O Reino das Palavras Vazias era na verdade uma república comandada pela tirânica Democracia, irmã gêmea da recém-falecida Liberdade.| Foto: Gazeta do Povo
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Era mais um dia no Reino das Palavras Vazias. Reino que, apesar do nome, era uma república comandada pela tirânica Democracia, irmã gêmea da recém-falecida Liberdade. Aliás, corre à boca pequena pelo Palácio Aurélio que Lili, como era chamada pelos mais próximos, foi assassinada a mando da Democracia, sob influência do Grão-Vizir Xandão. Mas essa é uma história cabeluda para ser contada outro dia.

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Depois que, na ausência da irmã, passou a governar soberana, Democracia gostava de ocupar a janela central do Palácio Aurélio para fazer longos pronunciamentos à nação das Palavras Vazias. Nessas ocasiões, quem estivesse ali para receber os doutos perdigotos da tirana percebia que aquela mulher, um dia considerada a mais sábia do Reino, envelhecera. E envelhecera mal.

Desta vez, porém, os espectadores foram surpreendidos com a presença no púlpito do filho predileto e sucessor natural de Democracia naquela tirania supostamente virtuosa: Bem-Comum. O menino, que o grande jornalista Lugar-Comum costumava descrever como “de aparência angelical”, estava sendo educado para governar com mão de ferro - para usar uma expressão de outro grande periodista, Clichê.

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Democracia começou seu discurso falando da importância Disso e Daquilo. Ela destacou o trabalho de seu braço-direito, Constituição. O tom morno, contudo, logo deu lugar à euforia entre os presentes quando Democracia chamou para perto de si uma velha conhecida do povo, mas que andava um tanto quanto escondida dos holofotes: a Justiça.

Toda vestida de preto e segurando a balança sempre descalibrada, Justiça disse que vivemos tempos conturbados, mas que é preciso confiar no triunfo de Vossa Majestade Imperial Democracia. O povo aplaudiu e o discurso parecia caminhar para o fim quando Democracia gritou: “Parados!”. No que foi prontamente atendida. E alguém é louco de atentar contra a Democracia?

“Tenho um anúncio importante a fazer e depois vocês podem continuar com suas vidinhas medíocres”, disse a déspota semiesclarecida. Democracia fez um sinal com as mãos e tocaram as trombetas que sempre antecediam os momentos mais tormentosos de seus pronunciamentos. “Gostaria de apresentar para vocês as mais novas conselheiras do Reino que nos guiarão à utopia descritas por nossas mães fundadoras, Felicidade e Abundância”.

Medo, que não é bobo nem nada, foi o primeiro a bater palmas. Mesmo sem entender patavina daquilo. Pânico, seu primo, o acompanhou no entusiasmo fingido. Foi então que apareceram na janela (que já estava ficando pequena para tanta palavra importante) Ciência e Empatia. A primeira, com seu característico jaleco branco e óculos espessos, fez menção de falar alguma coisa. Mas.

Empatia com cara de Empáfia

Mas, para a surpresa de Surpresa e Espanto, que assistiam a tudo comendo pipoca-doce estourada na hora por um Cinismo corcunda e mal-humorado, Ciência foi subitamente lançada no ar por Empatia. Agitando os braços e as pernas como se parecesse acreditar que era capaz de voar, Ciência estatelou-se no chão e, por pouco, não atingiu o sempre distraído Acaso, que naquele instante tomava um sorvete.

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Empatia, então, deu um passo à frente, toda cheia de si. Não sem antes olhar para Democracia com algum desprezo ameaçador. Vai entender. Empáfia, que de um canto assistia a tudo impassiva, achou estranho e melhor não comentar nada. No que foi seguida por uma sempre trêmula Covardia.

Noutro cantinho (os cantinhos no Reino das Palavras Vazias são superpovoados, como se vê) e envergonhadas da parente rebelde, Solidariedade e Caridade se entreolharam. Solidariedade meneou lentamente a cabeça, como se reconhecesse a derrota de todas as coisas em que acreditava. Caridade fez o sinal-da-cruz e disse para si mesma: “Ah, se a Misericórdia estivesse viva para ver isso!”.

“Não temam!”, disse Empatia para os súditos da Democracia, que nesse momento trocavam entre si palavras a esmo, como numa grande guerra de tortas. Fez-se silêncio e até Burburinho, sempre muito afoito e barulhento, achou melhor se calar. “A Ciência teve de ser sacrificada. Não porque eu simplesmente quisesse. E sim para proteger a ele, o Bem-Comum”, disse ela, toda pomposa. Democracia sorriu, reconhecendo a lealdade de Empatia. Bem-Comum ficou na dele, olhando lá embaixo o corpo inerte de Ciência.

Pigarreando e sinalizando virtude, como lhe convém, Empatia então tirou a máscara e, num gesto teatral, pegou um papel do bolso e o abriu no ar, ao som de uma valsa de Strauss. “Viva o SUS!”, lia-se no cartaz escrito em letras góticas pela sempre prestativa ajudante-de-ordens Caligrafia.

Diante disso, Meritocracia se viu ameaçada e pensou: “Quer saber? Eu vou dar é o fora daqui!” E deu. Revoltada, como sempre, Indignação se levantou para soltar algum impropério, mas foi devidamente contida por Comedimento. Ali perto o jovem Cringe que estava de passagem pelo reino, vindo dos Estados Unidos, arregalou uns olhos inocentes e disse com ar blasé “And so on, and so on”.

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