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Coluna de Mariliz Pereira Jorge na Folha de S. Paulo troca a argumentação por insultos.
Coluna de Mariliz Pereira Jorge na Folha de S. Paulo troca a argumentação por insultos.| Foto: Reprodução

Convenhamos. Criticar o presidente da República, seja ele quem for, sempre foi fácil. Para não dizer prazeroso. Afinal, um presidente combina o fato de ser uma celebridade, naturalmente sujeita ao escrutínio público, e um executivo cujas ações na teoria, e às vezes na prática, interferem no nosso cotidiano. Isso torna o presidente, seja ele quem for e em que época for, o bode expiatório perfeito.

Não faz muito tempo, criticar o presidente era uma tarefa nobre. Rir do presidente, mais nobre ainda. Ninguém pressupunha que o crítico ou o palhaço tivessem interesses espúrios quaisquer. Nem os próprios presidentes, que se sabiam vidraças sujeitas a pedradas.

Nos últimos anos (décadas?), porém, alguma coisa mudou e hoje em dia qualquer crítica que se faça ao presidente (e neste caso estou falando especificamente de Jair Bolsonaro) é vista como má-fé. Como uma tentativa de derrubá-lo para que a esquerda volte ao poder e transforme o Brasil numa Venezuela. Tente fazer uma piadinha com os trejeitos ou a fala mui peculiar de Bolsonaro, por exemplo, e você será alvo de uma enxurrada de comentários mal-humorados, seu comunista-petista-mau-caráter.

Mas criticar, embora não seja preciso (no sentido de exatidão), é preciso (no sentido de necessidade). A não ser que a gente concorde de antemão que este ou aquele chefe do executivo é onisciente e têm carta branca para fazer ou falar o que quiser. Isto é, a não ser que a gente concorde que somos todos cordeirinhos destinados a nos submeter à tirania de um sábio plenipotenciário. Não é o caso. Ou estou enganado?

Como eu dizia, criticar (ou transformar em piada) o presidente sempre foi uma tarefa nobre, empreendida por gente que sabia usar mesóclise e, se não usava, era porque considerava cafona demais. Gente que tinha lido o básico dos clássicos, nem que seja de orelhada. Gente também versada nos paranauês metafísicos. Gente sem maiores interesses além de querer viver uma vida boa e honrada.

Vulgaridade incondicional

Hoje, não. Os críticos se vulgarizaram. E por isso usam a esmo palavras como “genocídio” e “fascismo” – que é algo que não me desce. Comparações entre o atual presidente e Hitler estão por aí aos borbotões. Fala-se até em necrofilia política, o que quer que seja isso. Parte-se do pressuposto de que Jair Bolsonaro foi eleito numa espécie de delírio coletivo de pessoas tão simplórias e tão essencialmente más quanto o atual inquilino do Palácio da Alvorada.

O que é reprovável, claro, mas também compreensível. Com a vulgarização da comunicação de massa e o surgimento dos influencers, a tarefa antes nobre de criticar formalmente o presidente também se vulgarizou. Ou melhor, se pulverizou, como dizem os mudernus. E os xingamentos e argumentos rasos, antes restritos às deliciosas e inconsequentes conversas de boteco, ganharam as páginas dos jornais e as redes sociais.

O problema é que, numa espiral descendente, a reação presidencial às críticas também se vulgarizou. E o que antes entrava por um ouvido-em-chefe e saía pelo outro agora é digno de resposta atravessada e, não raro, mal-educada. Tosca mesmo. Os apoiadores defendem esse tipo de reação dizendo que é ela é necessária, que não se combate o Mal (a esquerda) com palavras bonitas ou flores. Os detratores, por sua vez, perdem qualquer razão ao dizerem que só a morte de um homem é capaz de salvar o país.

Quem não está ao meu lado incondicionalmente está incondicionalmente contra mim e precisa ser calado – este é o raciocínio que norteia os dois extremos da ferradura. O que é uma lástima! Saber criticar e saber ouvir críticas é fundamental para o amadurecimento de qualquer pessoa, ainda mais quando essa pessoa representa uma instituição, seja ela a imprensa ou a Presidência.

Óbvio ululante

Digo isso porque acredito no óbvio ululante: faria um bem danado ao país se conseguíssemos elevar o nível do debate público. Faria bem até mesmo à luta contra a Covid-19. Faria um bem danado ao antipetismo. E faria bem principalmente à sanidade mental do brasileiro que, por acaso, é também leitor, ouvinte, espectador e eleitor.

Para tanto, é preciso que alguém dê o pontapé inicial (não no adversário, pelo amor de Deus!). E quem está disposto a isso? Isto é, quem está disposto a baixar o tom? Para um presidente com histórico militar, talvez recuar na retórica agressiva seja impensável. Afinal, ao soldado é proibido demonstrar fraqueza no campo de batalha. Já os críticos mais exaltados estão ocupados em exibir a própria virtude ou em ganhar coraçõezinhos, palminhas e outras demonstrações de afeto virtual, para o bem de seus egos ou conta bancária.

Além disso, criticar com inteligência e ouvir inteligentemente as críticas dão trabalho. Ah, se dão. É muito mais fácil usar palavras vazias, mas assustadoras, como “genocida”, do que desenvolver um argumento convincente sobre um aspecto que se considere equivocado. Ou reconhecer eventuais acertos do presidente – absurdo dos absurdos. Da mesma forma, é muito mais fácil reagir ao insulto com algo igualmente insultante do que ponderar cinco minutinhos sobre a validade ou não da crítica. E alterar o rumo, se for o caso.

Quem sabe amanhã

Escrevi este texto porque, há uns dois meses, um amigo me disse que não gosta de me ver usando meu suposto talento para defender político. As palavras ficaram ricocheteando em minha mente. Não como um insulto, porque palavra de amigo raramente é insulto, e sim como uma crítica pertinente ao meu trabalho.

Defender. Atacar. O segredo para compreender o estado atual do debate público no Brasil talvez esteja na linguagem militar, infelizmente empregada pelo Pê-erre e por quem o combate. Tudo se transformou numa relação de força. As palavras deixaram de ter como objetivo a “interminável construção da Civilização”. O objetivo delas passou a ser a demolição de “tudo o que está errado” e o extermínio do inimigo e de sua cultura nociva.

Outro ingrediente que ajuda a corroer o debate público é o pressuposto da maldade. Tudo o que faz e se diz, de um lado ou de outro, é visto como uma expressão de uma má-intenção. Escrevi sobre isso ao falar sobre aquelas pessoas que acreditam realmente que o ministro do Meio Ambiente quer transformar toda a Amazônia em carvão. A pergunta é: por que não pressupor que o objetivo é inerentemente bom e que divergimos apenas quanto ao melhor caminho para se chegar até lá?

E, só para não encerrar o texto com uma pergunta, digo que gostaria de poder sugerir, com alguma graça e leveza, e sem nunca ser confundido com um militante ou um “inimigo” ou jornalista histriônico membro da extrema-imprensa, que o atual presidente (e o anterior e o próximo) errou nisso e naquilo. Que talvez fosse melhor não ter dito o que disse. Que, olha, não sei se o senhor já reparou, mas essa canetada aí talvez tenha consequências negativas de longo prazo. Etc.

Quem sabe amanhã.

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