso falo agora: “Isso também é um ser humano”. Por “isso”, me refiro à capacidade de mostrar as tripas a fim de que a imagem vire primeiro fato e depois análise (por aqui deu certo, como se vê). E também me refiro aos intestinos em si, àquilo que nos irmana e nos iguala: a nossa porção meramente carnal.
Tudo teatro?
Isso é um ser humano que levou uma facada, que virou presidente do Brasil, que é amado por milhões – e que achou por bem exibir suas tripas/vísceras/entranhas para quem quisesse ver. Por quê? Não tenho a menor ideia e este é o propósito deste texto: ver e rever a imagem para a qual já me tornei insensível, e perguntar a quem é mais inteligente do que eu: por quê?, por quê?!, por quê??!!, por quê???!!!
Vi quem dissesse que a imagem foi publicada para acabar com os boatos de que a operação de 12 horas foi uma farsa, assim como a facada. Mas me custa acreditar na persistência dessas dúvidas toscas. Sério que tem gente achando que é tudo teatro? Se bem que há quem diga que Lula morreu e quem nos governa é um sósia. E houve quem acreditasse que Tiririca entrou mesmo para a ABL. Quase fui obrigado a explicar a piada, acredita?
Compaixão
Me passou pela cabeça, então, a possibilidade de um médico esclarecer o mistério: por que Bolsonaro expôs suas vísceras nas redes sociais? Devia haver uma explicação científica para isso. Foi assim que enviei a imagem para uma doutora, mas dela recebi apenas um simples e decepcionante “eca!”. Foi a pior coisa que poderia me acontecer, porque a partir daí especulei, especulei, especulei.
Será que Bolsonaro mostrou as tripas para despertar a compaixão de seus inimigos – notadamente Alexandre de Moraes, que o quer preso? Talvez tenha sido com a intenção de comover quem não gosta dele. Ou melhor, de reduzir o tal do Mito ao seu aspecto mais humano. E bota humano nisso! Vai ver foi bem o contrário: reforçar o caráter mitológico, praticamente imortal, daqueles que muitos têm como salvador da Pátria.
Memes
Talvez. Mas talvez tenha sido apenas uma postagem orgânica, intuitiva e impulsivamente estúpida e vulgar. Uma imagem repugnante sem qualquer outra intenção que não a de chocar. Digo, de zombar dos algozes que mandaram até oficial de justiça intimar Bolsonaro na UTI do hospital. Mas talvez também tenha sido uma espécie de harakiri – o suicídio simbólico de alguém que não vê saída honrosa para a situação em que se encontra.
Hoje acordei e logo cedo vi que a imagem das entranhas bolsonarianas rendeu ao menos dois bons memes: uma versão em Lego e outra daquele jogo “Operando” – sabe qual? Bom sinal. Prova de que pouca gente está levando a sério algo que, noutros tempos, poderia ser interpretado como um símbolo de martírio, quando não de chamado às armas. É nisso – na nossa capacidade de rir e na nossa ingenuidade, seja ela intencional ou não – que deposito minhas esperanças.
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