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Polzonoff

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Além da revolta: o que podemos aprender com a Débora do Batom

DÉBORA DO BATOM
Esta é a irmã da Débora do Batom, em entrevista ao programa Sem Rodeios, da Gazeta do Povo. (Foto: Gazeta do Povo)

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Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.
Mateus 6:33

Nem sei se as pessoas que me leem estão interessadas em aprender alguma coisa com a história da Débora do Batom. Ou se só querem gritar que é “absurdo!” e “inaceitável”. Tomara que queiram aprender. Porque a injustiça é terreno fértil para muitas coisas ruins, entre elas a vitimização e a sensação de que o mundo nos deve alguma coisa. Nos deve reparação. Não deve. A injustiça dói. Sempre doeu. Mas quem viveu o suficiente sabe que o mundo não se dobra à nossa vontade.

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Pois bem. Assisti à entrevista da Débora do Batom para a Oeste. Impossível não se revoltar um tiquinho e não se emocionar outro tanto. A história da cabeleireira mostra toda a crueldade e pequenez da “justiça” brasileira. O pesadelo por ela vivido mostra como o espírito do tempo esmaga o sujeito comum. O suplício pelo qual passou a moça que ousou, num momento de euforia, ridicularizar a frase “Perdeu, mané!”, dita pelo ex-ministro Barroso, é só mais um exemplo da falência moral da nossa sociedade.

Agentes da nossa história

Mas em certo momento resolvi ir além da revolta e da emoção e fiquei aqui pensando: de quantos exemplos mais precisaremos até entendermos a nossa responsabilidade nisso tudo? Ou será que não temos responsabilidade nenhuma? Será que somos vítimas de um grande complô? Será que não decidimos nada? Ou então: será que vivemos numa ilusão de liberdade quando na verdade estamos presos num enorme gulag de 8 milhões de km²? Não acredito nisso.

Somos responsáveis por nossas escolhas. Inclusive a escolha de fazer parte de algo que promete ser maior do que a própria vida. Além disso, convém aprender que a Débora não chegou sozinha à estátua – e com aquela disposição toda para “entrar para a história”. Houve toda uma cadeia de entusiasmos, promessas e expectativas que a antecedeu. A Débora do Batom é também fruto disso. E é por isso que a história dela dói mais do que revolta. Afinal, ainda que estejamos numa situação bem melhor do que a dela, não somos todos prisioneiros da guerra ideológica?

Normalidade do cotidiano

Não sei você, mas o que eu aprendo com a entrevista e o sofrimento da Débora do Batom é... o meu tamanho. A minha limitação diante de um Estado opressor. Também acho que vale pensar nas nossas prioridades: família ou política? Alma ou matéria? E mais: por que estamos (ou estivéssemos) tão suscetíveis ao espírito revolucionário à droite? Que demônio sacana é esse que nos leva a querer bancar o herói. Todo. Santo. Dia. E a que custo?

Dito isso, só espero que, passada a tempestade (e ela vai passar), a Débora do Batom não invente de sair candidata a nada. E que ela e sua família, bem como os demais envolvidos no 8 de Janeiro e todos aqueles que, impelidos por já-nem-sei-mais-o-quê e alheios à própria vocação, se sentem protagonistas da História, encontrem paz onde a política incomoda, interfere e causa revolta, mas não chega a destruir: no cotidiano pequeno e discreto, nada ruidoso ou revolucionário. Mas ainda assim poderoso e verdadeiramente transformador.

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